Ninguém gosta de ser chamado de infantil, ou de imaturo. É algo vergonhoso ser associado a uma criança, já desde o início da adolescência. Queremos ser levados a sério, e ter a autonomia de um adulto. Mas sem as responsabilidades e as consequências – é claro.

Escutamos cada vez mais sobre a adolescência estendida, ou prolongada, e sobre a reputação pouco madura da geração y (os millennials). Será que nossa espécie está mudando? Ou será culpa de nossa sociedade indulgente?

Uma simbologia que traduz a realidade

Você já deve ter ouvido falar da “síndrome” de Peter Pan. Não quero falar aqui do livro que leva esse nome, de Dan Kiley, mas sim da análise do professor Jordan Peterson, que analisa os diversos elementos da história de Peter Pan e desvenda suas simbologias.

Peter Pan é o menino que não quer crescer. Ele é uma figura mágica, como a própria infância. Sua capacidade de voar é a mais clara representação da liberdade – ou, para sermos mais objetivos, da ausência de responsabilidade. A liberdade, para Pan, não é uma questão política, mas sim social, moral: como toda criança, ele não precisa arcar inteiramente com as consequências de suas ações, e há sempre um filtro mágico (a proteção prestada por terceiros) entre ele e a realidade, salvaguardando-o do mundo real.

Pã, na mitologia greco-romana, é o deus de tudo: simboliza não só a natureza, mais o próprio universo (o próprio radical pan, do grego, significa “tudo”). Já Peter Pan, como toda criança, é puro potencial: ao crescer, pode se tornar qualquer coisa. Porém, ao se manter eternamente como a potencialidade de tudo, o ser humano pode acabar não se tornando nada.

O adulto, em Peter Pan, é simbolizado principalmente por Capitão Gancho. Ele não é apenas o vilão. Apresenta-se como uma figura detestável, perseguindo Peter como a vida adulta persegue a criança em crescimento.

Gancho teve sua mão devorada pelo crocodilo Tique-Taque. Ao engolir o bocado arrancado junto a um relógio, que passa a tiquetaquear eternamente em sua barriga, o crocodilo torna-se uma maravilhosa metáfora para o tempo. Isso porque o tempo é como um predador que a tudo devora e arruína, causando o envelhecimento e a decadência. Outra vez podemos lembrar da mitologia greco-romana, onde Cronos (Saturno), deus do tempo, é um titã que devora seus próprios filhos. Já o crocodilo Tique-Taque, em Peter Pan, persegue Gancho para terminar de devorá-lo, lembrando-o, com o som do relógio, que seu fim é só uma questão de tempo.

Não é surpresa que Peter Pan não queira se transformar em um adulto. Ao deixar a proteção mágica dos pais e da família, o indivíduo precisa defender a si mesmo, lutar por sua própria sobrevivência em um mundo hostil. Precisa, como Gancho, torna-se um tirano: batalhar por seus próprio interesses, impor limites ao redor para se proteger – atitudes associadas ao conservadorismo que a juventude abomina mas que, ironicamente, são essenciais para sua existência. Peter Pan pode evitar a maturação, mas não as más consequências dessa fuga.

Assim como no caso dos adultos imaturos (ou semiadultos), só o que resta a Pan é tornar-se o Rei dos Meninos Perdidos – um título divertido, mas de que ninguém se orgulharia. Pan torna-se, em outras palavras, o rei dos fracassados. Em uma visão romantizada, suas lutas contra Gancho podem parecer heroicas. No mundo real, porém, o adulto Peter Pan é incapaz de lidar ou competir com outros adultos par a par, e muitas vezes recorre à culpabilização de terceiros ou a táticas de vitimização para conquistar objetivos (como um criança que, ao não ter o que quer, começa a chorar – como estratégia instintiva). Não é à toa que demandem tratamento especial, sentindo-se no direito de exigi-lo (como uma criança mimada). Mas como adultos, precisam encontrar justificativas racionais para suas ações – e facilmente as encontram.

Além disso, Peter não pode viver um relacionamento não-infantilizado com Wendy. Naturalmente, não é surpresa que Wendy se divirta com ele: Peter vive buscando diversão e liberdade, e em nível superficial é uma figura atrativa. No entanto, Wendy é como a pessoa adulta que busca um companheiro em que possa confiar (o que implica em comprometimentos e responsabilidades que Pan tentará evitar com a própria vida). Parece familiar?

Pan é um ser sexual, assim como o deus Pã, que é comumente representado como um fauno pervertido (às vezes com uma ereção indisfarçável). Tanto no romance de J. M. Barrie quanto no filme da Disney, não seria apropriado que houvesse referências claras à sexualidade – mas não é muito difícil perceber a analogia ao observarmos Sininho. Nas palavras de Peterson, Sininho é como a “fada da pornografia”. Ela representa a sexualidade imatura: não é algo real, ou tangível. É um substituto.

O próprio mundo onde Peter Pan vive é irreal. A Terra do Nunca simboliza o paraíso das ilusões. Isso porque o adulto Peter Pan recusa-se a viver na realidade, como vimos. No entanto, não lhe é de fato possível viver fora da realidade: não importa onde sua mente esteja, sua existência continua dependendo do mundo real, e a proteção e os privilégios mágicos de que dispõem são certamente garantidos por terceiros (que não têm escolha senão viver no mundo real, de certa maneira servindo-o e sustentando-o em sua “esquizofrenia”).

A adolescência está sendo prolongada?

Depende do que se entende por “adolescência”. Por definição, ela é um período de desenvolvimento biológico, biopsíquico e social. No entanto, se considerarmos apenas os fatores biológicos e biopsíquicos, sua duração estende-se somente até os 18 anos. O desenvolvimento social pode ou não acompanhar o biológico.

É como ter um computador funcional com o hardware preparado (fator biológico) e todos os softwares instalados (o fator biopsíquico), mas não usar a tecnologia que está disponível. Não trata-se de incapacidade, mas de desleixo.

Evidentemente, o filhote não quer perder o conforto e a segurança do ninho. Como Peter Pan, ser autossuficiente e arcar com responsabilidades é algo que todo indivíduo tentará evitar (pelo menos a princípio). No entanto, assim como ocorre com os pássaros, é preciso que os filhotes sejam empurrados para o desconforto para que aprendam a voar, ou nunca irão se desenvolver. E não se engane: as estruturas de proteção mágica contra a realidade podem estar muito além da família: podem vir do próprio Estado; das universidades inclusive. Os pais superprotetores (assim como sociedades e Estados superprotetores) não preparam seus filhos para o mundo real e, talvez por amor e por zelo, com justificações nobres, negam-lhes o pleno desenvolvimento.

O crocodilo Tique-Taque não perdoa.

 

 

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