interpretacao_dos_sonhos

Sociedades antigas davam tamanha importância ao sonho que a primeira atividade diária era contar, coletivamente, seus sonhos a fim de esclarecimentos do que sonharam. Assim, aquele povo poderia saber se seriam agraciados por alguma bênção ou amaldiçoados por doenças e pragas. Sonhos sempre significaram muito para a humanidade, mas ganhou cientificidade apenas no século XX, com a obra magna de Sigmund Freud, A Interpretação dos Sonhos. Como a Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica afirma em sua página eletrônica:

Os povos antigos, chineses, gregos, hindus e romanos consideravam os sonhos como mensageiros; para uns, mensageiros dos espíritos e demônios, para outros, mensageiros dos deuses. O comportamento desses povos era determinado pela compreensão dos sonhos. (REIS, 2015 p.1)
 

No ano de 1899, Sigmund Freud publicou (com data de 1900) o que considerava sua maior obra: A Interpretação dos Sonhos. Freud afirma em seu livro que, antes de Aristóteles, os antigos não consideravam que o sonho pudesse ter alguma relação com a psique, mas apenas uma origem divina. Para esses povos da antiguidade existiam dois tipos de sonhos: os de natureza divina que eram considerados verdadeiros e valiosos e tinham como função advertir ou anunciar o futuro e sonhos insignificantes e fúteis que serviam apenas para desorientar e arruinar o sonhador. Como consta na obra magna do criador da psicanálise:

Como se sabe, antes de Aristóteles os antigos não consideravam o sonho um produto da psique que sonha, e sim uma inspiração de origem divina, e as duas correntes antagônicas que sempre encontraremos na apreciação da vida onírica já tinham se afirmado entre eles. Fazia-se distinção entre sonhos verdadeiros e valiosos, enviados à pessoa que dorme para adverti-la ou lhe anunciar o futuro, e sonhos insignificantes, enganadores e fúteis, cuja intenção era desorientá-la ou precipitá-la na ruína. (FREUD, 2012 p.17)

No livro, afirmava que o sonho era uma tentativa de realização de um desejo reprimido inconsciente, pois durante o sono a repressão diminui, podendo então sonhar com aquilo que está sufocado.

O psicanalista lembrou em seu livro que poderia ser questionado sobre se o sonho for uma realização de desejo, porque não sonhar diretamente com o que se deseja, ao invés de ter que passar por uma interpretação para descobrir o que o sonhador realmente anseia. Ele então explica que o motivo se dá ao fato de que o desejo está reprimido, tendo como única maneira de passar pela consciência, distorcendo o sonho; vale a mesma explicação para a origem dos sonhos de angústia. Como escreve em seu exemplar:

Quando a realização de desejo é irreconhecível, quando é disfarçada, deve ter havido uma tendência à defesa contra esse desejo e, em consequência dela, o desejo não poderia se manifestar de outra forma a não ser distorcido. (FREUD, 2012 p.163).

Neste caso, por que os sonhos geralmente parecem tão confusos então? Freud dá a explicação que embora a repressão possa diminuir durante o sono, ainda continua em menor quantidade, fazendo uma comparação com um regime ditatorial, como por exemplo, no caso da mídia e das músicas que devem ser escritas de modo a não chamar a atenção dos censores do governo, com trocadilhos e figuras de linguagem. Na música brasileira do renomado cantor Chico Buarque, Cálice, há um trecho da canção: “Pai, afasta de mim esse cálice”, onde cálice é possível ser substituído por “cale-se”, que mesmo soando igual não é a mesma palavra, em alusão à repressão da ditadura.

Para a interpretação de um sonho, ele centra sua teoria em 2 fatores, cuja estimável obra, Dicionário de Psicanálise explica primeiramente, é a Condensação como:

Termo empregado por Sigmund Freud para designar um dos principais mecanismos do funcionamento do inconsciente.  A condensação efetua a fusão de diversas idéias do pensamento inconsciente, em especial no sonho, para desembocar numa única imagem no conteúdo manifesto, consciente. (ROUDINESCO E.; PLON M., 1998 p.125)

O segundo, explicado pelos autores, é o Deslocamento como:

Processo psíquico inconsciente, teorizado por Sigmund Freud sobretudo no contexto da análise do sonho. O deslocamento, por meio de um deslizamento associativo, transforma elementos primordiais de um conteúdo latente em detalhes secundários de um conteúdo manifesto. (ROUDINESCO E.; PLON M., 1998 p.148)

Explicando melhor, a condensação é como se fosse uma maneira de disfarçar pensamentos tidos como desagradáveis pelo sonhador, enganando a consciência com uma mistura de outras emoções. Para chegar ao raciocínio principal, antes é necessário, com ajuda do analista, passar por um encadeamento de ideias até chegar ao núcleo.

Para melhor mostrar isso, Freud (1900, p.328) explica sobre seu sonho da monografia de botânica, no qual o conteúdo onírico central é a botânica, mas o verdadeiro sentido são as complicações e conflitos resultantes de serviços que exigem retribuição entre colegas. A disciplina com a qual sonhou, conforme menciona em sua obra, não é uma de suas favoritas, mas tornou-se o centro do sonho, como um deslocamento, para esconder o real conteúdo recalcado.

Além dos dois termos mencionados, o médico vienense explica que os sonhos devem ser interpretados por meio de associação livre, onde o paciente, ajudado pelo analista, associaria livremente o que cada parte do sonho lembra. Esse método era necessário, pois somente assim poderia ter acesso ao inconsciente, onde ficam os desejos represados pelo recalque.

O psicanalista falou também dos sonhos típicos, os quais possuem o mesmo significado para todos, pois são provenientes de uma mesma fonte em todas as pessoas, provavelmente. Assim, escreve em seu livro, com a costumeira maestria a qual escolhe as palavras, segue a sua geniosa explicação acerca do que observou:

Esses sonhos típicos também despertam um interesse especial porque supostamente provêm das mesmas fontes em todas as pessoas, parecendo portanto especialmente apropriados para dar esclarecimentos sobre as fontes dos sonhos. (FREUD, 2012 p.263).

Muito a contragosto, ele afirma em seu livro que sonhos típicos não dão os melhores resultados nas análises, dando a seguinte explicação:

Na interpretação dos sonhos típicos faltam em geral as ideias que ocorrem ao sonhador e que em geral nos levaram à compreensão do sonho, ou elas se tornam obscuras e insuficientes, de modo que não podemos resolver nossa tarefa com a ajuda delas. (Ibid.).

Freud em sua genialidade concedeu um novo sentido ao sonho, um sentido de cunho mais científico, com suas explicações fundamentadas em suas análises e experiências pessoais. O pai da psicanálise foi capaz de dar mais cientificidade aos sonhos, uma luz para novas pesquisas acerca do assunto que sempre esteve muito presente no pensamento humano.

Trecho retirado do artigo: A História dos Sonhos e seus Avanços Científicos
Autor: Pablo Laffaet Stefanes Soares

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