Suicídio e Transtornos Psicológicos – Atenção aos 4 D: Depressão, Desesperança, Desamparo e Desespero

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As pesquisas referenciam que a maioria das pessoas com idéias de morte comunica seus pensamentos e intenções suicidas, direta ou indiretamente aos amigos, familiares, colegas de trabalho. Elas, freqüentemente, dão sinais e fazem comentários sobre “querer morrer”, “sentimento de não valer pra nada”, e assim por diante. Todos esses pedidos de ajuda não podem ser ignorados. Fiquem atentos às frases de alertas acima citadas. Por trás delas estão os sentimentos de pessoas que podem estar pensando em suicídio. São quatro os sentimentos principais de quem pensa em se matar. Todos começam com “D”: depressão, desesperança, desamparo e desespero (regra dos 4D).

No diagnóstico da depressão são considerados os sintomas psíquicos (tristeza, angústia, autodesvalorização, culpa, diminuição da capacidade de experimentar prazer nas atividades antes consideradas agradáveis, sensação de perda de energia, dificuldade de se concentrar ou de tomar decisões), fisiológicos (alterações do sono, alterações do apetite, redução do interesse sexual) e evidências comportamentais (retraimento/isolamento social, crises de choro, ideações/comportamentos suicidas, lentificação ou agitação motora expressivas). Fadiga ou perda de energia. Sentimento de inutilidade ou culpa excessiva. Capacidade reduzida de pensar ou concentrar-se.

Aqui vou chamar a atenção do leitor para os aspectos psicológicos predisponentes ao suicídio: • perdas recentes. • perdas de figuras parentais na infância. • dinâmica familiar conturbada. • datas importantes. • reações de aniversário. • personalidade com traços significativos de impulsividade, agressividade, humor lábil. Sujeitos com tais características mais frequentes, os adultos próximos deverão redobrar a atenção e irem em busca de ajuda psicológica e/ou psiquiátrica.

Vejamos alguns aspectos psicológicos no comportamento suicida, como: “estágios evolutivos da intenção para a ação, iniciando-se geralmente com a imaginação, onde o sujeito imagina as várias formas de suicídio e os meios/ferramentas/objetos, culminando com um plano de como se matar”.

Três casos de suicídio, um caso concreto de morte suicida, o que todos têm em comum? Uma vinculação afetiva sutil e sedutora na infância, com um dos progenitores que, ao emergir a adolescência, surge um afastamento abrupto e iniciam-se atitudes aversivas, críticas e exigentes, por parte dos progenitores, de tal maneira que à ainda criança adolescente, começa a formar e aformatar interiormente, um eu excluído e rejeitado, cuja dor emocional cresce e o asfixia, numa angústia intolerável, sendo a morte um prenúncio de alívio total, isso na imaginação do sujeito suicida.

O primeiro paciente, com tentativa iminente de suicídio, com ensaios e tentativas concretas, ideação cognitivo (ideias delirantes e alucinações ‘vozes na cabeça’ dando ordens concretas, nestes termos: ‘de hoje não passa, tem que ser hoje, vai logo (…)’.) para o suicídio desde 22 de dezembro, segundo por questões familiares. O motivo real estimulante mobilizador: doença da mãe, suspeita de câncer. Narrou-me seus pensamentos suicidas nestes termos: comecei a pensar em me matar quando minha mãe ficou doente (agosto do ano passado), achava que ela ia morrer, então comecei a imaginar como eu me mataria; olhava da saca do quarto e pensava em me jogar; outras vezes pensava em pegar o carro e me jogar contra um poste e, recentemente pensei em pegar uma corda, até sai à procura, como não achei, subi na sacada da janela e quando ia me jogar, apareceu minha mãe. Este paciente deu-me, recentemente estas resposta, às questões:

  1. Você sente-se infeliz ou sem esperança? Sim, uma vez tinha planos; larguei tudo; tem horas que me sinto-se bem, com planos, mas a maioria do tempo não to nem ai para a vida.
  2. Você sente-se desesperado (a)? Na maioria das vezes sim, tem medo das coisas e me desespero; fui ver um familiar e fiquei desesperado(a) (…)“comecei a me imaginar (…)”.
  3. Você sente-se incapaz de enfrentar os dias? Sinto-me incapaz de enfrentar os dias sim. As pessoas que tentam me agradar me fazem sentir agonia.
  4. Você sente que sua vida é um fardo? Sim, tanto para mim como para os outros.
  5. Você acha que não vale a pena viver? Sim, penso na morte em Deus, se ele me acolher não há sofrimento.
  6. Você ainda pensa em cometer suicídio? Penso. Como? enforcado(a).

Observação: estamos na sexta sessão psicológica, trata-se de sujeito emotivo, com nível de inteligência acima da média, apesar de todo o sofrimento psíquico, obteve boas notas no curso superior (4º ano), está na faixa dos 20 anos. Está bem mais a vontade, dialogando muito com os familiares, tios, tias, avós, pai, mãe e irmão. Teste Rey – comentário: sou péssima em desenho. Início pelo todo externo, mas com dificuldades na execução e memória, está sob medicação psiquiátrica. Irmão batia muito quando criança, segundo ela, outro dia ele bateu na frente do namorado, sentiu-se humilhada.

Quando certas pessoas dizem: “Eu estou cansado da vida” ou “Não há mais razão para eu viver”, elas geralmente são rejeitadas, ou, então são obrigadas a ouvir “um sermão” ou estórias sobre outras pessoas que venceram dificuldades ainda maiores. Nenhuma dessas atitudes ajuda. O contanto inicial com a pessoa é muito importante. Freqüentemente tal ocorre numa clínica, casa ou espaço público, onde pode ser difícil ter uma conversa particular. “Ouça com cordialidade.Trate com respeito. Empatia com as emoções. Cuidado com o sigilo.”

Sujeitos com traços suicidas necessitam de intervenções psicoterapêuticas cognitivos comportamentais, que de acordo com Reinecke, Dattilio e Freeman (pg.147-1999), as abordagens cognitivo-comportamentais postulam que os membros de uma família influenciam e são influenciados uns pelos outros.

O segundo paciente, veio acompanhado pelos pais, recomendado pelo médico clínico geral, que havia atendido no dia anterior e medicado, pois passara o domingo sob tensão, havia ameaçado se matar na noite daquele sábado. Todos se acomodaram no consultório, observei a dinâmica familiar tensa, o paciente na casa dos 20 anos, segundo ano de faculdade, de cabeça baixa, em total silêncio. A mãe tomou a frente tentando falar o que se passava, o pai interveio tenso; percebi o paciente a escrever mensagem no celular, de repente a mãe fala: ele pede para o pai sair da sala; levantei, caminhei entre eles e dialoguei com o pai, solicitando que esperasse na recepção. Assim a mãe sentiu-se mais a vontade, relatou os fatos, o filho – paciente se manifestou em prantos, revoltado com o comportamento do pai, que fora muito violento em tempos passados etc. Observei que a mãe estava mais tensa e a interferir na fala do filho – paciente, fiz-lhe algumas observações e solicitei que esperasse na recepção. A partir daí o paciente se expressou, narrou o ocorrido, lamentava os fatos e se dizia arrependido.

Ainda estamos no início com apenas duas sessões, pois esta segunda sessão se apresentou sozinho e bem mais disposto, dizendo que queria esquecer o que passou, que foi uma bobagem. Apresentei-lhe as seguintes perguntas e eis o que ele me respondeu, de modo espontâneo e com leve sorriso,

  1. Quem ou o quê, na sua vida, te faz sentir mais feliz? Quando meu pai me chama de filho.
  2. Quem ou o quê, na sua vida, te faz sentir mais amado? Ser chamado de filho pelo pai, sentia-me muito amado por ele quando me chamava em criança.
  3. Quem ou o quê, na sua vida, te faz sentir mais realizado? Quando consigo realizar um sonho meu, que luto e consigo.
  4. Quem ou o quê, na sua vida, te faz sentir mais apaixonado? Tenho paixão pelo que faço.
  5. Quem ou o quê, na sua vida, te transmite mais auto-confiança? Quando faço algo que conheço e tenho experiência.

Recomendei aos familiares atenção redobrada, pois sua atitude tímida e reservada indica que está negando o sentimento de vergonha social, e que pode vir a tentar novamente. Destaco e chamo atenção para os aspectos psicológicos pré-disponíveis ao suicídio na faixa – etária jovem: • perdas recentes; • perdas de figuras parentais na infância (situo aqui os vínculos afetivos saudáveis); •dinâmica familiar conturbada (situo aqui os conflitos de casais e o sentimentos de traição); •datas importantes; •reações de aniversário; personalidade com traços significativos de impulsividade, agressividade, humor lábil.

Transtornos que desencadeiam ideias suicidas

Segundo a literatura psiquiátrica em muitos casos, a depressão é mascarada e os pacientes apresentam apenas queixas somáticas. São sintomas que comumente se apresentam na depressão: Cansaço. Tristeza. Perda de concentração. Ansiedade. Irritabilidade. Distúrbios do sono; Dores em diferentes partes do corpo. Estes sintomas deveriam alertar o médico para a presença de depressão e levar a uma avaliação do risco de suicídio. Características clínicas específicas associadas com aumento do risco de suicídio na depressão são: Insônia persistente; Negligência com os cuidados pessoais; Doença grave (particularmente depressão psicótica); Déficit de memória; Agitação; Ataques de pânico. Em episódios depressivos típicos, o indivíduo normalmente sofre de: humor deprimido (tristeza), perda de interesse a prazer, redução na energia (fatigabilidade e diminuição das atividades). Os seguintes fatores de risco aumentam o risco de suicídio em pessoas com depressão: Idade menor que 25 em homens. Fases precoces da doença: Abuso de álcool, Fase depressiva de um transtorno bipolar, Estado misto (maníaco-depressivo).

Avanços recentes no tratamento da depressão são muito relevantes para a prevenção do suicídio em nível de atenção básica à saúde. Quando os médicos têm indicativos razoáveis de que o paciente pode ser um suicida, encontram o dilema de como proceder. Alguns médicos sentem-se desconfortáveis com pacientes suicidas. É importante para os médicos estarem conscientes deste sentimento e procurarem ajuda de colegas e possivelmente de profissionais de saúde mental, quando confrontados com este tipo de paciente. É essencial não ignorar ou negar o risco. Até porque pode surgir uma melhora falsa ou enganosa: quando um paciente agitado de repente fica calmo, ele pode ter tomado a decisão de cometer suicídio, daí a calma após a decisão. Negação: pacientes que têm intenções muito sérias de suicidar-se podem deliberadamente negar a ideação suicida.

Terceiro caso, suicídio de fato: trata-se de um sujeito tido socialmente como normal, trabalhador, pai de família, com muitos amigos, nascido em 24/01/1962, suicida-se no local de trabalho com um tiro na cabeça. Em entrevista com a viúva, esta comentou que em casa ela nunca percebeu nada, que ele estava bem no dia do fato ocorrido. Entretanto, era diabético a 11 anos, ficava estressado e irritado por qualquer coisa, não dormia bem, e tinha uma ansiedade exagerada; de pouco diálogo em casa sobre os negócios e com relação a sua afetividade. Segundo a esposa, soube depois através de alguns amigos, que ele havia feito comentários do tipo: “dá vontade de pegar e sumir” e estava muito magro.

Frases de alerta – quando presenciar alguém queixar-se dessa forma:

Como reconhecer o risco? Reconhecer o risco de suicídio envolve conhecer os sinais de alarme. Conhecê-los e intervir de forma eficaz é uma tarefa importante que poderá salvar vidas. Alguns sinais de alarme que frequentemente são exibidos pelas pessoas deprimidas com intenção suicida são: sofrimento psicológico (tristeza intensa); perda de auto-estima; constrição (redução dos horizontes a um simples tudo-ou-nada); isolamento (sensação de vazio e de falta de amparo); desesperança; mudanças rápidas de humor; e agressão (fuga como única solução para acabar com a dor intolerável). Também a impulsividade é um dos fatores importantes, pois ela modela a rapidez com que se passa do pensamento ao ato. Estes são os sinais de alarmes mais comuns: “Eu preferia estar morto”. “Eu não posso fazer nada”. “Eu não aguento mais”. “Eu sou um perdedor e um peso pros outros”. “Os outros vão ser mais felizes sem mim”.

Busque ajuda nos serviços sociais ou encaminhe e oriente a pessoa, mas jamais fique indiferente, pois no dia de amanhã, quem sabe é você que necessitará desse apoio. Isto porque, na maioria dos casos, a pessoa escolheria outra forma de solucionar os problemas se, não se encontrasse numa tal angústia que a impossibilita de considerar outras opções para além do suicídio. A intenção é geralmente parar a dor e não pôr termo à vida.

Segundo, Mello, Miranda e Muskat (2005), a capacidade de se modificar é comum a todo ser humano. Citando a experiência clínica de Feurstein, sob a óptica de Mello et all (pg. 216-2005), não se admite que os determinantes distais (fatores genéticos, orgânicos, ambientais) prejudiquem o sujeito de forma irreversível; nem que os determinantes proximais (carências, ambientes empobrecidos, aqui afetivamente e conflituosos) podem prejudicar gravemente o desenvolvimento cognitivo, mas não de maneira irreversível.

Eis aqui algumas perguntas que podem fazer a diferença no sistema rotineiro cognitivo:

  1. Estou realmente feliz no trabalho que estou fazendo? 2. O que é que posso fazer para tornar o meu trabalho mais satisfatório e sentir-me mais feliz? 3. Para onde quero que a minha vida caminhe agora e no futuro? De vez em quando, você deve sentar-se tranquilamente e examinar a sua vida e a direção que ela está tomando. Você deve sempre tentar perspectivar uma vida melhor no seu futuro. Se assim não for, algo precisa mudar.

As grandes áreas da vida são comuns a todos nós, dinheiro, trabalho, amor, família, relacionamentos, amigos e outras. Num determinado ponto da sua vida, uma ou mais dessas áreas devem ser alvo do seu foco em termos de melhoria. Se sua vida parece não estar ficando melhor em relação aos seus objetivos, você precisa descobrir o que está acontecendo e tomar medidas para melhorá-la. Para que isso se efetive pode ser necessário fazer algum exame de consciência, meditação e reflexão, mas vale a pena. Repense e pondere sobre isso e redescubra os valores humanos e a ética moral.

Autor: Gelci Nogueira.

Referências:

  • BLACKMORE, S. A evolução das máquina de memes. Assessível em: www.susanblackmore.co.uk. Acesso em 23/01/2012.
  • BLEGER, J. Simbiose e Ambiguidade. Rio de Janeiro. Livraria Francisco Alves Editora S.A., 1977.
  • BORIS, Cyrulnik. Sob o signo do afecto. Editora Instituto Piaget, 1989.
  • DAMÁSIO, António. O Sentimento de Si. Portugal: Publicações Europa-América, 15ª Ed, 2004.
  • FLÖTER, Danielle. Depressão não está sendo tratada corretamente pelos brasileiros. Acessível em:www.paueprosa.crp18.(19/01/2012), Cumnicando. Acesso em 20/01/2012.
  • HABIB, Michel. Bases neurológicas dos comportamentos. CLIMEPSI Editores, 2003.
  • MELLO, C.B.; MIRANDA, M.C.; MUSKAT, M. Neurologia do desenvolvimento. Conceitos e abordagens. 1ª Ed. São Paulo: Memnon, 2005.
  • NOGUEIRA, G. Linguagem afetiva. Acessível em: www.psicologia.pt . Acesso em 24/01/2012.
  • ____________. Exclusão afectivo-emocional e isolamento social. Acessível em:www.psicologia.pt. Acesso em24/01/2012.
  • VARELLA, Pilar. Ansiosa-Mente. Portugal, 3ª Ed, 2007.
  • www.prevençãodosuicídioummanualparaosmédicos. Http://whqlibdoc.int/hq/2000/WHO_MHH_. Acesso em 21/01/2012. – www.biblioteca24x7.com – http://vivenciassonhosereflexoes24x7.blogspot.com – www.sinopsedolivro.com

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