Vida Corrida

O terreno que este assunto aborda é escorregadio, uma nova visão da consciência não podia ser mais escorregadio, é certo, mas também é verdade que os novos modelos, conceitos e linguagens nem sempre são recebidos de braços abertos pelas respectivas áreas de saber. Tudo que é novo ao saber já instalado oferece, a título preventivo, resistência e até rejeição. Seja como for, perante estes sinais de prudência deve o que é novo mostrar quanto vale.

Quanto maior é o progresso das sociedades, menor é também o espaço reservado à solidariedade e à afetividade humana. As infindáveis horas de trabalho nos escritórios, nas empresas e nas fábricas, a que se associam as tensões acumuladas pelo estresse absurdo da competitividade, fragmentam cada vez mais a vida dos cidadãos. Ao tornar-se prisioneiro das máquinas que inventa, o homem parece perder a noção do tempo e do valor dos prazeres da vida. O Homem torna-se prisioneiro do seu próprio tempo.

As horas de trabalho por imperativos de competitividade estendem-se muito para além do razoável, incluindo por vezes os fins de semana. Os celulares nunca param de tocar, tornando a geografia irrelevante e fazendo da esfera doméstica apenas um prolongamento do local de trabalho. Os fins de semana, supostamente de lazer, transformam-se por seu turno em momentos de intenso desgaste, onde se procura não só resolver os assuntos domésticos pendentes como reencontrar o espaço conjunto da afetividade.

Comprar coisas e gastar dinheiro torna-se, a pouco e pouco, apenas um escape para um quotidiano absurdo. Mas a ilusão dura pouco tempo. Porque este é um consumo que implica sempre mais trabalho para repor a bênção perversa do crédito de plástico e poder ter acesso a mais consumo.

consumismo desenfreado

SEMPRE CORRENDO

Poderemos ver bem expresso no filme “Wall Street”, com o ator Michael Douglas, um dos mais impressionantes testemunhos cinematográficos do ritmo vertiginoso a que chegou a vida nas sociedades atuais.

A vida atual, para grande parte da população mundial, em especial os que vivem em países desenvolvidos, ou em grandes centros,  ou de certa forma que estão em contato com o mundo das Novas Tecnologias (NT) tornou-se frenética. A necessidade de uma vivência menos acelerada talvez venha a ser uma necessidade dos nossos dias. Tudo nos leva a crer que o desenvolvimento ligado às NT é antagônico a uma simbiose entre prosperidade e calmaria. Parar poderá significar morrer, abrandar certamente que não. Relaxar torna-se imperativo nos dias que passam a correr.

vida-corrida-ocupada

A fim de conseguir alcançar o equilíbrio entre os objetivos das organizações e os de cada indivíduo, ou seja, conseguir ir ao encontro dos desejos, emoções e valores, quer dos elementos de todo um grupo mas também os da organização de que todos são parte integrante a ajuda de profissionais qualificados na área dos recursos humanos; sociólogos, assistentes sociais, psicólogos é inevitável. As teorias psicológicas contribuem significativamente para avaliar que aspectos psicológicos do indivíduo podem impedir ou contribuir para o seu pleno desenvolvimento. A Psicologia adquire papel importante de vigilante desse desenvolvimento dos seres humanos, possuindo instrumentos adequados de medição para detectar as barreiras e as potencialidades do indivíduo.

“O que preocupa não é como as coisas vão, mas antes a forma como as pessoas pensam que elas vão” (Epictetus)

“São os homens e a organização que fazem a diferença” (Michel Cruzier)

ECONOMIA DO AMANHÃ

“Em todo o mundo existiu uma geração de pessoas que como eu arrastou o seu brinquedo preferido até à idade adulta. Ao fazê-lo, desencadeámos uma espécie de revolução – na sua maior parte pacífica – e agora o computador adquiriu um lugar cativo nos nossos escritórios e lares”, assim escreve Bill Gates no seu livro intitulado: Rumo ao Futuro.

A influência das novas tecnologias na sociedade é ponto assente, no entanto leva-nos não a um beco sem saída mas sim a um beco com uma multiplicidade de saídas. Toda esta polifonia de alternativas e acontecimentos altera e condiciona o nosso dia-a-dia em sociedade. Está a tornar-se uma sociedade no seu íntimo, virada para o futuro, para o amanhã.

A palavra modernidade não mais fará sentido. Este viver para o amanhã, o percorrer constantemente a “felicidade”, renovar num abrir e fechar de olhos os objetivos, de partir para outra e estar sempre na crista da onda, provoca angústia, desgaste, apreensão, ansiedade, etc. Subjacente a toda esta azáfama, percorre-nos a sensação de vazio.

sentimento_de_vazio

A adaptação ao estresse permanente é uma necessidade do Homem. Alguns neurocientistas anteveem que a depressão seja uma das patologias em grande escala na sociedade nos próximos anos. Há que nos preparar para esta eventualidade. Grande parte da população mundial poderá não conseguir ou não estar preparada para se aguentar e dominar a “crista da onda” das novas tecnologias.

SENTIMENTO DE ANGÚSTIA

Está sempre presente um sentimento das tardes de domingo em que de certa forma se antevê o stress do dia seguinte, nunca nos sentimos prontos. Talvez a ansiedade se traduza em “como me vou adaptar?”.

Como é usual dizer-se, quem hoje não muda, para! Quem para, atrofia! Não devemos esquecer que nos referimos a pessoas, a seres humanos que são todos diferentes.

MOTIVAÇÃO É PALAVRA DE ORDEM

Torna-se necessário nesta sociedade em constante alteração, motivar as pessoas para a participação e colaboração ativas na sua mudança. Os gestores de recursos humanos, sociólogos, psicólogos, e de uma forma geral todos os empregadores têm um papel importantíssimo na sociedade, para tal é necessário: motivar, delegar, comunicar e liderar. Estas características têm subjacentes outras: a criatividade e a emoção.

“Muitas pessoas vão ser empurradas para fora das suas áreas confortáveis de trabalho, mas isso não significa que aquilo que elas já sabem não continue a ser válido. Significa que as pessoas e empresas terão de estar abertas a reinventar-se a si próprias”, Bill Gates, 1995.

Existe um dualismo evidente entre as novas tecnologias e o Homem, (racionalidade/sensibilidade) este bem mais emotivo e sensorial que as formas racionais e lógicas que as tecnologias nos apresentam, afirmando uma eficácia e sistematização mais apetecível, neste mundo em que errar é humano, mas cada vez menos se toleram “deslizes”. Estamos numa fase em que a humanidade idolatra a eficácia.

As sociedades, de um modo geral, face à rapidez das mudanças, vivem em constante estado de ruptura. As suas estruturas econômicas são abaladas e vários setores esfacelem. As estruturas sociais não subsistem por serem decorrentes daquelas. Parecem estar em crise permanente, enquanto o processo de transformação não se concluir com os fundamentos de uma nova sociedade. Como este é um processo atual e global, que abala as estruturas gerais da humanidade a crise tende a tornar-se comum a todos os povos. Claro que o elemento preponderante da atual crise por ser o principal fator de transformação da ordem econômica é a revolução técnico-científica.

FALTA DE TEMPO PARA A ADAPTAÇÃO

O impacto de todos os avanços tecnológicos possuem na sua base interesses econômicos, desta forma os empresários exploram em espaços curtos de evolução, modelos recentes, em obsoletos, nesta sinfonia de modelos e marcas e melhoramentos nas versões tecnológicas, o espaço e tempo para adaptação aos mesmos é escasso, vive-se em tempo acelerado, correndo-se sempre o risco de estarmos “fora” do nosso tempo, de tal forma que as informações que possuímos sofrem constante alteração. O Homem tem a necessidade de se autoatualizar constantemente, é como que uma formação continua e sua consequente adaptação. Na perspectiva de muitos, a humanidade encontra-se numa encruzilhada, no limiar de um período que pode trazer catástrofe e colapso ou, alternativamente, abundância material para todos.

ALGUMAS CONCLUSÕES

A crescente capacidade produtiva fornecida pela ciência e tecnologia nos nossos dias e cujos limites encontram-se apenas na utilização racional dos recursos naturais, apresenta duas opções opostas à humanidade.

A primeira é a de podermos alcançar gradualmente uma espécie de paraíso terrestre com a diminuição progressiva da etapa de trabalho até formas mais avançadas de uma divisão voluntária, ou quase, dessa atividade humana. Eliminação de grande parte das doenças, prosperidade e melhoria do nível de vida. Saberemos encontrar novos tipos de recursos energéticos, menos poluentes, bem como a substituição de diversas matérias-primas por similares artificiais, além de formas de recuperação do meio ambiente.

A segunda opção é o inverso da primeira: bilhões de desempregados, nações inteiras, confinados em guetos; maioria dos países condenadas a uma economia de subsistência num mundo onde se esgotam as fronteiras agrícolas; o aumento do banditismo, da fabricação e do tráfico de drogas, que poderão ser a única fonte de subsistência e, portanto, a atividade principal de muitos países, fazendo surgir governos paralelos até a fragmentação de muitos dos atuais. Estados nacionais; e o ressurgimento de rivalidades étnicas, baseadas em preconceitos e intolerâncias de todo tipo.

Kant disse, as tarefas do homem são a disciplina a cultura a civilização e a moralização. Implícito está o antagonismo social, o qual poderá ser um motor para a evolução. A própria competitividade bem demarcada no nossos dias ajudará à evolução.

Das duas opções acima referidas, acreditamos que a primeira será o “destino” da humanidade. Tal como Kant na sua visão otimista e teológica da história destaca num dos pontos – “ainda que não seja possível deduzir o sentido da história da razão e da liberdade dos homens, deve supor-se que a história e a humanidade são conduzidas por um plano secreto da natureza que aponta no sentido da instituição de uma sociedade universal regida pelo direito e que, por conseguinte, se orienta no sentido da realização da destinação moral do homem”. Nova filosofia 3, 1990, pág. 103.

O pressuposto progresso constante para o melhor ou não, poderá por vezes ser imperceptível, podendo resultar simplesmente de não estarmos colocados num ponto de vista adequado que nos permita ver toda a curva descrita pelas ações humanas ao longo da história.

Por Miguel Lucas

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