A prática do psicólogo na escola é reconhecida como um modo de atuação do psicólogo enquanto profissional, tendo como fins para o cumprimento de seus objetivos, um olhar diferenciado para o aluno, a família, a instituição e a sociedade.

O trabalho do psicólogo escolar deve ser apoiado em suportes psicológicos a partir de uma articulação com as vertentes educacionais, para que assim, atue no sentido de promover a disseminação de um processo educativo pautado no compromisso social.

A amplitude e o fazer do psicólogo escolar justifica-se pela pluralidade de situações, demandas e sujeitos que compõem o cenário escolar. Assim, compete a esse profissional desenvolver trabalhos de orientação vocacional e profissional com alunos; trabalhar no desenvolvimento de ações preventivas; desenvolver ações com o corpo docente sobre temas pertinentes que merecem atenção na escola; realizar trabalhos com familiares; participar da construção do projeto político pedagógico da escola, dentre outros.

Na atualidade, um novo papel desempenhado para o psicólogo escolar é o de agente de mudanças, isto é, ele deve se implicar nesse contexto a fim de funcionar como um elemento catalizador de reflexões, no sentido de propiciar uma conscientização dos papéis que compõem a instituição.

Desse modo, é necessário que seja feito um levantamento sobre a realidade institucional, posteriormente caracterizar a instituição, detectar as ideologias subjacentes da escola, para que seja feito um diagnóstico institucional e, posteriormente, o planejamento das ações. Nesse caso, vale ressaltar que o trabalho do psicólogo escolar estabelece intersecção com os fazeres organizacional e clínico.

A Construção do Enfoque no Contexto Escolar

A psicologia, assim como outras ciências humanas, nasceu sob o imperativo de uma demanda da sociedade industrial, em meados do século XIX, na Europa (JAPIASSÚ, 1995, apud SILVA, 2005).

Em sua constituição e desenvolvimento, tudo indica que a psicologia é instrumento e efeito das necessidades, geradas nessa sociedade, de selecionar, orientar, adaptar e racionalizar, visando, em última instância, a um aumento de produtividade. Nos primeiros da psicologia científica tal afirmação parece especialmente verdadeira em duas de suas áreas: a psicologia do trabalho e a psicologia escolar (Patto 1984, apud SILVA 2005).

O trabalho da psicologia baseado na pesquisa experimental e na psicometria marcaram profundamente o início da psicologia escolar no Brasil, de modo que as primeiras intervenções focalizaram a criança como objeto de estudo, que, por não se enquadrar às normas e regras, era considerada “aluno-problema”. O olhar do psicólogo via apenas a criança, que deveria ser ajustada ao contexto escolar. Com o tempo, passou a tratar também dos professores, sempre com um enfoque afetivo, visando ao aluno que, de alguma maneira, não acompanhava os demais.

De acordo com Andrada (2005), o psicólogo atuava com base num modelo clínico dentro da escola, diagnosticando e encaminhando alunos com desvios de comportamento, problemas no foco de atenção e concentração, disciplina, deficiência mental e intelectual, problemas de desestruturação familiar, dentre outras causas que justificavam o fracasso escolar, tema central do trabalho desse profissional

Ao contrário do que postula esse antigo paradigma, que limitava e distorcia a prática do profissional de psicologia, a atuação contemporânea tem a finalidade de problematizar algumas discussões focadas na Psicologia da Educação, promovendo reflexões e modelos preventivos de atuação sobre as circunstâncias emergidas no contexto escolar, assim como ampliar as possibilidades de atuação do psicólogo escolar.

Novos Modelos em Psicologia Escolar

A Psicologia Educacional/Escolar tem buscado, nos últimos anos, desmistificar o papel individualizante e psicologizante das práticas profissionais do psicólogo inserido no contexto educacional. Nesse sentido, almeja-se uma distância da práxis clínica tradicional, bem como uma aproximação de uma visão mais institucionalizada dos problemas que acontecem na escola.

Em meio a estas práticas centrais, o psicólogo escolar tenta solidificar sua atuação profissional e capacitar-se tecnicamente para atender as demandas peculiares da escola. Torna-se imprescindível, então, que ele adentre o universo dos mais variados diálogos da educação, bem como em temas específicos, a exemplo das adaptações curriculares, projetos pedagógicos e interdisciplinares, processos de aprendizagem, manejo e técnicas de grupo, dentre outras propostas de trabalho que visem a uma ressignificação de olhares sobre o aluno e à redução de rotulações e diagnósticos desprovidos de análises e observações convincentes (Andrada, 2005).

Com essa nova perspectiva, os problemas unilaterais no contexto escolar passam a ganhar diferentes conotações com maior amplitude, envolvem fatores que vão além do “aluno-problema” ou de uma visão única dos fenômenos psicológicos. Esse viés permite enxergar os problemas da escola a partir de uma ótica que leva em consideração: contexto histórico-social, cultura, escola, família, desenvolvimento infantil, mudanças hormonais e comportamentais típicas da adolescência, entre outros.

Outras críticas aos modelos tradicionais (que usam intervenções clínicas e modelos patologizantes no contexto escolar) já trazem uma visão sobre a relação entre escola e os problemas de indisciplina.

Um exemplo disso é o trabalho desenvolvido pelo Serviço de Psicologia Escolar do Instituto de Psicologia da USP. As pesquisas desenvolvidas por esse grupo apontam a “escola enquanto universo de potencialidades e realizações, mas também de deficiências no funcionamento que influem decisivamente na existência de uma legião de alunos com dificuldades na escolarização” (FRELLER et al, 2001, pág. 329).

O Trabalho do Psicólogo na Escola: um agente de mudanças

A atuação do psicólogo nos dias atuais dentro do foco educativo e de promoção de saúde tem demonstrado, na sua concretude, uma crescente preocupação com as questões ligadas à cidadania, estado de direito, exclusão escolar, entendendo que não existe uma ação “neutra” e que toda ação é sempre mediada pelas questões éticas e políticas. Esse profissional de psicologia se propõe em atuar como um agente de mudanças.

Em nosso trabalho como psicólogos escolares, nessa perspectiva de agente de mudanças, temo-nos voltado basicamente para a constituição de grupos operativos com alunos, professores e equipe técnica, no sentido de encaminhar uma reflexão crítica sobre a instituição, incluindo o processo de ensino-aprendizagem, a relação professor-aluno, as mudanças sociais que estão ocorrendo, evidenciando com isso, a defasagem cada vez maior que se estabelece entre a escola e a vida. Dessa maneira, procuramos desfocar a atenção sobre o aluno como única fonte de dificuldades, como o único responsável e culpado pela crise geral pela qual a escola passa, propiciando uma visão mais global e mais compreensiva desta crise, procurando considerar todos os seus aspectos e, conjuntamente, encontrar formas alternativas de enfrentá-la (ANDALÓ, 1984).

Desse modo, a atuação do psicólogo nas instituições educativas baseia-se na perspectivas de promover saude, devendo ser como um interlocutor atento, na postura de agentes de mudanças. Esse comportamento pressupõe relacionamento, participação, comunicabilidade, aceitação e poder de fluência.

A especificidade do psicólogo escolar se dá na articulação da atitude clínica e a sensibilidade da escuta dos processos subjetivos. Pretende-se que o psicólogo escolar, ao exercitar a atividade complexa da escuta clínica psicológica, possa reconhecer-se e capacitar-se como profissional que transita pelo complexo, desafiante e difícil espaço de circulação dos fenômenos subjetivos e intersubjetivos

Reger (1989) também afirma que, além de um profissional,

(…) o psicólogo escolar é um cientista, um engenheiro educacional ou projetista de planos educacionais que usa das mais modernas metodologias e técnicas. À medida que busca utilizar o sistema educacional tão efetivamente quanto possível para cada criança ou grupos de crianças, tem muito em comum com o administrador educacional e com o professor. Assim como os outros educadores, ele daria mais ênfase ao crescimento e desenvolvimento da criança do que à ‘patologia’. Mas diferencia-se do administrador e do professor conforme visa àaplicação mais consistente do método científico na resolução e problemas

Considerações Finais

A principal contribuição desse trabalho foi sinalizar a importância de reconhecer o papel do psicólogo escolar, a partir de suas especificidades. Desse modo, foi possível elucidar de que modo esse profissional atua, como faz e quais estratégias utiliza no cenário escolar. Ademais, é necessário o entendimento de como se construiu essa prática e como ele se molda na contemporaneidade. Nesse sentido, o trabalho do psicólogo na escola assume uma postura de agente de mudanças, isto é, deseja atuar pautando-se na promoção e prevenção da saúde, a partir de uma ação conjunta com todo o contexto escolar.  Nesse sentido, esse trabalho é relevante para aumentar o arcabouço teórico da psicologia escolar e contribuir para a construção do saber psicológico.

Autor: Alex Barbosa Sobreira de Miranda

Referências:

  • Andrada, E. (2005). Novos paradigmas na prática do psicólogo escolar. Revista Psicologia: Reflexão e Crítica, 18(2), 196-199. Disponível: http://www.scielo.br/pdf/prc/v18n2/27470.pdf.
  • ANDALO, Carmem Silvia de Arruda. O papel do psicólogo escolar. Psicol. cienc. prof.,  Brasília,  v. 4,  n. 1,   1984 .   Disponível em http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-98931984000100009&lng=pt&nrm=iso.
  • FRELLER, C. C. et al. Orientação à queixa escolar. Psicol. estud., Maringá, v. 6, n. 2, Dez.  2001. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-73722001000200018&lng=en&nrm=iso>.
  • SILVA M. C. Silvía. Psicologia Escolar e Arte. Ed. Alínea, 2005
  • Reger, R. (1989). Psicólogo escolar: educador ou clínico? Em: . H. Souza Patto (Org.). Introdução à Psicologia Escolar (pp. 9-16). São Paulo: T. A. Queiroz.

 

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