Campanha contra o incentivo ao namoro entre crianças no Amazonas vira alerta para todo o Brasil: ‘A infância precisa de proteção e não de adultos que afastam a criança daquilo que é próprio pra idade dela.’

A Secretária de Assistência Social do estado do Amazonas lançou uma campanha contra a erotização precoce das crianças chamada “Criança não namora. Nem de brincadeira”. A ação, que tinha como objetivo conscientizar os pais da região Norte do Brasil, acabou ganhando proporção nacional e expôs um debate muito maior que o esperado: afinal, quais são os riscos de incentivar um inocente namoro entre duas crianças?

Visto por muitos como uma mera brincadeira infantil, ou por outros como um estímulo para o início da sexualidade, incentivar um abraço, beijos e até simular casamentos e compromisso entre duas crianças NÃO é algo saudável e pode trazer malefícios para o seu desenvolvimento. O oposto ao que os pais almejam pode acontecer: a criança se tornar um adulto com dificuldades de se relacionar ou com traumas que geram relacionamentos abusivos.

“Não é engraçadinho incentivar beijinhos de namoro ou declarações de amor entre as crianças. É nosso papel separar o mundo adulto do mundo infantil”, escreveu Dany Santos, professora da rede pública, em seu blog Quartinho de Dany, que desde 2008 aborda temas como proteção à infância e maternidade consciente. Um das postagens foi justamente sobre o assunto.

“Criança não namora. Criança se relaciona com os amiguinhos, e eles são simplesmente amigos. Amizade é o nome. Insistir em namoro na infância é adultizar as crianças, incentivar a erotização precoce!”, postou a blogueira em janeiro de 2017.

“Misturar os dois mundos é cair no erro da erotização precoce. A infância precisa de proteção e não de adultos que afastam a criança daquilo que é próprio pra idade dela.”

A campanha e o respeito à infância

Além da notoriedade da campanha, ela trouxe muitas dúvidas e casos preocupantes. “Recebemos uma mensagem de uma professora do Rio Grande do Norte contando que, na escola onde trabalha, as crianças de quatro anos esperam o momento do intervalo para beijar na boca e ela não sabe lidar com isso”, relatou o psicólogo da secretaria do Amazonas. Ele também compartilhou outro caso:

“Uma mãe de Minas Gerais relatou que a mãe de um coleguinha fez uma cartinha de casamento para a filha dela e, quando ela procurou a escola, a diretora disse: ‘quem mandou ter uma filha bonita?”

Segundo o psicólogo, esses exemplos trazem, na verdade, um grande tabu nacional — que é até quais proporções uma “brincadeira” pode chegar.

Ele explica que uma criança, com idade entre cinco e nove anos, entra no período de socialização, de desenvolvimento afetivo, e é justamente nessa fase da vida que elas chegam à escola, se desvinculam das relações maternas e paternas e começam a fazer amizades.

A questão é que a ideia de namoro causa confusão em uma criança que ainda está aprendendo o que é amizade. É nessa fase que ela deve cultivar as primeiras relações fora de seu núcleo familiar.

“Quando se introduz a palavra namoro nesta fase, a palavra ganha um significado diferente do significado da palavra para o adulto. O namoro, para os adultos, é uma preparação para a vida a dois, uma vida íntima, etapas para se juntar. E para uma criança, o namoro não existe, é uma amizade mais forte, o coleguinha preferido”, disse Coderch.

O problema está nos adultos, que acabam transferindo o significado do namoro do mundo do adulto. “E não podemos fazer dessa forma porque vamos pular etapas importantes; a brincadeira infantil nesse momento é um aprendizado para a vida adulta”, acrescentou o psicólogo.

Dany Santos concorda; a palavra tem força e falar na frente da criança naturaliza o namoro. “E então ela não sabe separar o que é do mundo dela e o que é do mundo do adulto. A criança começa a não ver mais pelos olhos da amizade, vê com um outro olhar que não é dela e isso pode gerar uma série de conflitos relacionados a futuros relacionamentos, a como tratar o próximo, e até pode dar brecha para a pedofilia. Esse tipo de assunto não tem que estar no meio das crianças”, ressaltou.

Uma ‘palavra inocente’ e seus efeitos

Ao pular a etapa da amizade, forçando um olhar sexualizado precoce na criança, ela pode perder grandes lições sobre respeito ao próximo, carinho, atenção, companheirismo e até como se comportar em determinadas situações.

“A criança não tem entendimento, aporte emocional e cognitivo para entender esses relacionamentos (namoros). E quando elas chegarem na fase de namoro, talvez essas relações não sejam saudáveis”, analisa Coderch, enfatizando a importância do papel de a amizade ser aprendida e respeitada antes de introduzir a fase do namoro para alguém.

O psicólogo conta que é na amizade que as crianças aprendem a dividir, a respeitar o outro, a dar e receber carinho. “Caso eu pule essa etapa, talvez eu possa não ter aprendido as nuances de um relacionamento saudável na vida adulta.”

Ainda há uma forte relação entre a erotização precoce e o machismo. E as pressões sobre o assunto já começam antes mesmo de a criança nascer. “Mal você engravida, já começam os comentários. Mulher passa a gravidez inteira ouvindo comentários como ‘vai ser garanhão’, se for menino, ou ‘essa vai dar trabalho’, se for menina”, conta Dany, que é mãe de dois meninos, Caio e Artur, de 13 e 3 anos.

Com o crescimento da criança, as pressões tendem a piorar. Pais, familiares, amigos da família logo começam a perguntar para crianças se elas já têm namoradinhos ou se gostam de alguém. Os meninos são incentivados a procurarem as meninas, a beijar na boca, ter várias “namoradinhas”. Já as meninas, são repreendidas se fazem o mesmo e aprendem a “se comportar” na presença dos outros.

“Como diz o ditado: ‘segurem as cabras porque meu bode está solto’. Isso explica tudo. Mulheres precisam ser preservadas, princesas, coitadinhas, e os meninos são pegadores”, discute Dany Santos. “Isso se aprende nos primeiros anos de vida, entre familiares. E este pensamento é o mais difícil de quebrar, uma vez que dialoga com o machismo na nossa sociedade.”

Na opinião do psicólogo da Secretaria de Assistência Social do Amazonas, o machismo na infância causa problemas na vida adulta. “O homem é educado para ser dominador, e as mulheres, para aceitarem esse tipo de relação”, disse, ressaltando, mais uma vez a importância da amizade nos primeiros anos de vida:

“Carinho, que se aprende na infância, é uma troca. Atenção é uma troca. E aos cinco anos, a criança sai da fase egocêntrica e passa por uma fase na qual compartilha experiências e isso é um aprendizado. Claro que não dá para definir e dizer que isso é a única causa da violência doméstica. Mas, sim, um dos fatores que levam a isso é quando a criança perde, ou não aprende, a habilidade de se relacionar.”

Ele ainda rebate a crença de que meninos possam “nascer pegadores”. Segundo Coderch, não existe uma criança que nasça assim. Na realidade, crianças nascem com energias, algumas mais ativas e outras menos ativas. Porém é papel de quem educar direcionar essas energias. “O desenvolvimento da personalidade não é influenciado somente pela genética, também é influenciado pela sociedade, cultura e ambiente familiar.”

Como frear a erotização precoce?

Se é necessário respeitar as fases da criança, como saber o momento exato de abordar esse tema? Para o psicólogo, não há uma “receita de bolo” quando o assunto é educação dos filhos, mas é necessário abordar com atenção e cuidado dentro de um ambiente saudável.

A primeira atitude a se tomar é não tocar no assunto “namoro” com crianças, nem deixá-las em ambientes que tenham certa erotização. “Não se pode colocar uma criança em um ambiente onde tenha esse tipo de relacionamento, pois ela não entende isso”, disse o psicólogo da Secretaria de Assistência Social do Amazonas.

Deixar assistir filmes e novelas com classificação etária diferente da criança, por exemplo. “Muitos pais não percebem e permitem que seus filhos assistam filmes e novelas não adequadas.”

Outra questão importante é não incentivar o namoro, seja no círculo familiar ou mesmo na escola.

“Como no caso em que a diretora justificou a procura dos meninos pela filha porque ela é bonita, a escola não pode culpar a garota. Essa não é uma postura correta”, ressaltou Coderch, acrescentando que os responsáveis precisam ter uma relação próxima com a escola e não transferir o papel da educação para os professores.

Segundo Dany Santos, uma dúvida frequente entre os leitores do Quartinho da Dany é como frear esses comentários de familiares e amigos sem parecer grosseiro.

O diálogo, na sua opinião, é fundamental para não criar hostilidade e acabar afastando a pessoa. “Se alguém falar sobre isso para seu filho, você pode dizer que os amiguinhos são só amigos e que criança não namora. Mas sempre na tentativa de inspirar os outros, pois a grosseria acaba afastando do diálogo. E são exatamente nessas pessoas que queremos mudar o pensamento.”

O psicólogo também contesta a a ideia de que há uma idade ideal para começar a falar sobre isso. “Costumo dizer que não é questão de idade, mas sim de maturidade”, esclareceu. “E os pais só vão entender essa maturidade se prestarem atenção nos seus filhos e orientá-los de uma forma correta”, disse.

E, assim como se deve respeitar a fase da socialização, deve-se respeitar a maturidade do pré-adolescente. O psicólogo afirma que não precisa agilizar uma conversa sobre o namoro, pois isso pode colocar uma pressão ainda maior nos filhos (aquela velha pergunta desconcertada “e os namoradinhos?”). “A criança e o adolescente já na própria idade manifestam interesse e procuram adultos, se tiverem um diálogo aberto. Os pais não precisam adiantar.”

Ainda na infância, o ideal é falar sobre amizade e os laços formados nesta primeira fase. Em vez de dizer que o amiguinho ou amiguinha é “namoradinho”, é preciso conversar sobre esses novos laços sociais das crianças, que são nada mais que amizades.

“É interessante os pais explicarem as questões que envolvem um relacionamento de amizade, falar sobre respeito, solidariedade, valores, tratar o outro com carinho. Que a identificação maior com certos amiguinhos, na verdade, é amizade”, esclareceu Coderch.

Em casos que requerem mais atenção, os responsáveis podem procurar um profissional para abordar determinados temas, como psicólogo, psicopedagogo e pedagogo.

Assim, a campanha não visa a criar regras de comportamento e muito menos dar uma fórmula ideal para tratar o tema. Segundo o psicólogo do Amazonas, o que se aborda é a conscientização dos pais em relação à atenção que eles dão aos filhos. “O principal alerta é separar o mundo do adulto do mundo infantil”, adiciona Dany Santos.

Criança precisa imaginar, brincar. E a gente precisa deixar crianças livres para serem crianças. Elas têm a vida toda para serem adultas.

Por Luiza Belloni

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