Dados da violência

Existe um certo caos no controle de denúncias de violência sexual contra crianças. Nenhuma entidade governamental brasileira reúne números do combate ao abuso sexual de crianças de todos os Estados

A BBC Brasil buscou dados para uma reportagem sobre o percentual de denúncias de violência sexual contra crianças que resultavam em abertura de inquérito e possível punição de culpados. Procurou também informações centrais sobre crianças reportadas como vítimas em denúncias, como saber se estão em segurança. Encontrou não dados, mas um verdadeiro buraco negro de informações e descontrole estatístico por parte das autoridades.

Nenhum órgão mapeia denúncias e monitora o que acontece com elas. Não há controle consistente e padronizado em nível federal, estadual ou municipal que acompanhe quantas eram procedentes, quantas se tornaram inquéritos policiais, quantas chegaram à Justiça ou o que aconteceu com as crianças.

Os dados mais precisos são do sistema de saúde, que em 2016, registrou 22,9 mil atendimentos de vítimas violência sexual (estupro) no Brasil. Em mais de 13 mil deles – 57% dos casos – as vítimas tinham entre 0 e 14 anos. Dessas, cerca de 6 mil vítimas tinham menos de 9 anos. 57% das vítimas de violência sexual que chegam a hospitais tem de 0 a 14 anos.

Ao todo, 67,7% das crianças e jovens que sofrem abuso e exploração sexuais são meninas, contra 16,52% dos meninos. Os casos em que o sexo da criança não foi informado totalizaram 15,79%.

abuso sexual infantil

Os abusadores podem manipular as vítimas para ficarem quietas sobre o abuso sexual usando uma série de táticas diferentes. Muitas vezes, um abusador usará sua posição de poder sobre a vítima para coagir ou intimidar a criança. Eles podem dizer à criança que é uma atividade normal ou que eles gostam. A maioria das crianças não tem consciência de que uma atividade sexual entre adulto e criança é errada. Quem vai ensinar isso são os pais.

O agressor pode estar dentro de casa

Na maioria dos casos o abuso sexual acontece dentro da casa da vítima. O agressor, normalmente, tem algum grau de parentesco com a vítima (pai, padrasto, irmão, tio, avô ou padrinho). É alguém carinhoso e que conquista a confiança de toda a família.

Geralmente, os abusadores são muito queridos, querem conquistar os pais e a criança. A aproximação começa com um carinho inocente. Depois, ele observa como a criança reage e às vezes começa guardando um segredinho com a criança. Além desses requintes, ele também conta com o recurso da ameaça.

abuso sexual infantil

Quando o abuso é intrafamiliar, é comum encontrar histórico na família. Porém, não é uma regra e não quer dizer que uma pessoa agredida na infância cometerá abuso na fase adulta. Na maioria dos casos que chegam à delegacia, o homem é o agressor e a menina é a vítima, porque os meninos revelam a violência menos do que as meninas. Nos casos em que as mulheres são as agressoras, a descoberta é ainda mais difícil porque são elas as responsáveis pelos cuidados da criança.

Um evento traumático

Não é porque o estupro não foi consumado que o psicológico da criança não será comprometido. Todo ato de abuso sexual viola o direito da criança e compromete o seu desenvolvimento. Quando cometido por muito tempo, as consequências podem ser devastadoras. A violência sexual pode provocar impacto no desenvolvimento neurobiológico e regulação da emoção, ansiedade elevada e transtorno do estresse pós-traumático (TEP). Esse transtorno faz a pessoa reviver a lembrança negativa inúmeras vezes.

Saiba mais: Revivendo o Passado: Transtorno de Estresse Pós-Traumático

Há casos em que as mães foram vítimas de abuso quando crianças e hoje têm as filhas que também são vítimas. Elas podem desenvolver problemas com a própria sexualidade e dificuldade em proteger os filhos com relação ao abuso.

A recuperação do trauma sofrido pelo abuso sexual depende da idade em que a criança foi vítima, da proximidade com o autor e por quanto tempo a violência foi praticada. O comportamento dos pais após a revelação do abuso é primordial. Se a criança não se sentir acolhida pela família, terá ainda mais dificuldade em superar. Porém, quando há orientação e acompanhamento profissional, o resultado tende a ser positivo.

Como identificar?

A criança sempre vai manifestar que algo está errado com ela por meio do seu comportamento, do sono, da alimentação e do desempenho na escola. Isso ocorre em qualquer situação, não apenas com relação ao abuso sexual. Por isso, é preciso analisar o contexto.

abuso sexual infantil

As crianças que são vítimas de violência sexual também podem repetir a violência que sofreram por meio de brincadeiras sexualizadas ou com outros colegas. Quando o diálogo entre pais e filhos é aberto e acolhedor, o ambiente torna-se propício para que a criança sinta-se à vontade para revelar o abuso. Para isso, ela precisa ter consciência de que está tendo o seu direito violado. Veja abaixo alguns sinais que podem ser indicio de abuso.

1. Mudanças de comportamento
O primeiro sinal é uma possível mudança no padrão de comportamento da criança, como alterações de humor entre retraimento e extroversão, agressividade repentina, vergonha excessiva, medo ou pânico. Essa alteração costuma ocorrer de maneira imediata e inesperada. Em algumas situações a mudança de comportamento é em relação a uma pessoa ou a uma atividade em específico.

2. Proximidades excessivas
A violência costuma ser praticada por pessoas da família ou próximas da família na maioria dos casos. O abusador muitas vezes manipula emocionalmente a criança, que não percebe estar sendo vítima e, com isso, costuma ganhar a confiança fazendo com que ela se cale.

3. Comportamentos infantis repentinos
É importante observar as características de relacionamento social da criança. Se o jovem voltar a ter comportamentos infantis, os quais já abandonou anteriormente, é um indicativo de que algo esteja errado. A criança e o adolescente sempre avisam, mas na maioria das vezes não de forma verbal.

4. Silêncio predominante
Para manter a vítima em silêncio, o abusador costuma fazer ameaças de violência física e mental, além de chantagens. É normal também que usem presentes, dinheiro ou outro tipo de material para construir uma boa relação com a vítima. É essencial explicar à criança que nenhum adulto ou criança mais velha deve manter segredos com ela que não possam ser compartilhados com pessoas de confiança, como o pai e a mãe, por exemplo.

5. Mudanças de hábito súbitas
Uma criança vítima de violência, abuso ou exploração também apresenta alterações de hábito repentinas. O sono, falta de concentração, aparência descuidada, entre outros, são indicativos de que algo está errado.

6. Comportamentos sexuais
Crianças que apresentam um interesse por questões sexuais ou que façam brincadeiras de cunho sexual e usam palavras ou desenhos que se referem às partes íntimas podem estar indicando uma situação de abuso.

7. Traumatismos físicos
Os vestígios mais óbvios de violência sexual em menores de idade são questões físicas como marcas de agressão, doenças sexualmente transmissíveis e gravidez. Essas são as principais manifestações que podem ser usadas como provas à Justiça.

8. Enfermidades psicossomáticas
Unidas aos traumatismos físicos, enfermidades psicossomáticas também podem ser sinais de abuso. São problemas de saúde, sem aparente causa clínica, como dor de cabeça, erupções na pele, vômitos e dificuldades digestivas, que na realidade têm fundo psicológico e emocional.

9. Negligência
Muitas vezes, o abuso sexual vem acompanhado de outros tipos de maus tratos que a vítima sofre em casa, como a negligência. Uma criança que passa horas sem supervisão ou que não tem o apoio emocional da família estará em situação de maior vulnerabilidade.

10. Frequência escolar
Observar queda injustificada na frequência escolar ou baixo rendimento causado por dificuldade de concentração e aprendizagem. Outro ponto a estar atento é a pouca participação em atividades escolares e a tendência de isolamento social.

abuso sexual infantilMuitas crianças podem revelar o abuso sofrido através de desenhos. Confira alguns desenhos que podem revelar um possível abuso: Desenhos de crianças podem indicar que elas sofreram abuso sexual

Veja mais sinais:

  • Medo repentino de algo ou alguém em particular;
  • Choro excessivo quando em contato com determinada pessoa;
  • Mudanças repentinas e drásticas de personalidade (uma criança normalmente extrovertida passa a ser submissa e passiva, uma criança geralmente meiga passa a ter comportamento agressivo);
  • Medo de ficar sozinha ou separada dos pais (principalmente quando na presença de um suposto agressor);
  • Tornar-se mais quieta ou parar de se comunicar quase por completo (ou ainda gaguejar)
  • Medo de tirar a roupa;
  • Aparecimento de queimaduras, roxos, cortes ou outras lesões sem origem explicável. Sabemos que eles vivem machucando pernas, joelhos, canela, cotovelo. Estamos falando quando tais machucados aparecem em locais menos comuns como: costas, braços, peito, cabeça ou genitália;
  • Dor, coceira, sangramento na genitália ou região próxima. Dificuldade de andar, sentar ou indícios de infecção urinaria (lembrando que tal infecção também pode ter outras causas);
  • Estresse emocional;
  • Auto mutilar-se;
  • Ficar excessivamente desconfortável em consultas médicas ou quando tocado (a);
  • Apresentar sinais de regressão (voltar a fazer xixi na cama, chupar bico, falar como bebê);
  • Dificuldade de dormir e/ou ter pesadelos com maior frequência;
  • Interesse excessivo em sexualidade ou apresentar comportamento hipersexualizado;
  • Dificuldade em se relacionar/brincar com outras crianças;

Lembre-se: em quase todos os casos a vítima tenta se manifestar da sua própria maneira. Caso identifique situações como essas, com amor e sem pressionar a criança, pergunte sobre os acontecimentos do seu dia a dia, dando a ela a oportunidade de contar a você algo que possa ser identificado como abuso. Acredite no que for relatado, faça-a sentir-se protegida e denuncie. Embora crianças sejam criativas e fantasiem muitas coisas, apenas em 6% dos casos os abusos relatados não são verdadeiros. Qualquer pessoa que suspeitar de algo pode denunciar pelo Disque 100.

A denúncia pode ser feita também em Delegacias Comuns, Delegacias da Mulher, Órgãos dos Direitos Humanos, Conselhos Tutelares ou Varas da Infância e da Juventude de sua cidade.

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Psicólogo. Idealizador do Pensamento Líquido. Apaixonado por filmes de terror, seriados, animes, mangás e livros de aventura. Não dispensa uma boa comida e bebida na companhia de amigos, especialmente se for pra curtir um bom e velho rock n roll.

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