Meus primeiros atendimentos como psicoterapeuta ocorreram ainda durante a graduação em Psicologia, no estágio curricular. Até hoje me lembro do primeiríssimo deles. Era uma mulher cujas queixas e motivos para buscar terapia ocupavam frente e verso da sua folha de triagem. Sua biografia incluía várias tentativas de suicídio, história de abuso na infância pelo pai e irmão, dois abortos espontâneos, dificuldades de relacionamentos afetivos em geral, dificuldades em se manter num emprego, sentimento de vazio, auto-estima comprometida, entre outras coisas.

No início da primeira sessão, após enumerar alguns desses motivos e explicar por quê estava buscando terapia (e não era a primeira vez), ela me disse (em um tom bem desafiador) algo como: “Para mim, terapia tem que ser igual um remedinho; tomo, e melhoro logo. Se eu vier aqui 5 ou 6 vezes e não resolver meu problema, e não venho mais aqui”.

Passados os altos e baixos das primeiras sessões do processo terapêutico, dito e feito: completado o número de sessões anunciado, ela não voltou mais.

Esta cliente, assim como a esmagadora maioria das pessoas que buscam psicoterapia (e principalmente das que não buscam), vê o psicólogo como um tipo de médico: detectado o problema/doença, vai a um profissional que saberá dizer o que está acontecendo e apresentar soluções, de modo a eliminar o problema com a maior eficácia possível.

Alguns entendimentos surgem dessa transposição direta do modelo médico para o psicológico: primeiro, que os problemas psicológicos são doenças, e devem ser eliminados de forma rápida e objetiva; segundo, que a solução para esses problemas é externa à pessoa, e está nas mãos de um profissional que conheceria o seu funcionamento mais do que ela própria; terceiro, que sendo os problemas psicológicos doenças, aqueles que não estão doentes não teriam motivos para buscar uma psicoterapia.

Todas essas idéias estão equivocadas.

A questão é que, psiquiatria à parte, não existem remédios para o comportamento. As soluções para nossos problemas do dia-a-dia não estão em pequenas cápsulas ou injeções. Ao mesmo tempo que soa óbvio, essa fantasia ainda parece existir na cabeça das pessoas quando perguntam “o que o psicólogo faz?”, ou “quando o paciente chega no seu consultório, você fala o que?”, não em tom de curiosidade ingênua, mas com leve ceticismo embutido. Se não há remédios, qual a ferramenta do psicólogo?

Um ramo profissional com o qual tenho tido mais contato ultimamente, e que me parece estar muito mais próximo da Psicologia do que a Medicina, é a Nutrição. O trabalho do nutricionista é bem diferente daquele do médico, claro. Uma pessoa com sobrepeso que chega ao nutricionista não vai ouvir nada do tipo “coma uma folha de alface duas vezes ao dia por dez dias. Se não resolver, volte aqui para falar comigo.” Ninguém busca o nutricionista por causa de uma única coisa que comeu e lhe fez mal, da mesma forma que o tratamento nutricional não consistirá em comer um ou dois alimentos algumas poucas vezes. Independente do motivo pelo qual a pessoa busca o nutricionista, este último irá trabalhar sempre com uma reeducação alimentar completa do cliente, geralmente na forma da criação de cardápios. O que entra em jogo não é uma intervenção pontual, mas uma mudança estruturada dos hábitos alimentares do cliente.

A idéia principal é: da mesma forma que os problemas (como a obesidade) originam-se não de um evento isolado, mas de hábitos que se perpetuaram e enraizaram ao longo de toda uma vida, a solução para estes problemas não acontecerá por uma intervenção única em poucos dias, mas na mudança desses hábitos.

Assim vejo o trabalho do nutricionista, e assim vejo o trabalho do psicólogo. Os ditos problemas psicológicos não são como doenças ou indigestões, são resultados de hábitos que se acumulam e produzem resultados ao longo de uma vida. Na Psicologia não estamos falando de hábitos alimentares, mas hábitos que envolvem a forma de pensar sobre as coisas, a forma de conversar, a forma de opinar, a forma de tratar os outros, a forma de tratar a si próprio, a forma de administrar o tempo livre, de administrar o trabalho, a forma de realizar as tarefas do dia-a-dia… enfim, tudo, tudo.

Sendo assim, quando as coisas começam a dar errado, quando a pessoa passa a não conseguir administrar sua própria vida, não consegue manter um contato saudável com outras pessoas, começa a sofrer pela forma como está vivendo sua vida, o processo de “cura” envolve a mudança de pelo menos alguns desses hábitos. Não há remédios. O psicoterapeuta funciona como um consultor: ele ajudará o cliente a reeducar-se, eliminar maus hábitos e construir alguns novos, melhores, novas formas de ver o mundo e lidar com ele.

A má notícia é que o trabalho mais difícil não é o do terapeuta, mas do cliente. Voltando à nossa analogia, é muito mais fácil montar um cardápio e estruturar uma dieta do que segui-la. É por esse motivo que as pessoas parecem preferir buscar um endocrinologista a um nutricionista quando querem perder peso. Tomar remédios é fácil. Mudar a dieta não é. Mudar hábitos, mudar a rotina, começar a fazer as coisas de forma diferente nunca é fácil. A essa dificuldade soma-se o fato de que as pessoas estão acostumadas a adotar uma postura passiva em um processo terapêutico. Psicoterapia não é fácil mesmo.

Como profissional, assim como em outras áreas da saúde, o psicólogo dispõe de um conhecimento teórico e técnico que lhe permite analisar e sugerir intervenções a respeito dos problemas daquele que busca seus serviços, neste caso, problemas comportamentais. Ao contrário do que se acredita, o trabalho do psicólogo não se resume a fazer perguntas e dar conselhos. Para conhecer seu objeto de estudo (o cliente), ele dispõe de testes, dinâmicas, técnicas de entrevista, técnicas de observação direta, registro comportamental, entre outras ferramentas. Sua intervenção pode consistir de exercícios (dentro ou fora da clínica) como relaxamento, visualização, interpretação e troca de papéis, treino de habilidades sociais, redação de cartas não enviadas, questionamento das crenças do cliente, enfim… não há realmente um limite. Não há receitas. O terapeuta trabalha de acordo com a demanda do cliente, e será flexível em sua forma de trabalho uma vez que o objetivo final é a melhora da qualidade de vida daquele que contrata seus serviços.

Em suma, o psicoterapeuta dispõe de um vasto arsenal técnico e teórico para ajudar o cliente a reconstruir aspectos de sua vida a partir de suas próprias demandas. Vale ressaltar que essas demandas, assim como os objetivos da terapia, são sempre estabelecidos pelo cliente. Quem busca a terapia quer modificar, melhorar ou remover algo em si, de acordo com seus próprios interesses: que seja parar de fumar, comer menos, controlar a própria preguiça, controlar a própria raiva, controlar seus gastos, tomar decisões, se focar mais no trabalho, se conhecer melhor, dormir melhor, explorar melhor seu potencial criativo, aprender a conviver melhor com os outros, etc. Terapia é para essas coisas, entre outras. Não é para “ficar normal”. Sendo assim, repito: psicoterapia não é coisa para gente louca ou doente. Também gosto de dizer que não há quem precise de terapia. Terapia é para quem quer.

Vejo que nossa cultura desvaloriza muito o psicólogo e a psicoterapia. A grande maioria das pessoas se esquivam da terapia por preconceito, por desconhecimento, e muitas vezes por pão-duragem mesmo. Me parece estranho que as gastem dinheiro com coisas como cigarro, cerveja, roupas ou festas, mas resistam em investir em algo que visa diretamente melhorar sua qualidade de vida. Fica o convite.

Autor: Nicolau Chaud

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