contradicoes de identidade

Não poderei começar este ensaio sem questionar-me, e alertar os leitores para o mesmo questionamento, do seguinte: o que é ser-se algo? O que é ser-se alguém? Só estas duas perguntas exigem uma reflexão muito profunda, como se pretendessem uma resposta imediata e perpétua. Seria uma proeza, um mistério se alguém conseguisse fornecer uma resposta mais rápida que o tempo a questões construídas ao longo das vivências. Mas mais do que isso: estaria a ser falso, principalmente consigo mesmo.

Mas o meu propósito aqui não é iniciar um debate sobre o que é ou não é a identidade de cada um… Não sem referir um contexto, não sem enumerar um conjunto de condições por mim selecionadas que são específicas e indispensáveis à edificação e à manipulação do “eu”: a atualidade, o pleno século XXI. Porque escolhi este período da história da humanidade? Muito simples: é o tempo em que eu estou vivo, e é um tempo muito estranho. E, claro está, tudo o que se revela estranho tem muito material para ser trabalhado.

Ser-se atualmente é difícil (só não direi impossível, pois temos sempre de encarnar alguma coisa). Porém, tenho a certeza de que somos sempre um fruto do consenso social, e isso vê-se nas capacidades exigidas pela sociedade para o mercado das profissões. Todos pretendem que sejamos alguém de um só trabalho, uma alma de um só sucesso. Médico, engenheiro, matemático, advogado: a sociedade diz-nos para termos uma só profissão e descobrirmos um absoluto contentamento com ela. Simultaneamente, esta mesma sociedade alerta-nos para a sua própria mudança, exigindo que nos façamos ao progresso e andemos ao mesmo passo que ele. Então, as pessoas dizem umas às outras que é importante termos amplos conhecimentos, distintas sabedorias universais e totais. Portanto: seria ótimo se fôssemos um tudo e, ao mesmo tempo, um mero grupo de características pretendidas.

Quem diria… Num século XXI tão avançado, com tantos recursos ao nosso dispor, quem diria que encontraríamos um paradoxo tão basilar na nossa definição – a nossa não-definição. Aliás, o que a sociedade de hoje criou para si mesma foi um círculo sem escapatória. Por um lado, esta sociedade exige que tenhamos um lugar de topo numa só área, que tenhamos especificação em apenas um estatuto, no qual nos “devemos” focar para obtermos o sucesso profissional; por outro lado, o conjunto global das pessoas considera que ter um simples estatuto é uma condição insuficiente ao avanço da vida coletiva, implementando-nos a necessidade de saber mais sobre outras áreas e de encontrar mais formas de se estar pronto a agir.

Contudo, quando cada indivíduo sabe mais do que a área que lhe “convém”, criam-se forças e relações sociais caóticas que entram num conflito permanente, pois cada pessoa deseja saber mais e não se foca na suas antigas funções de organização social. Por isso, com o passar do tempo, as pessoas, através de um acordo grupal, definem funções especializadas de acordo com o seu grau de competências e de saberes, mais ou menos parecidas com as que tinham anteriormente. Estamos, assim, perante um ciclo caracterizado como a primeira das grandes contradições do mundo atual, a qual posso denominar de contradição do sucesso único.

É natural a existência de ideias que não se relacionem, conceitos que não se interliguem. Tal como a aprovação de uma ideia, a divergência entre uma e outra ideia sempre existiu, e, a meu ver, é por tamanha razão que se torna difícil dizermos com convicção “eu sou isto e aquilo; eu sou este tipo de pessoa”. A identidade não é uma série de termos propositadamente arranjados, mas engloba partes de um leque de opções em constituição e em mudança. E se há tempo que mude com uma enorme rapidez é precisamente este em que vivemos, tempo exigente de uma nova adaptação a todos os momentos e de uma constante descoberta de pensamentos, sentimentos, em suma: de viveres.

Por isso mesmo, entramos numa nova esfera de contradição do social, a outra que identifiquei ao longo do meu raciocínio acerca do consenso social – um ciclo ao qual chamo de contradição da originalidade. As pessoas rejeitam a igualdade e a constância puras, porque todos desejam ter um mínimo toque de unicidade, a sensação de particularidade num mundo padronizado. Este toque, esta sensação permite ao ser humano destacar-se e aumentar a sua autoestima, sendo a última uma procura natural do homem.

Ao mesmo tempo, enquanto todos querem diferenciar-se, cada um vê, não em si, mas nos demais, uma falha: os outros deveriam seguir o plano do comum para garantir a estabilidade. Nisto, a diferença gera desorganização e, mais do que isso, um sentimento de vazio por não haver um modelo que dite o caminho único a seguir. Quando um novo modelo surge – isto é, quando um pequeno grupo começa a organizar-se e a criar um novo conjunto de normas –, a maior parte das pessoas seguem-no sem demoras, a fim de encontrarem uma solução para o seu vazio emocional.

Todavia, após um determinado período de orientação repetida de um paradigma, a sociedade torna-se mecanizada e entedia-se com as características desse paradigma. As pessoas, não passando pela novidade, caem num tédio profundo tal que passam a ambicionar não a regularidade, mas a diferença, o que nos faz regressar ao ponto inicial dos seus desejos.

Tomemos o caso do vestuário do dia a dia. Inicialmente, as pessoas encontram-se numa posição inicial de aceitação face a um tipo de roupa. Depois disto, os indivíduos, aborrecidos com os mesmos estilos de roupa, procuram a diferença em tipos de vestuários menos vulgares. Podem também fazer reclamações às empresas para que estas produzam diferentes camisolas, calças, etc., ou, até, produzir o seu próprio vestuário.

Naturalmente, nestes primeiros momentos, as pessoas encontram forma de cobrir a sua insatisfação com a igualdade. No entanto, isto levará a um crescente montante de modificações, pois não é só um indivíduo que pretende mudar o que veste: são muitos. Com isto, cada indivíduo achará que os restantes, porque não seguem o que era até então ordinário, estão a contribuir para a desordem social.

Após esta falta de coesão, as pessoas quererão um novo padrão de vestuário, que será edificado pelo consenso entre todos (ou, pelo menos, entre a maioria). Na fase em que este padrão surge, por força da necessidade de estabilidade, as pessoas seguem-no sem dificuldades, (provisoriamente) saciadas por terem encontrado uma solução para a instabilidade. Contudo, com o passar do tempo, as pessoas ficam saturadas das mesmas roupas, querendo, novamente, a mudança.

Os paradoxos que avaliei facilmente se destapam com o avançar dos acontecimentos no cerne das sociedades humanas. Enquanto a primeira contradição assenta mais nas funções que uma pessoa tem na sociedade e na sua definição de identidade através dessas funções, a segunda contradição é mais focada nas qualidades de cada indivíduo e no destaque que estas têm na visão coletiva. Independentemente das diferenças dos elementos que caracterizam cada uma destas contradições, é importante realçar que estas ambiguidades levam a uma construção de identidade confusa e não explícita, causando nas pessoas tensões psicológicas e contribuindo para as tensões sociais.

Ao mesmo tempo, a desordenação gerada por estas ambivalências está especialmente cristalizada no comum coletivo da atualidade, na medida em que as sociedades de agora dispõem de mais recursos e de mais informação, fazendo com que, por um lado, nos queiramos focar (quase) somente naquilo que melhor sabemos fazer e, por outro lado, procuremos mais esclarecimentos sobre a realidade.

Para além disso, como a população mundial está em constante aumento, é natural que desejemos destacar-nos dos demais para nos sentirmos melhores conosco mesmos; ao mesmo tempo, somos como que levados pela força do acordo social a garantir a estabilidade do meio em que vivemos. Todas estas condições traduzem uma oposição face a qualquer pensamento que considerasse a abundância dos fatores da atualidade uma vantagem na elaboração das particularidades identitárias. Ou seja, é caso para afirmar que “gordura não é formosura” [sublinhado meu].

Apesar de tudo, o mecanismo de regularidade social por necessidade consegue controlar a excitação destas contradições, isto é, quando as mesmas começam a ultrapassar um estado considerado razoável. A parte mais sacrificada nestes processos é a da construção do “eu”, daquilo que somos. Gradualmente, temos de aprender a lidar com as velozes mudanças de perspectivas sociais. O que é aceitável hoje poderá não o ser amanhã e é essencial apaziguar este choque proveniente das rápidas transformações da coletividade, permitindo uma certa autoconservação de cada um.

Foi pelas discussões que todo este tema levanta e pode levantar que a minha escolha surgiu. O importante deverá ser, no meu entender, concluir a leitura deste ensaio com a sensação de que a identidade é objeto de um debate que se torna relevante ter: um debate que nos move para a descoberta contínua de como organizar a própria essência.

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Leonardo Camargo Ferreira
Estudante em licenciatura de Sociologia na FLUP (Faculdade de Letras da Universidade do Porto). Escritor de poemas, crónicas e artigos acerca de temas filosóficos e do real-social. As suas filiações literárias oscilam entre a filosofia poética de Fernando Pessoa ou Sophia de Mello Breyner e a sociologia de Zygmunt Bauman ou Anthony Giddens. Gera a página "A Realidade do Imaginário" no Facebook e a conta "LCFPoesia" no Instagram, locais online onde publica frequentemente textos que produz

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