Existem diversos artigos, documentários e até um livro (“What’s the Matter with Batman”, de Robin S. Rosenberg) que abordam o psicológico de Batman. Esse é um apanhado geral e resumido de alguns desses citados.

Batman é um herói que surgiu pela dor de uma perda. Vitimado pelo trauma de assistir seus pais serem assassinados por um assaltante quando tinha apenas oito anos de idade, o jovem Bruce nunca se recuperou. Ao contrário do que se poderia esperar, de acordo com as teorias freudianas, o trabalho de luto de Bruce Wayne nunca se extinguiu e, talvez por uma predisposição patológica, acabou envolvendo-o em uma eterna melancolia.

Sua libido só encontrará alivio na vingança contra os tipos criminosos, que são o “objeto” gerador de perda e da sua angustia. Batman é um dos heróis mais atormentados da DC, Bruce Wayne vem de uma avalanche de traumas em sua história, deixando como sequela alguns possíveis transtornos durante sua vida dos quais podemos citar: pânico, paranoia, distimia, obsessão e estresse pós-traumático.

O que faz com que o público se identifique tão facilmente com Batman?

É o lado humano dele, de que ele, em teoria, poderia realmente existir. Ele não veio de outro planeta, não sofreu mutação genética, não possui nenhum superpoder, a não ser a sua inteligência acima da média. Além do seu intelecto, suas outras qualificações para se tornar um herói foram seu treinamento físico extremo, algo que uma pessoa com dedicação e disciplina poderia alcançar, e seus “apetrechos” tecnológicos, algo que um bilionário poderia facilmente financiar, em sua maioria.

Thomas Edison já dizia que talento é 1% inspiração e 99% transpiração. Assim, geralmente mais vale uma habilidade “normal” bem desenvolvida que uma capacidade acima da média que não é trabalhada.

Despido do seu arsenal, Batman é um homem normal, cheio de traumas, alguém que teria todos os motivos para não se importar com os problemas do mundo, mas que decide usar do seu dinheiro, inteligência e dedicação incansável para buscar justiça.

Além disso, seus vilões na grande maioria são também homens comuns, alguns com traumas, e que deixaram a loucura tomar o controle de suas vidas. Bruce também vive as margens do bem e do mal, porém sua dedicação e autocontrole o impedem de se tornar um vilão ou um vigilante sanguinário, pois apesar de ser violento em determinados momentos, Batman nunca mata seus inimigos, sempre os entrega a justiça para que sejam julgados por seus crimes.

Tanto é possível para alguém “normal” ser como Bruce Wayne, que temos na historia dos EUA alguém semelhante em partes.  Theodore Roosevelt foi o 26º presidente dos EUA e primeira pessoa de seu país a vencer o prêmio Nobel da Paz. O ex-presidente possui um paralelo muito interessante com o Homem-Morcego.

Assim como Thomas Wayne, pai de Bruce, Roosevelt Sr. pai de Teddy era uma espécie de filantropo e humanitário para os menos favorecidos do lugar. Aliás, tanto Bruce quanto Teddy tinham uma grande admiração pelos seus respectivos pais. A educação dos dois personagens também foi parecida. Enquanto Bruce vagou pelo mundo enquanto jovem, aprendendo formas de levar justiça a sua cidade, Roosevelt passou sua adolescência estudando pela Europa e Oriente Médio, aprendendo desde como remar e caçar animais até técnicas de luta, como o boxe.

Ted Roosevelt perdeu ao mesmo tempo sua primeira esposa, Alice, e sua mãe, Martha. Para piorar a situação, Alice morreu dando a luz a primeira e única filha do casal, sendo que nessa data, seu pai já havia falecido há pouco tempo. Foi um golpe tão devastador para Roosevelt que reza a lenda, seguiu até o Parque Nacional de Dakota com a intenção de se matar. Mas nesse instante, algo ocorreu que fez sua vida mudar de direção. Com os contatos políticos que tinha e a importância econômica de seus negócios, Roosevelt se tornou Comissário de Polícia em 1895. No cargo, reformou drasticamente a estrutura policial, até então muito corrupta. Além disso, sua vontade irrepreensível de fazer de sua cidade um lugar melhor, o levou a “dar o exemplo”, combatendo o crime durante a noite com um porrete e sua bicicleta, como uma espécie de Homem Morcego do final do século XIX.

 

Batman ou Bruce Wayne?

Qual é a identidade, a personalidade real? Quem é o verdadeiro e quem é o Alter ego?
Qual das duas vidas é a real? A de playboy bilionário ou a de justiceiro noturno?

No começo do século 20 o psicólogo suíço Carl Jung explorou a ligação entre a mente consciente e inconsciente. Jung acreditava que em todos nós acontece uma luta entre um ser sociável e aceitável. Algo que Jung chamou: o lado sombrio. Batman é a personificação do lado sombrio. Ele parece com o mal que combate, como se fosse um vilão, um anti-herói.

Batman tem a iconografia do mal. Nas pinturas medievais sobre demônios, por exemplo, geralmente tem chifres e asas de morcego. Os morcegos em todas as culturas (exceto a chinesa) são símbolos do mal, do lado negro, da morte, do diabo. E isso nos fascina. As pessoas sempre foram fascinadas pelo mal. Alguns psicólogos acreditam que isso ocorre porque o mal é uma parte inerente de todos nós e em parte desejamos consciente ou inconscientemente que nosso lado sombrio materializa-se, ganhando vida como o Batman.

“Ou você morre como herói, ou vive o bastante para se tornar um vilão.” (Harvey Dent, o “Duas Caras”)

“Quando você olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você.” (Friedrich Nietzsche)

De fato é nas sombras que Bruce se sente mais à vontade, é dela que emerge o justiceiro apaixonado pela solidão que transformou seus medos em símbolo a ser usado como arma. Batman não tem medo de nada, a não ser dele mesmo – Bruce –, medo que um dia ele possa se tornar aquilo que ele caça. O que o diferencia de seus inimigos é apenas um apego a um ideal elevado. E não somos todos nós assim?

“Não há nada a temer, a não ser seu próprio medo” (Dr. Jonathan Crane, o “Espantalho”)

Respondendo à pergunta de qual seria o verdadeiro “eu”, acredito que Bruce seja apenas seu alter ego, uma personalidade de playboy milionário que foi construída, por conselhos de Alfred como forma de ter uma “vida”. Mas é quando Bruce está agindo como Batman que ele sente-se mais à vontade e é para onde apontam todas as suas escolhas e paixões que o tornam um justiceiro solitário. Porém uma “personalidade” não existe sem a outra, Batman foi criado para lidar com as dores do Bruce, e o “novo” Bruce é um forma de alivio necessário ao atormentado Batman.

A construção do Mito

Ainda criança, com seis anos, Bruce caiu num poço onde habitava uma ninhada de morcegos, fato este que gerou uma grave quiroptofobia, que durante a vida inteira lhe acometeu de insônia e terríveis pesadelos com esses mamíferos. Podemos encontrar aqui a ausência de sono, e as psicoses alucinatórias carregadas de desejo do melancólico, de que falava Freud em seu Luto e Melancolia. Após sofrer seu grande trauma, a morte dos pais, ele promete a si mesmo que faria de tudo para o que aconteceu a ele não acontecesse a mais ninguém. Mas, para isso, ele não poderia mais ter medo, teria que ser ainda mais assustador que os próprios criminosos que combatia, e isso só seria possível a ele sob nada mais que o signo do morcego. O que era a coisa mais assustadora do mundo para ele, seria também para seus algozes, ao mesmo tempo em que serviria de exorcismo ao seu próprio medo.

Ao querer impedir que as outras pessoas passem pelo que ele passou, Batman reconhece que todo ser sofre (ou mais precisamente, tem potencial para o sofrimento), e toma como sua a miséria do mundo. Porém o desejo de Bruce Wayne em livrar o mundo do mau é nada mais, nada menos, que uma impossibilidade, e isso gerará nele a obsessão, e consequentemente sua melancolia e sofrimento eterno.

Recomendo, além da trilogia de Christopher Nolan do Cavaleiro das Treva por nos mostrar  a construção do Batman de uma forma perfeita, o atual seriado Gothan (disponível na Netflix) que está se desenvolvendo. Nele é possível ver um pouco da evolução da personalidade do Jovem Bruce que não é mostrada nos filmes.

Qualidade do Homem Morcego que podemos levar de bom para nossa vida.

1 – Motivação

Ninguém se motiva a fazer algo em que não acredita, em que não veja significado. Batman tem uma visão do que poderia fazer para construir algo melhor, e sua motivação provém da crença nesse objetivo.

2 – Vontade de aprender

A vontade de aprender é um requisito básico para qualquer pessoa. A busca incessante de novos conhecimentos se adaptando às novas condições do ambiente, uma vez que a tecnologia de hoje poderá estar ultrapassada em pouco tempo.

3 – Determinação

Determinação faz nosso herói manter o foco e superar as dificuldades e desafios que aparecem. O personagem é capaz de lidar com as dificuldades e pressões do ambiente sem se deixar abater. O herói do filme aguenta a pressão e absorve as forças contrárias “sem quebrar”. Uma frase do segundo longa da trilogia de Nolan serve de exemplo, ela  é dita no final do filme, quando Batman se dirige ao comissário dizendo que o mesmo deve culpá-lo dos problemas e persegui-lo, pois: “eu posso aguentar e é disso que Gotham City precisa”.

4 – Disciplina

As atividades rotineiras são uma maneira de alcançar resultados e não devem ser tratadas como tortura ou sacrifício. As pessoas disciplinadas não estão focadas no sacrifício da prática, mas na excelência, no resultado que irão alcançar através da melhoria contínua.

5 – Saber ouvir

Batman costuma dar ouvidos às dicas de seu fiel mordomo, Alfred. Buscar orientação, com um profissional ou com outras pessoas não é um sinal de fraqueza. Ninguém sabe tudo ou consegue resolver qualquer problema sozinho. Até os super-heróis podem precisar de ajuda – o próprio homem-morcego contou, durante muito tempo, com a parceria de Robin na luta contra as adversidades.

A superação de obstáculos na busca pelo aperfeiçoamento, característica marcante do homem-morcego, sustenta-se em valores e crenças muito fortes. O segredo da disciplina do personagem, que pode nos servir de guia no cotidiano profissional, é ele ter uma visão dos objetivos que quer alcançar. Outra lição aprendida com as aventuras do Batman é a de fazer bom proveito de uma oportunidade. Bruce Wayne decidiu lutar pela justiça depois de ter presenciado o assassinato dos pais quando criança. Foi o mobilizador de sua resiliência. Ele poderia ter se acomodado, já que era rico, e adotado a postura de que o mundo se explodisse. Mas, em vez disso, aproveitou os recursos financeiros para perseguir um ideal.

 Autoconhecimento

Ninguém nasce sabendo tudo ou forte o bastante para mudar o mundo, em geral as pessoas são naturalmente mais aptas para esta ou aquela atividade. Assim, descobrir os campos de atuação em que pode sair-se melhor é um dos fatores principais para não se deixar abater pelo vilão da infelicidade profissional.

Batman não utiliza armas de fogo, pois, como foram o meio usado na morte de seus pais, traumatizou-se com elas. Dificilmente se tornaria um exímio atirador, e o tempo que dispenderia para corrigir uma fraqueza certamente foi mais bem empregado para potencializar suas qualidades.

O autoconhecimento é primordial. É preciso olhar para si mesmo e perguntar: quais são os meus superpoderes?

 

Se você tem uma opinião diferente ou contribuições, deixe seu comentário.

 

Se você quer saber mais, existe no youtube um documentário chamado (Batman Desmascarado – A Psicologia do Cavaleiro das Trevas), vou deixar o link aqui para quem tiver interesse em assistir.

 

 

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Coordenador de TI e Psicólogo. Resolveu estudar psicologia porque queria entender melhor a mente das pessoas, e embora tenha se decepcionado um pouco com algumas coisas que apreendeu ainda acredita no poder de amar e evoluir do ser humano. Idealizador do Pensamento Líquido. Apaixonado por filmes de terror, seriados, anime e mangás e livros de aventura. Não dispensa uma boa comida e bebida na companhia de amigos, especialmente se for pra curtir um bom e velho rock n roll. Para saber mais sobre mim… compre um vinho, pegue um ônibus e venha até a minha casa filosofar sobre a vida.

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