James Randi foi mágico ilusionista por muito tempo, mas ficou mundialmente famoso por ser o “homem do um milhão de dólares”. Há décadas, ele vem oferecendo essa quantia a qualquer um que possa provar, por métodos científicos, a existência de um fenômeno sobrenatural. Ele encara qualquer coisa: telepatia, adivinhação, leitura de signos astrais, poder dos cristais, etc. Desafia também os defensores de técnicas como homeopatias e florais que, embora não sejam consideradas sobrenaturais, carecem de um embasamento científico e que, aliás, vão contra o que a ciência tem descoberto. Muitos encararam o desafio de Randi. E não é surpresa que ele jamais tenha entregue seu cheque de um milhão a ninguém.

Como ilusionista, Randi aprendeu diversas maneiras de engambelar seu público. Para ele, entretanto, uma apresentação de mágica é sempre um truque declarado: as pessoas sabem que se trata de uma farsa. O problema é quando esse detalhe não é informado às pessoas. A Fundação James Randi, assim, surgiu de sua indignação contra aqueles que usam a ilusão para induzir à ignorância.

 

Homeopatia: do crédulo ao charlatão

A homeopatia é um bom exemplo. É provado que essas substâncias funcionam muito bem como placebos. Mas não passa disso. Randi, ciente desse fato, toma um frasco inteiro de soníferos homeopáticos no início de cada uma de suas palestras, para mostrar à sua plateia que o efeito das pílulas é nulo. A regra da homeopatia é: quanto mais diluído o composto ativo, mais potente é seu efeito. Para dar uma ideia do que isso significa, Randi afirma: é como derramar um frasco de sonífero no maior lago dos Estados Unidos, mexer bem o lago inteiro, tomar uma colher de água do lago e esperar que o sonífero faça efeito. O princípio é realmente bizarro. Talvez provenha de uma interpretação hiperbólica do fato de que alguns antídotos são elaborados a partir de seus venenos correspondentes (o que pode levar à conclusão errônea de que uma quantidade menor é sempre mais salutar). Em casos em que uma doença grave passa a ser tratada unicamente com placebo, esse detalhe pode definir a vida de uma pessoa.

É claro que nem todos os que propagam a ignorância são charlatões. Muitos realmente acreditam no que dizem. Em geral, são esses crédulos (talvez ingênuos) que aceitam o desafio de Randi. Um homem que dizia ver as nuances das auras humanas, por exemplo, foi posto à prova: foram colocadas cinco pessoas atrás de um biombo, numeradas, e o teste consistia em verificar se o dito paranormal poderia identificá-las por suas auras. Ele afirmava enxergar a aura dos indivíduos mesmo através do biombo, mas não foi capaz de identificar a maior parte deles. Ao final, ficou sem palavras. De certa forma, foi humilhado. Se fosse um charlatão, teria ele se proposto à verificação científica?

Talvez. Algumas pessoas estão tão pouco familiarizadas com o método científico que não imaginam o quão fácil pode ser desmentir alegações como essas. Mas a maior parte dos charlatões está ciente do perigo, e evita o teste do um milhão de dólares de Randi. O fato é que, mesmo que fosse possível levar essa gente à prova, pouca repercussão haveria da comprovação de suas fraudes, e os crédulos continuariam a lhes dar dinheiro. Por quê? Porque as pessoas, ou a maioria delas, quer acreditar no que lhe agrada mais.

Assim, James Randi parece fadado ao fracasso – pelo menos enquanto o mundo for como é. Em questões delicadas como a saúde, talvez (espero) tenha alguns progressos, como restrições e advertências a métodos de cura ineficientes. Mas isso é só uma fração da grande massa de desinformação que circula, e que é diariamente alimentada pelas pessoas.

Paixão pela ignorância

Em dado momento histórico, o ideal da ciência como grande propulsora da humanidade encheu o espírito dos grandes pensadores, e de certa forma foi transmitido às massas: surgiu a paixão pelo progresso. Essa paixão, contudo, estava fadada a se extinguir rapidamente: a ciência, sozinha, não dá significado à vida de ninguém. Logo veio a desilusão. Hoje, outra vez, o conhecimento científico é menosprezado pelo cidadão comum. A ciência é vista, via de regra, como um conjunto de informações pouco úteis à vida real, devido à sua rigidez taxada de intransigente.

Mas não é engraçado? Quantas pessoas fazem pouco caso da ciência, devendo suas vidas a ela? Mantendo-a em seu lugar – ou seja, não cometendo o erro de considerá-la o que há de mais importante na vida humana -, é preciso vê-la simplesmente como o conjunto de coisas que a espécie humana aprendeu desde o seu surgimento: informações sobre o mundo e como ele funciona, e as técnicas para facilitar nossa vida e torná-la melhor. Isso é a ciência.

Uma única constatação pode ser o bastante para salientar a importância da ciência. É a seguinte: o ser humano de hoje é geneticamente idêntico aos “homens da caverna”. O que há de diferente entre nós e os pré-históricos? É a cultura e, dentro dela, com destaque, a ciência. Só o acúmulo de conhecimentos nos permite viver melhor do que nossos ancestrais. “Anões nos ombros de gigantes”, estamos apoiados em milênios de estudos, invenções e descobertas. Apesar de todas as mazelas de nossos dias, basta ter uma breve noção histórica para se perceber que o homem nunca teve tanta liberdade e qualidade de vida. Tanta que, mesmo nos servindo da ciência diariamente, e apoiando nossas vidas nela (muitos sem o perceber), podemos sempre negá-la para acreditar em nossas fantasias prediletas. E apesar dessa ingratidão, ela continua a nos servir diariamente.

 

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