Memórias, é Possível Manipula-las?

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Cientistas descobrem como “apagar” memórias dolorosas (e implantar novas).

Em Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças, o protagonista Joel decide passar por um procedimento um tanto quanto radical: deletar todas as memórias do seu relacionamento com a ex-namorada, Clementine, que não terminou lá muito bem. Parece ficção científica, mas um documentário recente do canal americano PBS, Memory Hackers, mostrou que estamos mais perto do que nunca de conseguir apagar lembranças dolorosas – e até mesmo implantar outras, tão convincentes quanto.

Mas como deletar uma memória? Antes de chegar aí, é preciso entender como as memórias se formam e se mantém vivas em nossos cérebros. No passado, a ciência acreditava que as memórias ficavam armazenadas em um ponto específico, como uma “caixinha de lembranças”; na verdade, cada memória que temos está cheia de conexões em todo o cérebro, o que torna bem mais difícil apagá-las.

Para a memória se formar, é preciso que proteínas estimulem nossas células cerebrais o suficiente para crescerem e formar novas conexões. Assim que isso acontece, a memória fica “guardada” na mente, e em geral fica lá até ser acessada novamente por nós. Mas memórias de longo prazo não são estáveis: sempre que revisitamos essa lembrança, ela se torna mais “maleável” e forte do que antes, em um processo chamado de “reconsolidação”. Esse fenômeno também explica porque algumas lembranças mudam um pouco ao longo dos anos, e é justamente ele que pode oferecer um caminho para cientistas conseguirem “hackear” memórias.

Em uma entrevista ao The Telegraph, o cientista Richard Gray, um dos responsáveis pela pesquisa, explica: “nosso estudo sugere que memórias podem ser manipuladas porque elas ‘agem’ como se fossem feitas de vidro, em um estado antes de ele se tornar sólido. Quando uma memória é ‘solicitada’ novamente, contudo, ela volta a esse estado maleável e permite alterações”.

Não são poucos os estudos que sugerem uma relação entre um químico produzido pelo nosso cérebro, a norepinefrina ou noradrenalina (em geral, ativada em situações de briga ou ansiedade ao voar, e a causadora das mãos suadas e do coração acelerado nessas situações estressantes), e as memórias traumáticas. Ao bloquear a produção desse químico, os pesquisadores podem “afastar” essas lembranças dolorosas e impedir que sejam associadas a emoções negativas. Para provar isso, os pesquisadores fizeram um teste com pessoas que tem pavor de aranhas: três grupos de voluntários com aracnobofia foram organizados. Dois deles encararam uma tarântula em uma garrafa de vidro, para que suas memórias traumatizantes com aranhas fossem ativadas, e então receberam propranolol ou um placebo. O terceiro grupo recebeu apenas propranolol, sem ver a aranha, para que os pesquisadores pudessem eliminar a possibilidade de que a droga, simplesmente, pudesse reduzir o medo.

Nos meses que se seguiram, os grupos foram novamente apresentados a uma tarântula, e o medo que sentiram foi medido. Os resultados foram, no mínimo, incríveis – enquanto o grupo que recebeu placebo ou não foi exposto a aranha continuou com o mesmo medo, aqueles que receberam a droga e encararam a tarântula foram capazes de tocar o animal em poucos dias. Em três meses, a maioria deles foi capaz de segurar a aranha confortavelmente, e o medo não voltou por mais de um ano. A fobia havia sido, para todos os efeitos, “deletada”.

Em 2007, um teste foi feito com a mesma droga, dessa vez aplicada em pacientes com um trauma. Durante dez dias, cada participante da pesquisa recebeu propranolol ou placebo, e então era convidado para descrever memórias do evento traumático. Quem recebeu a droga não esqueceu o trauma, mas após uma semana de medicações, foi capaz de contar a história novamente, com muito menos estresse.

Até onde sabemos, os pesquisadores ainda não tentaram oficialmente deletar uma memória completamente em humanos, especialmente por conta das implicações éticas disso. Mas é algo realmente possível, com uma combinação correta de drogas e exercícios de memória, de acordo com o ScienceAlert. O mais apavorante, contudo, é a possibilidade de implantar memórias falsas. Usando o mesmo processo de reconsolidação, é possível fazer com que pessoas se lembrem de crimes que nunca cometeram – e até forneçam detalhes precisos do acontecido.

De acordo com os pesquisadores do Memory Hackers, a ideia da pesquisa não é apagar inteiramente as memórias tristes das pessoas, e sim torná-las menos estressantes ou dolorosas. De acordo com a pesquisa, não são exatamente as memórias que nos causam dor, e sim as associações que fazemos a elas. Além disso, a descoberta pode ser útil para tratamentos de ansiedade e fobias. “Não queremos limpar nossos ‘hard drivres‘… A habilidade de esquecer coisas doloridas nos permite criar novas histórias sobre quem somos”, disse o criador do Memory Hackers, Michael Bicks.

Você apagaria alguma lembrança sua?

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