A música “perfeição” da banda Legião Urbana é do ano de 1993. E é a 4ª faixa do álbum “O descobrimento do Brasil”. Essa música é inteiramente uma crítica ao Brasil, mas por metáforas. E seu próprio nome já é contraditório. O que eles falam que é uma “perfeição” na verdade é uma total imperfeição. E é justamente essa a ideia. Causar o impacto das pessoas e fazer elas refletirem um pouco. Se fosse colocado um nome que faz jus a letra, seria comum e não causaria tanto impacto, mas uma contradição é sempre certeira. Porque as pessoas não gostam de ser contrariadas.

Vamos celebrar a estupidez humana
A estupidez de todas as nações
O meu país e sua corja de assassinos covardes
Estupradores e ladrões

Vamos celebrar a estupidez do povo
Nossa polícia e televisão
Vamos celebrar nosso governo
E nosso estado que não é nação

Celebrar a juventude sem escola, as crianças mortas
Celebrar nossa desunião
Vamos celebrar Eros e Thanatos
Persephone e Hades
Vamos celebrar nossa tristeza
Vamos celebrar nossa vaidade

Vamos comemorar como idiotas
A cada fevereiro é feriado
Todos os mortos nas estradas
Os mortos por falta de hospitais

Vamos celebrar nossa justiça
A ganância e a difamação
Vamos celebrar os preconceitos
O voto dos analfabetos

Comemorar a água podre e todos os impostos
Queimadas, mentiras e sequestros
Nosso castelo de cartas marcadas
O trabalho escravo, nosso pequeno universo
Toda a hipocrisia e toda a afetação
Todo roubo e toda indiferença
Vamos celebrar epidemias
É a festa da torcida campeã

Vamos celebrar a fome
Não ter a quem ouvir, não se ter a quem amar
Vamos alimentar o que é maldade
Vamos machucar o coração

Vamos celebrar nossa bandeira
Nosso passado de absurdos gloriosos
Tudo que é gratuito e feio
Tudo o que é normal
Vamos cantar juntos o hino nacional
A lágrima é verdadeira
Vamos celebrar nossa saudade
E comemorar a nossa solidão

Vamos festejar a inveja
A intolerância, a incompreensão
Vamos festejar a violência
E esquecer a nossa gente
Que trabalhou honestamente a vida inteira
E agora não tem mais direito a nada

Vamos celebrar a aberração
De toda a nossa falta de bom senso
Nosso descaso por educação
Vamos celebrar o horror de tudo isto
Com festa, velório e caixão
Está tudo morto e enterrado agora
Já que também podemos celebrar
A estupidez de quem cantou essa canção

Venha!
Meu coração está com pressa
Quando a esperança está dispersa
Só a verdade me liberta
Chega de maldade e ilusão

Venha!
O amor tem sempre a porta aberta
E vem chegando a primavera
Nosso futuro recomeça
Venha que o que vem é perfeição

Na música são abordados vários temas delicados que constituem problemas no Brasil:

  • Uma sociedade assolada pela criminalidade, que é caracterizada pela sua estupidez. Também há uma crítica ao governo, polícia e ao próprio país, que é descrito como um Estado mas não como uma nação, graças à desigualdade existente;
  • A falta de oportunidades para os jovens que não têm acesso à educação;
  • Comportamentos imprudentes no trânsito e a falta de hospitais que aumentam;
  • Graves falhas na justiça brasileira, o analfabetismo e o mau uso do voto;​
  • A exploração da classe operária​;
  • O sentimento de inveja e a falta de compreensão que culmina no desamparo ao aposentados, pessoas que trabalharam mas são abandonadas pelo seu país.

A frase que é incessantemente repetida é “vamos celebrar”. Ela diz que devemos celebrar todas as barbaridades que acontecem no Brasil. E a cada parágrafo que vai passando, ficamos mais horrorizados com os absurdos que nos são colocados. Nada daquilo é pra ser celebrado, mas na verdade é isso que fazemos muitas vezes. Nós sabemos que tem pessoas que necessitam de ajuda, sabemos que tem pessoas morrendo nos hospitais. Todo mundo fica triste, fica comovido. Afinal todos têm sentimentos. Mas quando chega o carnaval, todo mundo simplesmente apaga isso da memória e sai comemorar. 

Não que seja errado as pessoas comemorarem, mas é uma hipocrisia você reclamar de algo sendo que você não faz nada pra mudar isso.

Analisando o primeiro parágrafo da música percebemos que a banda se refere à covardia das pessoas que roubam e que entram em guerras.        

A sequência é uma crítica a televisão, e ao povo que muitas vezes é estúpido demais e também aceita facilmente as coisas sem correr atrás do que deveria. E ressalta uma frase bem interessante. “E nosso estado que não é nação.” Do meu ponto de vista, nessa parte eles querem dizer que o Brasil é um estado, porque esta é a configuração política do país. Como sendo um estádio laico. Mas que o Brasil não se manifesta como uma nação, onde todos são iguais e todos têm direitos. Isso só acontece teoricamente, porque na prática é muito diferente.

Na parte da música onde são citados os personagens da mitologia grega, o significado é que, Eros, sendo o deus do amor e que busca a vida e Thanatos o deus da morte. Nessa parte há uma divergência. Onde nós, muitas vezes nem sabemos o que buscamos e carregamos conosco o instinto da preservação da vida e da destruição. Depois são citados mais dois. Persephone e Hades, dando ênfase no nosso lado onde há mais vaidade e o consumismo, sempre em busca de cada vez ter mais status só para nós nos sentirmos melhor.

Na estrofe que inicia com: “comemorar como idiotas a cada fevereiro e feriado”, é uma clara ironia ao carnaval e a outros feriados festivos e a todos os problemas que vem com eles, como mortos nas estradas e mortos por falta de hospitais. A superlotação nos hospitais por causa dos acidentes, hospitais que nem temos. A palavra justiça é ironizada, por causa da falta de justiça desse país que consequentemente gera diversos problemas.

“Vamos celebrar nosso castelo de cartas marcadas”. Celebrar os problemas e respostas que já são óbvios e o trabalho escravo. O mundo próprio do meio social. Quando fiz festa da torcida campeã se refere ao futebol e a política do pão e circo de uma mídia que manipula tudo aquilo que mostra. E passa jogos, mas esconde os problemas sérios. A última parte se refere à falsidade das pessoas. Vamos alimentar a maldade. Ou seja, o famoso colocar lenha na fogueira e provocar intrigas.

Na parte onde fala “vamos celebrar nossa bandeira, nosso passado de absurdos gloriosos”, nada mais é do que a época da colonização do Brasil, no ano de 1500, onde os Portugueses que vieram pra cá atrás de metais preciosos e na falta deles, resolveram extrair o pau Brasil e depois a cana de açúcar. Esse fato seria nosso passado de absurdos gloriosos. Porque é um absurdo inenarrável pessoas de outro país chegarem do nada no nossos país e roubar o que nós temos de valioso. Mas quando eles contam, isso fica como se fosse algo muito bonito e algo normal e até que favoreceu a história do país.   Depois disso fala para termos mais amor a nossa pátria apesar desse passado nem tão glorioso e também afirma que as lágrimas são verdadeiras.

Na sequência é “festejado” coisas que jamais poderiam ser comemoradas. Claro que todas as outras também não poderiam, mas estas em especial. Porque é desumano festejar a inveja, a intolerância e a incompreensão e sobre tudo a violência que é um dos maiores problemas não só do Brasil, mas do mundo. E fala também de outro fato muito importante, o de que as pessoas trabalham por anos e anos servindo a sua pátria e depois não são reconhecidos, nem tem direito a nada.

Na penúltima estrofe a letra diz que devemos celebrar a nossa falta de bom senso. E no caso celebrar todas as ironias presentes nessa música. Com festa velório e caixão. Essa ligação com a morte é porque o autor faz uma analogia com a morte do nosso bom senso e porque o comodismo está muito presente em nós e é devido a isso que nada muda nunca. E já que tudo é uma grande ironia, um grande desastre, vamos celebrar. E celebrar também a estupidez de quem pensa que tudo que está posto na música é a verdadeira “moral” a ser seguida. E finaliza dizendo para celebrar a estupidez de quem cantou a música. Porque pra pessoa estar cantando isso sério, sem ser irônico, tem que ser estúpido. Pois nessa música só tem absurdos e nada a ser celebrado.

É importante colocar que a música termina com uma nota positiva. Ela é um chamado, encorajando o ouvinte a lutar contra todas as imperfeições que são mencionadas durante a música. Ele chama uma terceira pessoa para ir com ele e sair desse comodismo. Porque o coração dele está com pressa e essa pressa é de mudanças, ele quer revolucionar. E depois ele chama essa terceira pessoa para um lugar onde sempre terá uma porta aberta e compara com a primavera que é uma estação onde ocorre renovação. Onde o futuro recomeça e ele chama novamente para o que vier, e que o que vier seja perfeição, ou seja, tudo totalmente diferente do que foi descrito na música, que no caso, é imperfeição.

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