Quando se fala em Natal, hoje, o pensamento automaticamente voa na direção de presentes e comidas. Vivemos num tempo em que os valores de nossos antepassados se tornaram fluidos. Mas apesar dessa percepção dominante, ainda existem famílias que valorizam o verdadeiro sentido do natal.

Muitos pais utilizam a figura do papai Noel como forma de ampliar as fantasias que povoam a mente das crianças. A expectativa de cada uma para este dia é fundamental, seja pela ansiedade de ganhar aquele brinquedo tão desejado ou pelo esforço para se manter acordado durante a madrugada e assim encontrar Papai Noel. Ao serem perguntadas sobre o assunto, muitas crianças colocam suas fantasias em prática quando dizem que viram o papai Noel deixando seu presente, ou mesmo, que tiveram o azar de acordar tarde, mas a tempo de ver renas voando sobre o quintal. O Natal deixa rastros de esperança e permite que muitos façam parte de um momento mágico.

Mas essa espera não está restrita ao universo da criança. Para que elas tenham introjetado tal mito foi necessário que o pai, a mãe, a avó ou alguém importante para essa criança também acreditasse um dia em tudo isso. Assim, o papai Noel é uma lembrança da infância de cada um de nós que se re-atualiza a cada Natal. A psicanálise nos mostra, mais uma vez, que os desejos e conflitos de nossa infância não terminam porque nos tornamos adultos. O que seria de nós sem nossas crenças infantis?

O ritual de dar o brinquedo no Natal representa para uma criança mais do que imaginamos. Nesse momento, ela pode unir fantasia e realidade, o seu mundo interior ao exterior. O presente tem a marca da realidade num mundo de fantasias construído para organizar de forma simbólica as vivências de conflitos e desamparos. A fantasia tem a função de organizar o mundo em que a criança vive.

Segundo Freud, a criança brinca para criar e descobrir, ou seja, brinca para poder elaborar perdas, para encenar o que ainda não compreende da sua vida, brinca para simbolizar. Então, a criança necessita da brincadeira para apoiar sua inscrição no desejo. O brinquedo assim, se transforma em outra coisa com o investimento imaginário e simbólico que a criança consegue fazer. Através do brincar, ela pode elaborar a distância entre a possibilidade e a insuficiência no desejo de ser grande.

Parece-nos que uma grande dificuldade com a qual os pais se deparam é que, depois de tornarem-se pais, muitos acreditam ter que cumprir um papel extremamente sério e responsável, não restando mais a eles a capacidade de se divertir, de brincar, enfim, sentem-se na obrigação de deixar se esvair a criança que seguramente ainda existe dentro deles, mas que insistem em deixar presa como que num calabouço, muito bem isolado sonoramente, para que suas gargalhadas de alegria não possam ser mais ouvidas. Com essa criança escondida, como poderão os pais estabelecer uma sincera relação com os seus filhos, propiciando-lhes assim um entendimento de seu mundo interior?

Os pais perguntam aos psicólogos e analistas como agir corretamente, pois cada filho é um desafio e a cada dia tudo o que já sabiam parece se modificar. Freud nos diz que a palavra está sempre em jogo, e a criança pode nos responder através dos atos do seu brincar as perguntas que lhe fazemos. É preciso suportar um brincar descomprometido de regras, pois a criança não vive num mundo pacífico, sem conflitos, então ela quer o prazer que o mistério proporciona. Talvez por isso, o presente e as historias de Natal nunca perdem seu lugar. Os brinquedos podem ficar para trás, as brincadeiras se modificam, mas as vivencias não estarão perdidas, pois sempre retornam e dão sentido à nossa vida.

Por Raquel Gomes da Silva e Roberta Santos Gondim
http://rgpsicanalise.blogspot.com.br

 

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