A Psicanálise No Contexto Hospitalar

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Ao longo dos séculos constatou-se que a medicina não era suficiente para responder sozinha as muitas formas de manifestação do corpo humanos. O olhar dos médicos deixava escapar algo que não se apresentava para ser curado e sim para ser acolhido. A psicanálise neste contexto oferece o que tem de mais valioso: a escuta.

Alberti (2000, p.49) invoca o pensamento lacaniano que caracterizou a psicanálise como A última flor da medicina para dizer que, em um determinado momento, a medicina observou que não podia tratar tudo. Lacan identifica a psicanálise como o lugar onde a medicina podia encontrar refúgio, já que ela teve que se deparar com o fato de que haviam sintomas que não tinham nada a ver com o corpo, mas com o fato de o sujeito ser afligido pela linguagem.

É justamente com a presença da psicanálise no hospital que se possibilita olhar o corpo doente de forma mais subjetiva, reconhecendo que o sintoma pode ser uma pista de que há algo que não consegue ser enunciado de outra forma.

Ainda nos dias de hoje a psicanálise encontra certa dificuldade de estabelecer uma elaboração teórico-prática que seja rigorosa fora do chamado setting terapêutico tradicional, constituído de sala, divãs, móveis, etc.

Nota-se que o espaço hospitalar proporciona ao analista um campo para o progresso de seus saberes. Neste campo, mais crítico pela urgência que se apresenta, sua complexidade é ainda maior em função da possibilidade de morte, dor, sofrimentos diversos, altas imprevistas, situações que requerem do psicanalista, ali atuante, inovação e adaptação que levem em conta o lugar em que estão acontecendo as intervenções. Alberti (2000) propõe um aproveitamento deste ambiente onde tratamento e pesquisa se encontram, além de um aprofundamento teórico permanente por parte do analista.

A indagação sobre o enquadramento ou local de trabalho traz consigo uma bateria de interrogações. Figueiredo (1997, p.112) recomenda que, independente do local, a fala do paciente seja mantida e valorizada, usando a escuta como o principal recurso terapêutico. Neste sentido, o setting não é tratado como um espaço real, pois é ele virtual, ele é psíquico, é uma construção para que a análise aconteça. Diante da ruptura no enquadramento, a psicanálise assume uma postura engenhosa e criativa, reconhecendo que o local de atendimento será onde o paciente estiver. Isso porque o ambiente, o horário e a duração do atendimento são ressignificados quando afetados por uma  clínica que  inclui o  inconsciente.  Preconiza-se que o  inconsciente é atemporal e

que seu funcionamento é a posteriori. Quanto a isso, Moura (2000) corrobora que a partir do momento em que o lugar do analista não é definido pelo espaço físico, mas por aquilo que é sua função, ele é autorizado a sair do enquadre tradicional. Segundo ela, a construção da função do analista depende fundamentalmente da implicação dele com a psicanálise e com seu desejo.

Outra dimensão importante no hospital refere-se ao trabalho em equipe. Tal capacidade faz parte do ofício no hospital e vai exigir do analista uma certa dose de destituição narcísica. Freud (1912, p.128) recomenda que o sentimento mais perigoso para um psicanalista é a ambição de alcançar algo que produza efeito convincente sobre outras pessoas, pois isso o coloca num estado de espírito desfavorável para o trabalho, além de torná-lo impotente contra certas resistências do paciente. Recomenda-se, também, que o analista invista em seu processo de análise pessoal, já que ele também é constantemente implicado em seu mundo psíquico.

Após dar entrada em uma instituição hospitalar, o paciente é absorvido por ela, que assume o controle por praticamente todos os aspectos de sua vida. Além da perda  de controle, os pacientes passam por um fenômeno conhecido como despersonalização, nele o sujeito se torna apenas mais um doente, perde completamente sua identidade e subjetividade. Os hospitais são preparados para receber um paciente que seja submisso às regras, mas constantemente isso não acontece, então o hospital solicita respostas, pareceres, diagnósticos e modelos de conduta. A resposta a estes chamados se torna  uma oportunidade de mostrar o que a psicanálise pode promover neste espaço, pois esta não trabalha com a noção de cura, nem tem como pretensão consolar o sujeito.

A presença da psicanálise em hospitais ainda suscita muitas questões. Simonetti (2011, p.17) propõe pensar a psicologia hospitalar a partir dos conceitos da psicanálise. Ele sugere que a psicologia hospitalar encontra suas origens na psicanálise e na psicossomática [01] : “Ao que parece, a psicologia hospitalar, que nasceu da  psicossomática e da psicanálise, vem atualmente ampliando seu campo conceitual e sua prática clínica, com isso criando uma identidade própria e diferente”.

Então, sobre a experiência do adoecer, Freud em Sobre o narcisismo: uma introdução, salienta:

É do conhecimento de todos, e eu o aceito como coisa natural, que uma pessoa atormentada por dor e mal estar orgânico deixa de se interessar pelas coisas do mundo externo, na medida em que não dizem respeito a seu sofrimento. Uma observação mais detida nos ensina que ela também retira o interesse libidinal de seus objetos amorosos: enquanto sofre, deixa de amar. (…) Devemos então dizer: o homem enfermo retira suas catexias libidinais  de volta para seu próprio ego, e as põe para fora novamente quando se recupera. (FREUD, 1914, p. 98)

Dessa forma, vamos percebendo que a função da psicanálise no hospital é recolocar a demanda de tratamento, de forma a que o sujeito possa vir a se engajar nele, fazendo assim que ocorra fala por parte do paciente e escuta por parte do analista. Outra indagação bastante frequente se refere a duração do tratamento, visto que isso é uma questão difícil de mensurar. Recorro novamente a Freud. Quando perguntado por um paciente quanto tempo duraria o tratamento, ele propôs um tratamento experimental de duas semanas, evitando fornecer uma resposta direta a esta pergunta, não por desejar abster-se, mas por reconhecer que precisa saber a amplitude do passo do caminhante antes de poder informar quanto tempo durará a viagem. Segundo Freud (1913, p.144), a pergunta relativa à duração provável de um tratamento é quase irrespondível,  isso porque o inconsciente é atemporal.

Machado e Chatelard (2013, p.139) asseguram que o trabalho do psicanalista no hospital visa sustentar um lugar para o endereçamento das questões do sujeito, sendo que o que se oferece é um lugar vazio onde pode surgir o desejo. Neste sentido entendemos que para o analista desenvolver seu trabalho no contexto hospitalar, necessariamente precisa formalizar sua prática. Indo mais além, as autoras indicam que o trabalho analítico está em ater-se as produções da fala do sujeito, pois, de acordo com Freud, a fala é imprescindível para fazer com que o paciente relance seu discurso, afinal fazer falar é uma condição da escuta e é pela escuta que a fala se constitui (ibidem).

Como vimos, no hospital o analista encontra certas variáveis que não são  comuns no consultório. Ele encara situações imprevistas, mas que ao mesmo tempo convocam seu trabalho.

Entre essas situações, podemos citar:

Por exemplo, pode acontecer de o analista estar atendendo um paciente e um médico chegar para examiná-lo. Dependendo da gravidade do caso, às vezes, é preciso que o analista interrompa o atendimento justamente num momento importante do processo analítico. Pode acontecer também que o  analista esteja atendendo um familiar no momento em que o paciente falece,  ali, na  sua frente. Ou ainda, que o psicanalista seja abordado, nas escadarias do hospital, pela equipe da enfermagem para atender um familiar que está  “aos berros” no corredor, pois o paciente acabou de sofrer uma parada cardíaca e o familiar precisou sair do quarto para que ele fosse atendido (MACHADO E CHATELARD, 2013, p.148).

Tais circunstâncias apontam os desafios do psicanalista ao lidar com as particularidades do trabalho no hospital. No entanto, basta lembrar da lição de Freud ao afirmar que a psicanálise aplicada se sustenta a partir da psicanálise pura.

A teoria psicanalítica apoia-se no inconsciente e tem a análise pessoal como condição para exercer a psicanálise. A formação do analista se baseia no tripé da análise pessoal, estudo teórico e supervisão clínica. Em A questão da análise leiga  (1926), Freud declara que enquanto vivesse tentaria impedir que a psicanálise fosse engolida pela medicina, ressaltando que não recomendava formação médica para o exercício da psicanálise. Freud defende que a atividade psicanalítica deve seguir independente da medicina por ser uma ciência autônoma que possui teoria e prática próprias.

Afinal, qual é o lugar do psicanalista no hospital? Vimos que este lugar não é alcançado apenas através de livros e estudos, apesar de serem essenciais para a construção do saber. Já vimos os riscos que um psicanalista está exposto quando se insere em um local fixado por um discurso que visa restaurar a saúde perdida. Ele pode levar a psicanálise a se diluir entre tratamentos que proponham exclusivamente a cura orgânica do paciente.

Machado (ibidem) conclui que é a partir da trajetória de analisando a analista, através de idas e vindas, que o psicanalista pode alcançar os pontos importantes do trabalho no hospital.

Machado (2011) determina que o lugar do psicanalista no hospital pode ser abordado a partir de duas dimensões que não se excluem e, ao mesmo tempo, se articulam. A dimensão clínica psicanalítica e a dimensão institucional. A primeira se refere a ética, ao discurso e as especificidades da psicanálise. A segunda dimensão diz respeito ao hospital com as variáveis institucionais, espaço físico, obstáculos, equipe e situações de urgência. Desta maneira, estamos lidando com duas dimensões que se articulam. Portanto, enfatizamos que o lugar ocupado pelo psicanalista no hospital é entre a dimensão clínica e a dimensão institucional.

Por fim, recomenda-se que não é o bastante saber de alguns conceitos da psicanálise. Esta técnica não será aprendida sem que haja dedicação, afeto e tempo, além disso, não pode ser aprendida apenas nos livros. A prática da psicanálise nunca estará sozinha, sempre estará alinhada à teoria e a análise pessoal.

Considerações Finais

Em vista do que foi exposto, entende-se que o analista lida com o sintoma de forma peculiar, levando em consideração que o paciente possua uma certa verdade não sabida sobre si e reconhecendo que o sintoma é uma pista que merece ser seguida. Um dos trabalhos analíticos consiste em interpretar o sintoma, tal como se interpreta outras vias do inconsciente, como sonhos, atos falhos e chistes).

Por desejar um paciente passivo, a instituição hospitalar despersonifica o sujeito de forma tão completa que ele tem suas dúvidas e questões desconsideradas pela equipe, o que o leva a um estado de ansiedade e desamparo.

Em relação a demanda, identifica-se que ela pode partir do hospital, da família ou do paciente. No entanto, deve ser acolhida e examinada, antes de ser respondida. Conclui-se que o lugar do psicanalista nos hospitais se encontra entre a dimensão clínica e a dimensão institucional. É precisamente na articulação desses dois dispositivos que o discurso da psicanálise pode entrar e favorecer o sujeito no  momento oportuno.

No contexto hospitalar encontramos vastas possibilidades para o trabalho psicanalítico, é perfeitamente viável sustentá-lo no hospital, desde que o analista elabore uma prática flexível e criativa, sem se separar da psicanálise pura e identificando que o local de atendimento é onde o paciente está.

Observa-se que o contexto hospitalar, por sua história, função e particularidades, torna-se como um excelente lugar para que a psicanálise se estabeleça, ofereça sua escuta e contribua para o fortalecimento do sujeito. Assim, apostamos que o desafio do psicanalista no contexto hospitalar é trabalhar para que haja análise apostando que ela é para todos.

Autor: Priscila de Jesus Viana

O artigo completo pode ser lido em:  https://psicologado.com/atuacao/psicologia-hospitalar/a-psicanalise-no-contexto-hospitalar

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