A doença mental eclode em famílias com distúrbios graves de relacionamento, em que é difícil separar o que é doença do que é reação a interações destrutivas.

O texto abaixo é  parte de uma pesquisa realizada com três famílias de pessoas com esquizofrenia e refere-se a uma das analises realizadas. Para a segurança e anonimato da identidade dos sujeitos foi lhes atribuído na transcrição e análise dos dados em pesquisa, nomes fictícios. Para as famílias foi usada a designação de: Família 1 (F1), Família 2 (F2) e Família 3 (F3). Para as mães foi usado M1, M2 e M3 e para os pacientes foi utilizado P1, P2 e P3 respectivamente.

A adolescência é um período de grandes conquistas, povoada de dilemas, de mudanças físicas e cognitivas. Manifestações de ansiedade, depressão e discussões com os pais a respeito de regras são comuns. Porém, quando demasiado é o tumulto e as dificuldades vão além disso, observa-se que é um problema que já vinha instaurado desde a infância, e isso pode significar uma psicopatologia em evolução (FALCETO, 1996).

Vários autores afirmam que a esquizofrenia aparece principalmente em famílias desestruturadas como coloca Falceto (1996, p-162) onde diz que:

[…] a doença mental eclode em famílias com distúrbios graves de relacionamento, em que é difícil separar o que é doença do que é reação a interações destrutivas. […] Esse é, em geral, o caso da esquizofrenia, que tipicamente eclode na adolescência, em famílias com padrões comunicacionais confusos.

Embora Sadock Bem e Sadock Vir (2007) afirmem que não existem evidências de que um padrão familiar indique o desenvolvimento da esquizofrenia e que da mesma forma, pacientes com esquizofrenia e pessoas sem nenhum tipo de transtorno mental, vem de famílias desestruturadas, eles concordam quando afirmam que o componente ambiental para o desenvolvimento da esquizofrenia pode ser biológico (p. ex., uma infecção) ou psicológico (p. ex., uma situação familiar estressora, ou morte de um ente querido), ou seja, um ambiente familiar disfuncional pode ser o gatilho para despertar a esquizofrenia em um indivíduo que já tenha uma pré-disposição genética.

Saiba mais: Esquizofrenia: a Doença da Loucura

O propósito não é encontrar culpados apontando as famílias como sendo negligentes, ao contrário, o que se deve ter em mente é que ambientes desestruturados e tumultuados aumentam o estresse emocional do paciente tornando-o mais suscetível ao desenvolvimento de um surto conforme aponta Scazufca (2000, p. 50) quando diz que “[…] o clima afetivo familiar crítico, hostil e de alto envolvimento emocional pode afetar negativamente o curso da doença”.

O que pode se constatar através das entrevistas é que as famílias dos pacientes de uma forma ou de outra estavam desestruturadas na época da manifestação da doença. Na F1 a mãe do paciente vivia com outra pessoa que não era o pai do paciente, o que resultava em grandes discussões e desentendimento entre os dois, ao ponto de P1 recorrer varias vezes a fugas de sua casa, que segundo a própria mãe, devia-se ao fato dos dois não se acertarem.

––– “[…] ele ficava nervoso e fugia de casa, brigava muito com o padrasto dele”.

Após o diagnóstico, foi informado pelo médico que a relação familiar deveria ser melhorada a fim de evitar novos surtos. Porém, acabou não ocorrendo uma melhora no vínculo familiar, o que acabou acarretando novos surtos e o paciente teve que ir morar com outro parente para que pudesse fazer um tratamento mais adequado.

––– “Disseram que ele ia ter que ficar mais com a família, que íamos ter que ter paciência com ele, pra não ficar xingando ele, que ia ter que tomar remédio e não se incomodar muito”.

––– “[…] meu marido, o padrasto dele, queria que ele trabalhasse, dai brigavam”.

––– “[…] dava umas crise nele, nem eu reconhecia ele, depois que passava ele falava que não lembrava de nada. […] com 20 anos ele teve uma crise bem grave, ele ficou 20 dias internado em uma clinica em Palmitos. […] ai ele foi morar com uma tia. […] foi difícil porque queria ter ele comigo, mas tive que deixar ele com a tia, mas sempre que eu podia ia lá ver ele.”

Na F2 a mãe havia acabado de se separar de seu marido e um tempo após P2 sofreu com a morte de sua avó e logo em seguida a saída do avô de casa também. Várias foram as perdas que contribuíram para elevar o nível de estresse emocional de F2.

Já na F3 observa-se uma família tradicional de cultura rígida, onde é proibido ficar doente, pois é necessário trabalhar de sol a sol, aqui agravado pela partida de P3 para trabalhar fora, onde acabou consumindo Rebites[1] para manter-se acordado por mais tempo.

––– “Má pai entende que ele tá doente. Mas ele não entendia e brigava muito com o rapaz. Esse rapaz sofreu muito. Esse pia se criou com bicho, porque o pai dele não era gente, como que filho dum tigre vai sair um coelhinho, ele era muito violento com as criança, tudo eles sofreram, tudo ansiosos com problema..”.

A falta de conhecimento acerca da doença é um dos maiores obstáculos na melhoria da qualidade de vida do esquizofrênico. Familiares, por vezes, tomam uma postura rígida por não compreenderem o significado dos comportamentos levando a uma dificuldade de relacionamento e passam a se afastar do indivíduo (PRADO, 1996). A grande maioria das famílias parece ainda não ter a real consciência da importância que sua presença e apoio tem no tratamento do paciente acometido por transtorno mental. Levar conhecimento e mostrar a importância do envolvimento afetivo para essas famílias que não buscam se inteirar da real situação do paciente parece ser o grande desafio para profissionais da saúde que trabalham na área da psiquiatria.

[1] Rebite – A substância popularmente batizado de rebite pelos motoristas nada mais são que anfetaminas. A anfetamina é um estimulante do sistema nervoso central e faz com que o cérebro trabalhe mais depressa e cause nas pessoas a impressão de diminuição da fadiga, de menos sono, perda de apetite e de aumento

 

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Coordenador de TI e Psicólogo. Resolveu estudar psicologia porque queria entender melhor a mente das pessoas, e embora tenha se decepcionado um pouco com algumas coisas que apreendeu ainda acredita no poder de amar e evoluir do ser humano. Idealizador do Pensamento Líquido. Apaixonado por filmes de terror, seriados, anime e mangás e livros de aventura. Não dispensa uma boa comida e bebida na companhia de amigos, especialmente se for pra curtir um bom e velho rock n roll. Para saber mais sobre mim… compre um vinho, pegue um ônibus e venha até a minha casa filosofar sobre a vida.

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