Sentimento é associado a diversas doenças e se torna preocupação nacional em muitos países.

 

Para além da emoção tão cara aos romances literários, a solidão começa a ser encarada como um problema de saúde pública em alguns países do mundo.

No Reino Unido e Estados Unidos, uma em cada três pessoas acima de 65 anos vive sozinha. Metade da população com mais de 85 anos mora só, nos EUA.

Em Blackpool, pequena cidade litorânea ao noroeste da Inglaterra, são cerca de 10 mil ligações semanais recebidas pela Silver Line Helpline, serviço de atendimento telefônico 24 horas por dia, dedicado exclusivamente a pessoas que se sentem solitárias. Foi apenas nos últimos anos, porém, que a solidão deixou de ser tema da psicologia estritamente para tornar-se pauta da medicina clínica.

A questão, no Reino Unido, tem recebido grande atenção. Governos locais estão trabalhando com o Serviço Nacional de Saúde britânico para mitigar os efeitos da solidão, que parece atingir boa parte da população. Até mesmo o corpo de bombeiros foi treinado para, ao inspecionar a segurança anti-incêndio de casas, buscar por sinais de isolamento social, diz um artigo do “New York Times”.

Não é mera preocupação emocional, a solidão tem sido associada com uma série de doenças físicas e problemas cognitivos. Entre as causas de morte precoce, ela supera a obesidade em diferentes partes do mundo, mostra uma pesquisa da Brigham Young University.

“Houve uma explosão de preocupação pública aqui, de autoridades locais, ao Departamento de Saúde, passando pela mídia. A solidão é um problema de todo mundo.” Paul Cann Fundador da organização britânica Campanha para Acabar com a Solidão, ao “NYT”

“Os efeitos profundos da solidão na saúde são uma questão de saúde pública crítica. Não é mais aceitável, medicamente e eticamente falando, ignorar adultos e idosos que se sentem sozinhos e marginalizados.” Carla M. Perissinotto Geriatra da University of California, ao “NYT”

Entre os impactos no corpo, apontam estudos, está o aumento no nível de cortisol, hormônio associado ao estresse, além de aumento da resistência vascular, que pode aumentar a pressão sanguínea e diminuir a fluidez do tecido líquido por órgãos vitais do corpo. Os sinais ativados no cérebro pela solidão podem também impactar a produção de células brancas, afetando o sistema imune.

De onde vem a solidão

Em um artigo acadêmico publicado em fevereiro de 2016, neurocientistas do MIT (Massachusetts Institute of Technology) identificaram uma região do cérebro supostamente responsável por gerar esse sentimento. Chamada núcleo dorsal da rafe, ela é mais comumente associada a depressão.

A constatação foi feita a partir de experiências com ratos em laboratórios. Quando juntos, os pequenos mamíferos apresentavam uma quantidade inexpressiva de dopamina nessa região. Porém após ficarem isolados por um período de tempo e novamente reunidos, a dopamina se tornava mais ativa. A dopamina é um importante neurotransmissor associado ao humor.

Para John T. Cacioppo, professor de psicologia da University of Chicago que estuda o sintoma desde os anos 1990, solidão é um sinal aversivo tal qual sede, fome ou dor. No entanto, explicou ele ao “New York Times”, o sentimento é negligenciado por carregar uma conotação negativa, vista muitas vezes como sinal de fraqueza – incapacidade de ser independente.

O professor alerta, no entanto, que o problema da solidão é cheio de nuances e que a solução não é tão simples quanto parece ser – um serviço de atendimento telefônico 24 horas tem seu valor, pode reduzir o impacto do sentimento temporariamente, mas não pode curá-lo quando existe de forma crônica.

É por isso que no Reino Unido surgem iniciativas diversas nesse sentido. Além da conscientização das brigadas de incêndio, organizações promovem grupos de discussão, clubes do livro e aulas de informática para adultos e idosos que vivem sozinhos. Eles também recebem visitas de voluntários que os convençam a deixar suas casas para socializar.

Autor: Beatriz Montesanti

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