Adolescência Estendida e Sua Relação com a Sociedade Contemporânea

Cursos Online na área de Ciências Humanas e Sociais

Quando a adolescência, que tem em si mesma a finalidade de amadurecimento após uma fase transitória, se torna contínua, interminável, como um ciclo aberto, dá-se a esse fenômeno o nome de adolescência prolongada ou estendida, cujo termo foi introduzido por Bernfeld em 1923. O foco de seus estudos foi o prolongamento da adolescência masculina, observado na Europa após a Primeira Guerra Mundial (BLOS, 1998).

Aqueles que se encontram nessa fase, recusando-se a vivenciar as decisões e conflitos finais da adolescência, adiando o caráter decisivo e formativo desse período, acabam tornando a adolescência seu modo de vida, recusando-se a ingressar à vida adulta.

(…) as funções do ego – pensamento, memória, julgamento, concentração, observação – são prejudicadas por duas fontes, ou seja, por uma inundação de pulsões sexuais e agressivas, e por uma ascendência de funções arcaicas do ego e defesas primitivas. O adolescente recua para os modos anteriores de controle da tensão; isso revela que o período de latência realizou apenas progressos reduzidos no desenvolvimento do ego (BLOS, 1998, p. 296).

O autor continua e afirma que o fenômeno da adolescência prolongada “resguarda” o indivíduo e evita que ele vivencie a crise que o leva a perceber que, diferentemente de sua família, o mundo não é igualmente generoso e agradável, pois não reconhece no adolescente o papel que o mesmo tentou desempenhar anteriormente, mostrando-se muitas vezes tirânico e incompreensível. Nessas circunstâncias, o adolescente recua, permanecendo vinculado à identidade infantil, um lugar que lhe parece mais confortável. Respaldado pela família que parece assegurá-lo de quem ele é, embora a partir de uma visão distorcida, assumindo o lugar não do que é, de fato, mas do que os outros acham que ele é (BLOS, op. cit.).

Zagury (1999) menciona o fenômeno da adolescência estendida fazendo uma alusão há décadas anteriores, quando os jovens tinham pressa em sair de casa e assumir responsabilidades próprias, no intuito de viver a liberdade que não tinham na casa dos pais. Na realidade atual, com a excessiva liberdade que os adolescentes adquiriram, aparentemente como uma recompensa das lutas de seus pais no passado, pelo direito de serem livres e viverem a autonomia, os jovens contemporâneos passaram a retardar a saída da casa dos pais, pois vivem em seus quartos como se fosse sua própria casa. Nessas condições, eles têm o respeito dos membros da família, privacidade, trazem os namorados para casa e podem alegar, sem maiores problemas, que não querem ser incomodados quando se irritam ou não desejam falar com ninguém. Assim, a autora questiona: “para quê sair de casa?” (ZAGURY, 1999, p. 22), se toda liberdade pode ser ali vivenciada.

Outra característica que compõe e agrava essa realidade social atual é a das famílias de classe média e alta, onde os adolescentes/jovens, na maioria das vezes, não contribuem com as despesas da casa, nem se envolvem nas tarefas domésticas, tendo por obrigação apenas estudar. Isso retarda o amadurecimento e os permite gozar e desfrutar, por longos períodos, dos bens de sua família, do conforto de suas casas, sem que haja ônus à adorável vida confortável e livre que lhes proporcionam os pais (ZAGURY, op. cit.).

Com isso, tudo parece se tornar mais confuso, a medida em que os pais e os próprios adolescentes “querem-mas não querem” que essa tal adolescência termine. E a adolescência vai-se prolongando e tendo seu final empurrado para os trinta anos, ou mesmo se tornando o próprio ideal cultural contemporâneo, mencionado por Calligaris (2000, 2009).

O fenômeno da “adultescência”, comentado por Calligaris (2009), parece bastante pertinente ao que vem sendo discutido até aqui. O autor menciona que, não somente os adolescentes retardam a sua entrada no mundo adulto, mas também os já adultos e pessoas de meia idade se veem tentados a reviver a adolescência, diante do que ela proporciona de mais belo: a sensação de eterna juventude e liberdade.

Com as evoluções ocorridas nesse mundo, diante das melhorias atingidas sobretudo no âmbito da saúde, a longevidade tem se tornado cada vez mais comum. De modo que, recolher-se aos aposentos, após a conclusão de uma carreira profissional e do cumprimento dos deveres parentais já não faz sentido, nesta sociedade contemporânea. Com isso, não é difícil entender os termos usados por Calligaris (op. cit.), em relação a “estar adolescente”. A terceira idade já não é sinônimo de proximidade da morte, oferecendo agora, novas possibilidades de ser. E, nesses termos, o que se deseja ser? Adolescente!

Cabe então a curiosidade de refletir sobre uma adolescência que, apesar de abarrotada de conflitos, mudanças drásticas e dores de crescimento, uma fase em que os sujeitos que a constituem são rejeitados por desejarem ingressar em uma realidade que ainda não os cabe, ainda se mostre para a cultura ocidental contemporânea, como um ideal de vida. É um paradoxo, conforme afirma Calligaris (2000). Mas o mistério de tal contradição é desvendado pelo autor, uma vez que, o desejo dos adultos é a liberdade ou, por assim dizer, rebelar-se. Nisso, os adolescentes são mestres: transgredir!

A adolescência surgiu então com o objetivo de fomentar um ideal necessário, contemplado pelos adultos? Um lugar onde existe liberdade individual e despreocupada, aliadas à desobediência, como encenação de um mundo permissivo, ainda que da ordem do imaginário? Questiona Calligaris (2000).

Os adolescentes, por sua semelhança física com os adultos, oferecem maior possibilidade de identificação, “pois é propriamente uma imagem de nós mesmos gozando, felizes, sem impedimentos ou quase” (CALLIGARIS, op. cit., p. 70).

E sobre os conflitos? O próprio Calligaris (2009) diz que, não importa se essa tal adolescência é idealizada ou perseguida, pois reafirma que independente da forma como se apresenta, ainda é, enquanto fenômeno ou condição de vida, uma hipervalorização da liberdade e da possibilidade de ser o que quiser, com o direito, quase disfarçado de dever, de rebelar-se. E, ao finalizar seu texto, não propõe soluções ou atitudes que levem a uma possível resolução dessa constante mas, ao contrário, aconselha os leitores a seguir o fluxo e, assim como o próprio afirma: “seguir adultescendo”.

Autor: Sirley Sílvia Almeida da Silva

Deixe um comentário

Por favor, escreva seu comentário
Digite seu nome aqui