O Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) é um transtorno neurobiológico, de causas genéticas, que aparece na infância e freqüentemente acompanha o indivíduo por toda a sua vida. Ele se caracteriza por sintomas de desatenção, inquietude e impulsividade.

Ele é o transtorno mais comum em crianças e adolescentes encaminhados para serviços especializados. Ele ocorre em 3 a 5% das crianças, em várias regiões diferentes do mundo em que já foi pesquisado. Em mais da metade dos casos o transtorno acompanha o indivíduo na vida adulta, embora os sintomas de inquietude sejam mais brandos.

Esse transtorno tem características bastante heterogêneas. Os traços comuns a todos – desatenção, impulsividade e hiperatividade – são prevalentes em graus de intensidade diferentes de pessoa para pessoa. Se juntarmos a isso, as comorbidades, presentes em 66% dos casos, mais as condições de vida familiar e social, além de questões biológicas inerentes a cada indivíduo (como inteligência, resiliência), encontraremos um grupo heterogêneo, o que pode dificultar algumas vezes o diagnóstico, e confundir pais e professores.

Com o passar dos anos e milhares de estudos e pesquisas desenvolvidas ao redor do mundo, o último manual de transtornos psiquiátricos, chegou ao consenso, de que o TDAH se apresenta especialmente sob três aspectos;

  1. Apresentação do tipo combinado: Quando o paciente apresenta seis ou mais sintomas de desatenção, impulsividade e hiperatividade;
  2. Apresentação do tipo predominantemente desatento: quando apresenta seis ou mais sintomas de desatenção, porém menos sintomas de hiperatividade e impulsividade;
  3. Apresentação predominantemente hiperativa/impulsiva: quando apresenta seis ou mais sintomas de hiperatividade/impulsividade e menos de seis sintomas de desatenção.

Os estudos indicam que 66% das crianças apresentam o tipo combinado, 26% o tipo desatento, e 8% o tipo hiperativo. Nos adultos, 62% apresentam o tipo combinado, 31% o tipo desatento e 7% o tipo hiperativo.

Os estudos apontam que, em sua maioria, crianças diagnosticadas com o tipo predominantemente hiperativo tem menos de 7 anos. Pessoas com predominância da desatenção, tem maior tendência a desenvolver depressão. Pessoas do subtipo combinado são as que tem os maiores prejuízos, – são globais – e apresentam maior chance de desenvolver Transtorno opositivo desafiante, transtorno de conduta e transtornos de humor.

O TDAH na infância em geral se associa a dificuldades na escola e no relacionamento com demais crianças, pais e professores. As crianças são tidas como “avoadas”, “vivendo no mundo da lua” e geralmente “estabanadas” e com “bicho carpinteiro” ou “ligados por um motor” (isto é, não param quietas por muito tempo). Os meninos tendem a ter mais sintomas de hiperatividade e impulsividade que as meninas, mas todos são desatentos. Crianças e adolescentes com TDAH podem apresentar mais problemas de comportamento, como por exemplo, dificuldades com regras e limites.

Em adultos, ocorrem problemas de desatenção para coisas do cotidiano e do trabalho, bem como com a memória (são muito esquecidos). São inquietos (parece que só relaxam dormindo), vivem mudando de uma coisa para outra e também são impulsivos (“colocam os carros na frente dos bois”). Eles têm dificuldade em avaliar seu próprio comportamento e quanto isto afeta os demais à sua volta. São freqüentemente considerados “egoístas”. Eles têm uma grande freqüência de outros problemas associados, tais como o uso de drogas e álcool, ansiedade e depressão.

Algumas considerações são importantes:

  1. Sim, existe TDAH, sem hiperatividade.
  2. As medicações são as mesmas em qualquer dos tipos predominantes.
  3. Os sintomas podem variar com o tempo, assim, alguém que se apresenta como desatento hoje, pode se apresentar com o tipo combinado depois de alguns anos e vice-versa.
  4. As comorbidades, as condições sociais, e as condições biológicas específicas de cada sujeito, podem interferir na apresentação dos sintomas;
  5. Quando se fala em hiperatividade, as pessoas pensam imediatamente na hiperatividade motora, ou seja, na criança extremamente agitada. A pessoa do tipo desatenta, tem um tipo de hiperatividade mental;
  6. Nem toda pessoa hiperativa, tem necessariamente TDAH.
  7. O TDAH nada tem a ver com inteligência. É possível que uma pessoa com TDAH tenha QI acima da média, e outra tenha QI abaixo, e nada disso é ‘culpa’ do TDAH.

Quais são as causas do TDAH?

Já existem inúmeros estudos em todo o mundo – inclusive no Brasil – demonstrando que a prevalência do TDAH é semelhante em diferentes regiões, o que indica que o transtorno não é secundário a fatores culturais (as práticas de determinada sociedade, etc.), o modo como os pais educam os filhos ou resultado de conflitos psicológicos.

Estudos científicos mostram que portadores de TDAH têm alterações na região frontal e as suas conexões com o resto do cérebro. A região frontal orbital é uma das mais desenvolvidas no ser humano em comparação com outras espécies animais e é responsável pela inibição do comportamento (isto é, controlar ou inibir comportamentos inadequados), pela capacidade de prestar atenção, memória, autocontrole, organização e planejamento.

O que parece estar alterado nesta região cerebral é o funcionamento de um sistema de substâncias químicas chamadas neurotransmissores (principalmente dopamina e noradrenalina), que passam informação entre as células nervosas (neurônios). Existem causas que foram investigadas para estas alterações nos neurotransmissores da região frontal e suas conexões.

A) Hereditariedade:

Os genes parecem ser responsáveis não pelo transtorno em si, mas por uma predisposição ao TDAH. A participação de genes foi suspeitada, inicialmente, a partir de observações de que nas famílias de portadores de TDAH a presença de parentes também afetados com TDAH era mais freqüente do que nas famílias que não tinham crianças com TDAH. A prevalência da doença entre os parentes das crianças afetadas é cerca de 2 a 10 vezes mais do que na população em geral (isto é chamado de recorrência familial).

Porém, como em qualquer transtorno do comportamento, a maior ocorrência dentro da família pode ser devido a influências ambientais, como se a criança aprendesse a se comportar de um modo “desatento” ou “hiperativo” simplesmente por ver seus pais se comportando desta maneira, o que excluiria o papel de genes. Foi preciso, então, comprovar que a recorrência familial era de fato devida a uma predisposição genética, e não somente ao ambiente. Outros tipos de estudos genéticos foram fundamentais para se ter certeza da participação de genes: os estudos com gêmeos e com adotados. Nos estudos com adotados comparam-se pais biológicos e pais adotivos de crianças afetadas, verificando se há diferença na presença do TDAH entre os dois grupos de pais. Eles mostraram que os pais biológicos têm 3 vezes mais TDAH que os pais adotivos.

Os estudos com gêmeos comparam gêmeos univitelinos e gêmeos fraternos (bivitelinos), quanto a diferentes aspectos do TDAH (presença ou não, tipo, gravidade etc…). Sabendo-se que os gêmeos univitelinos têm 100% de semelhança genética, ao contrário dos fraternos (50% de semelhança genética), se os univitelinos se parecem mais nos sintomas de TDAH do que os fraternos, a única explicação é a participação de componentes genéticos (os pais são iguais, o ambiente é o mesmo, a dieta, etc.). Quanto mais parecidos, ou seja, quanto mais concordam em relação àquelas características, maior é a influência genética para a doença. Realmente, os estudos de gêmeos com TDAH mostraram que os univitelinos são muito mais parecidos (também se diz “concordantes”) do que os fraternos, chegando a ter 70% de concordância, o que evidencia uma importante participação de genes na origem do TDAH.

A partir dos dados destes estudos, o próximo passo na pesquisa genética do TDAH foi começar a procurar que genes poderiam ser estes. É importante salientar que no TDAH, como na maioria dos transtornos do comportamento, em geral multifatoriais, nunca devemos falar em determinação genética, mas sim em predisposição ou influência genética. O que acontece nestes transtornos é que a predisposição genética envolve vários genes, e não um único gene (como é a regra para várias de nossas características físicas, também). Provavelmente não existe, ou não se acredita que exista, um único “gene do TDAH”. Além disto, genes podem ter diferentes níveis de atividade, alguns podem estar agindo em alguns pacientes de um modo diferente que em outros; eles interagem entre si, somando-se ainda as influências ambientais. Também existe maior incidência de depressão, transtorno bipolar (antigamente denominado Psicose Maníaco-Depressiva) e abuso de álcool e drogas nos familiares de portadores de TDAH.

B) Substâncias ingeridas na gravidez:

Tem-se observado que a nicotina e o álcool quando ingeridos durante a gravidez podem causar alterações em algumas partes do cérebro do bebê, incluindo-se aí a região frontal orbital. Pesquisas indicam que mães alcoolistas têm mais chance de terem filhos com problemas de hiperatividade e desatenção. É importante lembrar que muitos destes estudos somente nos mostram uma associação entre estes fatores, mas não mostram uma relação de causa e efeito.

C) Sofrimento fetal:

Alguns estudos mostram que mulheres que tiveram problemas no parto que acabaram causando sofrimento fetal tinham mais chance de terem filhos com TDAH. A relação de causa não é clara. Talvez mães com TDAH sejam mais descuidadas e assim possam estar mais predispostas a problemas na gravidez e no parto. Ou seja, a carga genética que ela própria tem (e que passa ao filho) é que estaria influenciando a maior presença de problemas no parto.

D) Exposição a chumbo:

Crianças pequenas que sofreram intoxicação por chumbo podem apresentar sintomas semelhantes aos do TDAH. Entretanto, não há nenhuma necessidade de se realizar qualquer exame de sangue para medir o chumbo numa criança com TDAH, já que isto é raro e pode ser facilmente identificado pela história clínica.

E) Problemas Familiares:

Algumas teorias sugeriam que problemas familiares (alto grau de discórdia conjugal, baixa instrução da mãe, famílias com apenas um dos pais, funcionamento familiar caótico e famílias com nível socioeconômico mais baixo) poderiam ser a causa do TDAH nas crianças. Estudos recentes têm refutado esta idéia. As dificuldades familiares podem ser mais conseqüência do que causa do TDAH (na criança e mesmo nos pais).

Problemas familiares podem agravar um quadro de TDAH, mas não causá-lo.

Como podemos ajudar essas pessoas a acumularem menos prejuízos?

 

1 – Pessoas com TDAH, não são ‘mal-educadas’ ou ‘sem limites’. Em geral, elas extrapolam e se arrependem ou se envergonham quando são chamadas a atenção (exceto se tiverem TOD ou TC). Portanto, é sim, importante que pais eduquem seus filhos com TDAH, estabelecendo regras e limites. Eles terão mais dificuldades em cumpri-las, e nesse sentido, os pais devem ter paciência, mas não condescendência. É cansativo e não é fácil, desgastante para os pais em geral, que precisarão usar de toda sensibilidade e bom senso para discernir até que ponto se deve fazer pressão ou não, até que ponto a pressão é produtiva, e em que ponto a pressão pode piorar a condição da pessoa com TDAH.

2 – Estimular a criatividade;

3 – Estimular atividades de que gostam, porém, alternando com responsabilidades;

4 – Não sobrecarregar de atividades;

5 – Conceder intervalos de descanso no meio de tarefas maçantes;

6 – Reforçar positivamente o esforço em si, independentemente dos resultados;

7 – Fortalecer a autoestima; não fazer comparações com outras pessoas;

8 – Explicar as coisas por partes. Explicações curtas e diretas. Fale olhando nos olhos, faça-os repetir as instruções, e principalmente, não dê instruções em ambientes agitados e barulhentos.

9 – Busque não ser extremista, não dar punições ou chamadas com tons extremos. Pessoas com TDAH tem dificuldade em perceber todos os espectros de uma situação, enxergando como tudo ou nada. Com essa visão, eles ficam mais suscetíveis a depressão e baixa autoestima, já que, só sabem ver ‘certo’ ou ‘errado’, que acaba se transformando em ‘sou capaz de tudo ou não sou capaz de nada’.

10 – Tenha em mente que cada um é cada um. Observe, perceba, entenda aquela pessoa em suas especificidades e tente estimular o melhor que ela pode oferecer, respeitando suas limitações.

Fonte: Associação Brasileira do Déficit de Atenção (ABDA)

 

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