Embora muitas pessoas pensem que puberdade e adolescência é a mesma coisa, essas duas classificações não podem ser usadas como sinônimos uma do outra.

A puberdade consiste nas modificações biológicas e fisiológicas que geralmente marcam o inicio da adolescência, porém podem variar de acordo com o indivíduo. A puberdade é marcada pelo crescimento dos pêlos em diferentes regiões do corpo como axilas e na região pubiana, em ambos o sexos como resultado da ação hormonal que provoca o desenvolvimento das gônadas – dos testículos nos meninos e dos ovários nas meninas. Essa fase pode ocorrer por volta dos 12 aos 15 anos, porém em observações podemos constatar que hoje em dia esse desenvolvimento pode ocorrer mais cedo. Em algumas literaturas pode-se encontrar que a puberdade inicia-se no sexo feminino entre os 9 e os 13 anos de idade, e no sexo masculino entre 10 e 14 anos de idade. A puberdade é universal e suas transformações físicas ocorrem igualmente na mesma época em todos os povos, com exceções raríssimas, como os pigmeus que tem uma expectativa de vida menor e consequentemente o inicio da puberdade se da antes. O termino da puberdade estaria fixado por volta dos 18 anos, que seria quando o indivíduo esta em plena execução das funções reprodutivas, e que coincidiria com o fim do crescimento esquelético.

A adolescência embora também seja um fenômeno universal, ocorre de forma e em épocas diferentes, conforme o ambiente sociocultural em que o indivíduo esta inserido. A caracterização da adolescência pode ser definida pelos seguintes itens: a redefinição da imagem corporal, perda do corpo infantil e da aquisição do corpo adulto; separação e substituição do vínculo de dependência com os pais da infância; elaboração de lutos referente à perda da condição infantil; estabelecimento da própria escala de valores; busca de identificação com grupos; estabelecimento de um padrão de luta/fuga no relacionamento com a geração precedente; aceitação dos ritos de passagem para conseguir o status adulto; definição das inclinações pessoas independentemente das expectativas familiares.

O final da adolescência, igualmente ao seu inicio, é bem mais difícil de determinar e para isso algumas condições devem ocorrer para ser decretado o final da adolescência, são elas: o estabelecimento de identidade sexual e possibilidade de estabelecer relações afetivas estáveis; capacidade de assumir compromissos profissionais e manter-se (independência econômica”); criação da sua moral própria; relação de reciprocidade com a geração precedente, em especial com os pais. Isso ocorreria por volta dos 25 anos na classe média brasileira, tendo variações dependendo das condições socioeconômicas.

Podemos observar que a cada década que se passa o período da adolescência parece também aumentar. E é visível que em sociedades onde existe uma maior carência de recursos econômicos, as crianças ter um amadurecimento mais rápido em virtude de ter que ajudar no sustento da família logo cedo.

O adolescente sente-se estranho e sente que os outros o veem de forma estranha. Eles enfrentam exigências sociais novas. Não podem fazer coisas de crianças e nem fazer tudo que os adultos fazem, pois o adolescente não é nem um nem outro. Dai o surgimento da angustia, da crise de identidade. O sentimento de identidade é função de um equilíbrio dinâmico entre três vértices: o que eu penso que sou; o que os outros pensam que sou, o que eu penso que os outros pensam que sou. É comum nessa fase o adolescente experimentar várias mudanças de estilos e visuais, de experimentar ingressar em vários “grupos” ou “tribos” diferentes, tentando encontrar seu lugar. Citando as palavras de um adolescente: “Já que não posso alterar meu corpo, com o qual estou descontente, modifico minhas roupas”.

Através dos anos tem sido moldado um padrão de aparência física pelas mídias que só tem contribuído de forma negativa para a visão do adolescente. Com seu corpo em transformação os jovens tendem a fantasiar sua imagem com esse padrão criado, gerando um conflito interno, a raiz da ansiedade do adolescente no que diz respeito a seus atributos físicos para atrair o sexo oposto.

Outro fator a se considerar é a comunicação, há implícito aí todo um processo de defasagem linguística e semântica entre as gerações e que acompanha a quebra do processo comunicante entre elas. O adolescente abandona o modo de comunicação infantil por uma forma adulta de expressão, mas tem uma identidade linguística característica à sua condição de adolescente, a gíria, que é um subproduto da cultura adolescente e constitui a expressão verbal do processo de diferenciação do adolescente da identidade dos pais e do mundo adulto geral. “A gíria seria, por assim dizer, a modalidade verbal da tendência dos adolescentes a evidenciar seus conflitos através de perturbações na conduta”.

A família, definindo de forma antropológica e contemporânea, teria como função preservar a espécie, nutrir e proteger a descendência e fornecer-lhe condições para a aquisição de suas identidades pessoais. Até algum tempo atrás, a família, tinha função de mediador entre adolescente e sociedade, porém na família do terceiro milênio, é o adolescente que chama para si o papel de mediador entre família e sociedade. Com isso pode-se dizer que antigamente os jovens se moldavam a identidade da família, e hoje em dia a família é que se molda aos jovens para poder acompanhar todas as suas transformações. E podemos afirmar isso com base nas nossas próprias vivências familiares, em como nossos pais e avós relatam a sua educação e criação, com as que vemos hoje.

O dilema vocacional – no passado não havia essa cobrança, as filhas eram educadas e criadas para serem iguais as suas mães, donas de casa; já os meninos deviam se espelhar no pai e seguir sua profissão. Hoje os jovens podem escolher suas profissões, não precisam mais ficar atrelados aos pais, mas essa liberdade de escolha não se fez acompanhar do bem-estar esperado. Há uma pressão social de que o adolescente deve escolher uma profissão rentável, essa pressão faz gerar novas angustias para os jovens que sentem medo do fracasso.

O uso de drogas nos jovens se deve ao aumento dos níveis de angústia e da ansiedade entre eles, e que a sociedade esta fadada a falhar no combate ao tráfico, pois estão tentando “tratar” as consequências e não as causas. Existem ainda dois grandes equívocos na questão do uso de tóxicos entre os adolescentes. O primeiro seria por parte dos adolescentes, que tem a ilusão de estarem se “libertando” ao usarem drogas, quando na verdade estão é se “escravizando” ou se “submetendo”. E a segunda se refere aos pais que acham que os filhos os estão “desafiando” ou “protestando” contra a moral que lhes é imposta, quando na verdade estão é imitando os pais e a sociedade em geral que abusam no uso de outras drogas, tais como cigarros, tranquilizantes.

A maior dificuldade do adolescente está em aceitar a autoridade. A autoridade pode adquirir um espaço importante no conjunto de valores do adolescente quando se constrói através da conquista e do respeito e não submetendo o jovem à pressões. Sem rebeldia e sem contestação não há adolescência normal, em todas as épocas e em todas as latitudes o adolescente sempre foi um contestador, um buscador de novas identidades, testando diferentes formas de relacionar-se, os lideres de hoje foram adolescentes contestadores de ontem.

O jovem gosta de questionar, de ir contra as normas e valores estabelecidos pela sociedade. Esse questionamento por parte do jovem é saudável e demonstra que seu psiquismo está se desenvolvendo. O mundo do futuro não nos pertence e sim a eles, e por isso através das suas contestações devemos aprender que espécie de mundo eles querem para viver amanha.

Definir o normal e o patológico dentro da adolescência não é uma tarefa fácil, já que nessa fase tudo parece estar fora do normal e costuma-se dizer que o adolescente é “o paciente intratável” por ser considerado um delinquente em potencial. Para que uma psicoterapia seja bem sucedida, devem ser preenchidas três condições básicas que são elas: que o adolescente venha a psicoterapia por vontade própria; que o problema esteja causando desconforto no adolescente e não somente nos seus pais; que aceite a origem intra-psíquica das perturbações que apresenta em seu modo de pensar, sentir ou agir e se disponha a buscar em si mesmo a origem de seu desconforto psíquico ou social.

Como os adolescentes em sua maioria apresentam problemas que são direta ou indiretamente expressões de seus conflitos com seus pais, de sua discordância de valores, a abordagem sistêmica é uma boa alternativa. Outra boa alternativa seria a psicoterapia de grupo, já que os adolescentes têm a tendência de procurar grupo de iguais, onde eles possam se identificar.

Em busca da adolescência perdida

Ao contrário do que parece, não se refere à juventude perdida nos caminhos da delinquência, mas sim se refere aos adultos que ao perceberem que o relógio da vida não deixa de correr para ninguém, querem restaurar a adolescência que se foi, se camuflando entre os filhos, querendo impedir ou retardar o crescimento dos filhos, numa tentativa inútil para não se sentirem empurrados para a velhice e inevitavelmente a morte.

Muitas previsões otimistas existiam no milênio passado, porém um tanto quanto utópicas de que no ano 2000 o jovem seria um indivíduo inteiramente alfabetizado pela informática e que viver num mundo globalizado pelos meios de comunicação seria o fim dos preconceitos tribais da espécie humana. O novo milênio chegou, passou, e infelizmente os preconceitos continuam cada vez mais, e os jovens, agora dependentes da tecnologia, embora mais informados, parecem cada vez mais distantes do mundo real, nutrindo novas angustias.  Se por um lado hoje tudo é mais fácil, por outro é cada vez mais exigente no que diz respeito à competência profissional, à estética, ao sucesso. As mudanças estão acontecendo e não dá ainda para prever se os jovens de hoje serão mais bem resolvidos que os de ontem.

Autor: Leandro Zanon
Referência: OSÓRIO, Luiz Carlos. Adolescente Hoje. 3. ed. Porto Alegre: Artes Médicas.
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Coordenador de TI e Psicólogo. Resolveu estudar psicologia porque queria entender melhor a mente das pessoas, e embora tenha se decepcionado um pouco com algumas coisas que apreendeu ainda acredita no poder de amar e evoluir do ser humano. Idealizador do Pensamento Líquido. Apaixonado por filmes de terror, seriados, anime e mangás e livros de aventura. Não dispensa uma boa comida e bebida na companhia de amigos, especialmente se for pra curtir um bom e velho rock n roll. Para saber mais sobre mim… compre um vinho, pegue um ônibus e venha até a minha casa filosofar sobre a vida.

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