Sobre Perdas, a Morte, o Morrer e o Desejar Morrer.

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Esse é um texto que escrevi a algum tempo já. Resolvi aproveitar a insônia da madrugada para escrever sobre esse tema que é um tanto quanto… digamos, cercado de tabus e incertezas, e embora o tema seja um tanto quanto complexo tentarei não me alongar muito.

Inicialmente nos reportaremos a mitologia grega, que tinha como personificação da morte Thanatus ou Tânato, irmão gêmeo de Hipnos, o deus do sono (o qual me falta no momento), ambos filhos de Nix e Érubus – a noite e a escuridão. Thanatus era representado por uma figura com o rosto desfeito e emagrecido, coberto por um véu, os olhos fechados e com uma foice na mão. Além da foice, asas e um facho em queda, uma urna e uma borboleta. As asas indicariam a velocidade com que se aproxima dos mortais. O facho em queda indicam a extinção de uma etapa de realizações. A urna representa tanto o segredo de pós-morte quanto o corpo, resíduo da vida e a borboleta, a alma

O sentido da morte pode, é, foi e será diferente para cada cultura e para cada época. As pessoas buscam na fé uma forma de aliviar a dor da perda, uma explicação “racional” para acreditarem que existe um porque para tudo.

Será que somos mesmo portadores de alma, de uma vida espiritual que sobreviverá após o falecimento do nosso corpo físico? Não seriamos apenas nós animais, “peças” cujo tempo de vida tem um prazo pré-determinado e ponto?

Não seriamos nós como velas, queimando nossa existência até se esgotar, ou como lâmpadas que brilham intensamente durante um período para então depois se apagar e nunca mais voltar a funcionar, tendo seu corpo descartado?

Obviamente é mais reconfortante e menos doloroso acreditar que existe um algo a mais, que existe um lugar para onde nossas almas irão seguir após a morte de nosso corpo físico. Pensar em morte é algo que nos causa calafrios, é algo que normalmente evitamos fazer. Quando tais pensamentos surgem, tentamos dissipá-los rapidamente pensado em algo “melhor”.

Porém muitas pessoas em determinada fase da vida, já pensaram muito sobre a morte. Quantas pessoas já não quiseram se entregar ao frio abraço da morte? Eu inclusive já vivenciei esse sentimento no passado. Já dizia Humberto Gessinger em uma música: “todo suicida acredita na vida depois da morte”. Essa é a crença de alguém que pensa em tirar sua vida, “partir dessa para melhor”, livrar-se dos problemas e ficar em paz.

Muitas vezes somos pegos em situações que fogem a nosso próprio controle. Sim… eu falo da “tal” depressão. A depressão nos envolve em um quadro se sintomas e sentimentos que não nos deixam pensar com clareza, por isso não adianta você falar para essa pessoa que ela tem se ajudar, que isso vai passar, que existe gente pior… nada disso vai melhorar a situação dela.

A bem da verdade, não é a morte que essas pessoas desejam, não é o sentimento de morrer, mas sim o desejo que a dor desapareça, e o único meio mais “lógico” que a pessoa encontra no momento, é o cessar da vida.

A todo instante desde que nascemos estamos sujeitos a perdas. O próprio ato de nascer é a nossa primeira perda, estamos perdendo a segurança do ventre da nossa mãe e adentrando em um mundo totalmente diferente que nos causa dor, e como ocorre em toda perda, passamos por um processo de luto. Elisabeth Kübler-Ross, descreveu e categorizou as fases do luto em 5 etapas:  negação; raiva; barganha; depressão; aceitação. Algumas fases podem ser puladas ou a pessoa pode voltar a uma fase anterior, mas somente após ter passado pelo estágio da aceitação é que o indivíduo vai aceitar a sua condição e passar a entender todo o processo e as fases anteriores como naturais. A forma e a rapidez com que vamos passar por esse processo de “enlutamento” é que vão determinar a forma como lidares com todas as perdas que terei na vida. (não irei me alongar nessas fases, quem quiser saber mais, a internet está repleta de informações a respeito das 5 fases do luto)

Porque alguns de nós conseguem enfrentar as dificuldades/perdas de forma mais tranquila enquanto outros simplesmente não conseguem??

Porque somos indivíduos únicos, cada um com uma forma de pensar e enxergar a vida. Mesmo irmãos gêmeos criados sob o mesmo teto apresentam forma diferente de pensar e encarar a vida. Por exemplo, uma criança quando perde um brinquedo passa por um processo de luto, algumas podem chorar apenas algumas horas, outros podem chorar por dias, enquanto outros podem nem dar importância. Essa é a forma como vamos agir com nossas perdas quando adultos.

* Obs, quando damos logo um novo brinquedo para a criança parar de chorar, estamos negando a ela que esse processo de luto ocorra. Por isso muitas pessoas acabam tendo enorme dificuldade em lidar com as perdas, porque passaram a vida inteira sendo privadas de sentir dor.

Cada pessoa vai vivenciar a dor de uma forma e com uma intensidade própria, não sabemos o quanto algo pode ser doloroso pra alguém, por isso não se deve banalizar a dor do outro. Mesmo porque na maioria das vezes as pessoas que nos cercam nem fazem ideia do que está se passando.

E como lidar com esse sentimento de morte tão forte que nos invade?

Auto-conhecimento através de Terapia e em casos graves com a ajuda de psicofármacos. Nem sempre é fácil, na verdade eu diria que nunca é um processo fácil, muitas vezes é uma batalha que pode durar anos, e em alguns casos a vida toda, pois não é fácil você mudar a forma de pensar e agir que já vem praticando a tantos anos.

Não existem formulas mágicas que vão mudar em uma semana a forma de pensar que você tem usado a… 20, 30, 40 anos.

Porém através da terapia é possível você “treinar” seu cérebro para identificar esses pensamentos e a partir dai tomar providencias para que eles não tomem conta da sua vida, nem da sua vontade de viver. Digo isso porque embora  frequentemente meu Dark Side (lado negro) invada minha mente com pensamentos obscuros, eu aprendi a canalizar eles de outra forma sem que causem maior estrago, por assim dizer.

Ninguém morre, as pessoas despertam do sonho da vida – Raul Seixas.

 

Autor: Leandro Zanon

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Coordenador de TI e Psicólogo. Resolveu estudar psicologia porque queria entender melhor a mente das pessoas, e embora tenha se decepcionado um pouco com algumas coisas que apreendeu ainda acredita no poder de amar e evoluir do ser humano. Idealizador do Pensamento Líquido. Apaixonado por filmes de terror, seriados, anime e mangás e livros de aventura. Não dispensa uma boa comida e bebida na companhia de amigos, especialmente se for pra curtir um bom e velho rock n roll. Para saber mais sobre mim... compre um vinho, pegue um ônibus e venha até a minha casa filosofar sobre a vida.

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