Podemos dizer que a modernidade líquida é a época atual em que vivemos. É o conjunto de relações e instituições, além de sua lógica de operações, que se impõe e que dão base para a contemporaneidade. É uma época de liquidez, de fluidez, de volatilidade, de incerteza e insegurança. É nesta época que toda a fixidez e todos os referenciais morais da época anterior, denominada pelo autor como modernidade sólida, são retiradas de palco para dar espaço à lógica do agora, do consumo, do gozo e da artificialidade.

Antes de Bauman criar o conceito de modernidade líquida, já Marx e Engels caracterizavam a modernidade como o processo histórico que derretia todas as instituições de outras épocas, como a família, a comunidade tradicional (culturalmente peculiar e fechada para forasteiros) e a religião (vide a secularização dos Estados-nação no século XX). O objetivo do derretimento proposto pela modernidade era questionar cada ponto da vida, descartando a irracionalidade e a falta de justificativa plausível que cada objeto de crítica continha, mas mantendo ou realocando no projeto racional e iluminista suas características ainda aproveitáveis.

A destruição da modernidade, portanto, era criativa, na medida em que desenraizava o velho e o enraizava no novo, o colocando em outra gama de relações. É este o mote de Zygmunt Bauman para entender que a configuração atual da modernidade é qualitativamente diferente daquela descrita acima e vigente até a década de 60 (que é tomada como marco simbólico da mudança de época que trataremos aqui). A modernidade líquida, nos dirá Bauman, é o momento em que os referenciais que possibilitavam o desenraizamento e reenraizamento do velho no novo são liquefeitos e, assim, perdidos.

Quando não há mais tais referenciais, a vida passa a ser entendida como projeto individual. E quais são esses referenciais? A classe, a religião, a família, a nacionalidade, a ideologia política. Todos eles foram solapados por uma crescente tendência ao consumo, à transformação das relações sociais em mercadoria, portanto, da própria identidade em mercadoria. Isso pode ser visto principalmente no “processo de desregulamentação política, social e econômica que se manifesta na expansão livre dos mercados mundiais, no desengajamento coletivo e esvaziamento do espaço público”, diz Tiago de Oliveira Fragoso.

Fragoso complementa, “Na modernidade líquida os indivíduos não possuem mais padrões de referência, nem códigos sociais e culturais que lhes possibilitassem, ao mesmo tempo, construir sua vida e se inserir dentro das condições de classe e cidadão. Chega-se no entender de Bauman a era da comparabilidade universal, onde os indivíduos não possuem mais lugares pré-estabelecidos no mundo onde poderiam se situar, mas devem lutar livremente por sua própria conta e risco para se inserir numa sociedade cada vez mais seletiva econômica e socialmente”.

É nesta época que as relações de trabalho cada vez mais se desgastam e que a própria esfera do trabalho cada vez mais vira um campo fluido desregulamentado. Então, empregos temporários, meia jornada, empregos em que as relações de empregado-empregador são constituídas somente pelos dois (como os trabalhadores que são Pessoa Jurídica), se tornam situações fáceis de observar e consideradas legítimas pela sociedade. Nisto, emerge a figura do desempregado crônico.

Nas relações pessoais, as conexões predominam. Conexão é o termo que Zygmunt Bauman usa para descrever as relações frágeis. A grande sacada desta palavra envolve a noção de que, em uma conexão, a vantagem não está só em ter várias conexões, mas, principalmente em conseguir desconectar sem grandes perdas ou custos. A relação frágil tem como pressuposto a transformação dos humanos em mercadorias que podem ser consumidas e jogadas no lixo a qualquer momento – a qualquer momento eles (os humanos) podem ser excluídos. A conexão é frágil porque o sujeito líquido lida com um mundo de consumo e opções, mas esse mundo nunca é objetivo e frio, ele ainda causa frustrações e, como já dito, insegurança. O sujeito líquido não tem mais referenciais de ação: toda a autoridade de referência é coloca em si e é sua responsabilidade construir ou escolher normas a serem seguidas – tudo se passa como se tudo fosse uma questão de escolher a melhor opção, com melhores vantagens e, de preferência, nenhuma desvantagem.

Isso tudo é coberto por uma mentalidade que, não só valida as instituições e as normas, mas também dá base para a vida dos sujeitos: os imperativos de consumo são inscritos naquilo que há de mais fundamental na constituição do sujeito líquido. Até mesmo no sexo.

Na modernidade líquida, o sexo é uma força de atomização, não de união. As conexões sexuais fortalecem a noção do indivíduo isolado, porque elas não são muito mais que o acúmulo de sensações que os sujeitos pós-modernos foram construídos para buscar. O sexo é sempre a satisfação instintiva individual sem qualquer responsabilidade ou ligação com o outro, sempre a acumulação de prazeres.

No entanto, para além da prática sexual, a própria noção da sexualidade foi modificada. Percebe-se isso nas crianças: atualmente, a expressão da sexualidade na criança é tida como produto do abuso de adultos – os adultos as abusam e este ato criminoso seria refletido na criança em ações simples, como quando começa a mexer nos próprios órgãos genitais. Antes desta conceituação da sexualidade infantil, as crianças eram tidas como sujeitos sexuais, elas tinham interesse pelo prazer sexual e se masturbaram em busca destas sensações (basta ler Freud).

Portanto, o autor chega a conclusão que essa nova significação da sexualidade infantil é o oposto da sexualidade, digamos, “sólida”: nela, a sexualidade era parte do instinto incontrolável que deveria ser vigiado constantemente pelos pais. A criança passou de sujeito sexual a objeto sexual.

Se os pais, quando próximos, podem ser considerados abusadores sexuais (o autor dá um ótimo exemplo no Mal Estar da Pós-Modernidade sobre um caso em que a escola de uma criança processou seus pais por abuso, mas eles acabaram sendo inocentados, porém não antes de recebem um grande linchamento moral), então a atitude correta é se afastar. Logo, o filho cresce sem a relação íntima e profunda (e vigilante, autoritária) que era sempre construída na modernidade sólida. é importante dizer que nada disso é meramente consciente e intencional – esse afastamento se dá “naturalmente”, daí a característica de qualquer época ser marcada por um véu de naturalidade.

Modernidade líquida é pós-modernidade?

Não! Este é um ponto importante: o conceito de modernidade líquida, fruto da análise de Bauman, não é um conceito análogo ao de pós-modernidade. Na verdade, é um conceito crítico.

Para Bauman, não há uma pós-modernidade, há uma continuação da modernidade com pontos diferentes. Aqui, o autor tem uma certa afinidade com Manuel Castells, que, ao falar da sociedade informacional, afirma que a sociedade industrial (no sentido de ter como base de produção as indústrias), ainda existe, mas com lógica diferente. Não se trata de uma ruptura de época, mas de uma transformação dentro de uma estrutura, digamos, contínua. O mesmo aconteceria na sociedade líquida.

Apesar de ser confundido erroneamente como pós-modernista (e por isso que tem colocado o termo “modernidade líquida” em seus livros recentes), sua obra é, como já dito, completamente crítica àquilo que chama de pós-modernidade. O autor chega ao ponto de ser rígido com isso, afirmando:

Uma das razões pelas quais passei a falar em “modernidade líquida” em vez de “pós-modernidade” (meus trabalhos mais recentes evitam esse termo) é que fiquei cansado de tentar esclarecer uma confusão semântica que não distingue sociologia pós-moderna de sociologia da pós-modernidade, entre “pós-modernismo” e “pós-modernidade”. No meu vocabulário, “pós-modernidade” significa uma sociedade (ou, se se prefere, um tipo de condição humana), enquanto que “pós-modernismo” se refere a uma visão de mundo que pode surgir, mas não necessariamente, da condição pós-moderna.

Procurei sempre enfatizar que, do mesmo modo que ser um ornitólogo não significa ser um pássaro, ser um sociólogo da pós-modernidade não significa ser um pós-modernista, o que definitivamente não sou. Ser um pós-modernista significa ter uma ideologia, uma percepção do mundo, uma determinada hierarquia de valores que, entre outras coisas, descarta a idéia de um tipo de regulamentação normativa da comunidade humana e assume que todos os tipos de vida humana se equivalem, que todas as sociedades são igualmente boas ou más; enfim, uma ideologia que se recusa a fazer julgamentos e a debater seriamente questões relativas a modos de vida viciosos e virtuosos, pois, no limite, acredita que não há nada a ser debatido. Isso é pós-modernismo.

A pós-modernidade, portanto, é uma fatia no tempo e no espaço, mas é uma fatia que nem mesmo pode ser chamado de “pós”, pois não há superação de nada, o que há é uma sequência contínua de modernidade sólida para modernidade líquida, com algumas características diferentes, mas ainda com o núcleo capitalista intocável. Essa mudança seria muito bem adaptável ao capitalismo (ou o capitalismo seria muito bem adaptável a essa mudança), mas dessa vez, ele se torna muito mais voraz que em épocas anteriores.

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