O Exército transforma homens em máquinas de matar, mas não os ensina a continuar vivendo. Milhares são vítimas de estresse pós-traumático, uma doença que condecora soldados com paranoia, vícios e suicídio

Segundo Albuquerque e Lopes (1997), existem vários fatores que levam ao Estresse de Guerra, sendo eles: a morte de um camarada, logo de seguida pela exposição ao combate e ao ferimento de um camarada, sendo considerado o fator de estresse com mais predominância; o assassinato, tortura, violação e destruição de aldeias é a mais frequente na guerra, onde o “inimigo” é toda a população civil, desde crianças a mulheres grávidas; ferido em combate; a sede e fome e o isolamento, entre outros.

O conceito de Perturbação Pós – Stress Traumático de Guerra surgiu, após a Guerra do Vietname (1959-1975) e a Guerra Colonial (1961 – 1974). Em todas estas situações traumáticas o surgimento do distúrbio encontra-se relacionado com um acontecimento estressor.

Em 1976, o Vietnam Veterans Working Group (VVWG) propõe um diagnóstico, referenciado como “Catastrophic Stress Disorder”, designando como um fenómeno que afeta não só os veteranos do Vietnã, mas também aqueles que estiveram sujeitos a um acontecimento que saísse fora da experiência humana dita “normal”.
Assim, os VVWG reuniram mais de cem histórias de veteranos do Vietnã, de civis com problemas no local de trabalho, vítimas de desastre e sobreviventes de campos de concentração. Em 1980, no “Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders” (DSM – III), surge pela primeira vez a designação do conceito de Perturbação Pós – Stress Traumático.

Para Matthew Pennington, é pior enfrentar estresse pós-traumático do que a perda da perna esquerda.

A bomba de beira de estrada que separou o sargento Matthew Pennington de sua perna esquerda em 2006 também quebrou sua perna direita e causou danos aos seus pulmões. Ele conseguiu compreender as lesões físicas, porém, aquelas dentro de sua cabeça, não.

Matthew Pennington, veterano que perdeu a perna no Iraque e sofre de estresse pós-traumático, com sua mulher, Marjorie, em Dexter, Maine.

Sua reabilitação no Centro Médico Walter Reed, em Washington, foi relativamente tranquila, alimentada pelo seu ódio da cadeiras de rodas. Ele foi dispensado do Exército e retornou ao Maine em apenas um ano. E lá os seus problemas realmente começaram.

Nos meses depois de ter tido alta do Centro Médico Walter Reed, ele ficava facilmente frustrado e, segundo sua esposa, constantemente irritado. Suspeitando de ameaças em supermercados e shoppings, ele parou de sair de sua casa e começou a beber muito. Seu casamento estava quase no fim, quando, em uma atitude de desespero movida ao álcool, ele bateu seu carro contra um muro de tijolos, e ao sair de dentro dele estava tão atordoado que pensou que estava de volta ao Iraque.

“Em uma lesão física – três meses, seis meses, seja qual for o tempo – você irá se curar de suas feridas. Mas lidar com o estresse pós-traumático é mais difícil, porque as pessoas não conseguem enxergar o que está acontecendo”.

Talvez tenha sido o fato de ele ter saído do Centro Médico Walter Reed. Talvez tenha sido o fato de ele estar morando em uma cidade rural, longe de amigos do Exército. Talvez tenham sido suas batalhas com a burocracia do órgão responsável pela pensão e benefícios dos veteranos. Talvez tenham sido os medicamentos prescritos por seus médicos: narcóticos para aliviar a sua dor, antipsicóticos para controlar seu humor e remédios para dormir com o intuito de acalmar seus pesadelos.

Para Pennington, certos medicamentos pareciam piorar sua depressão e a terapia não ajudava com sua ansiedade. Parecia que ele iria acabar divorciado, sozinho e talvez até mesmo um alcoólatra.

Como Pennington, muitos veteranos feridos em combate estão descobrindo que suas feridas psicológicas e neurológicas estão sendo mais debilitantes do que suas feridas físicas.

Saiba mais: Revivendo o passado: Estresse Pós-traumático

Cerca de 1,7 mil oficiais militares dos Estados Unidos perderam membros no Iraque e no Afeganistão , a maioria em atentados feitos com bombas na beira da estrada que deixaram suas peles queimadas, ossos quebrados e também danificaram órgãos internos. A maioria desses soldados também voltou para casa com lesões cerebrais traumáticas e estresse pós-traumático, que em muitos casos passaram meses sem ser reconhecidos.

Embora os avanços em próteses tenham possibilitado que muitos dos oficiais que tiveram seus membros inferiores amputados recuperassem a sua mobilidade, a capacidade de recuperação de lesões cerebrais e de estresse pós-traumático crônico – ambos capazes de alterar a personalidade e prejudicar o funcionamento mental – acaba sendo algo mais difícil de se reconhecer.

“Eu acredito que o fator limitante para essas pessoas que voltam para suas vidas normais não é a de terem perdido um membro”, disse o Dr. Douglas Cooper, um neuropsicólogo do Centro Médico Brooke do Exército, em San Antonio. “Os sintomas do estresse pós-traumático parecem atrapalhar na hora da recuperação.”

Tragédia ignorada

Os EUA ficaram no Iraque por mais tempo do que lutaram na 2ª Guerra Mundial. Foram 4 anos na luta contra Hitler, e 8 de conflitos pós-Saddam. Se contarmos as operações no Afeganistão, 1,5 milhão de americanos serviram em batalha entre 2001 e 2007. Desses, 4 mil morreram e 60 mil foram feridos ou caíram doentes. Mas nem todas as cicatrizes são visíveis. Na mente de alguns soldados, a batalha nunca termina.

O principal problema psicológico que aflige os ex-combatentes é o transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), que inclui flashbacks do combate, paranóia constante e a incapacidade de funcionar no ambiente familiar, social e profissional. É o nome atual do que ficou conhecido como trauma de guerra.

Não é uma honra exclusiva de militares. O TEPT pode atacar qualquer vítima ou testemunha de desastres naturais, incidentes terroristas, acidentes sérios ou ataques violentos – qualquer evento aterrorizante em que a morte ou ferimentos graves são possíveis.

A diferença é que estatísticas apontam que 5% da população desenvolve algum nível de estresse pós-traumático, enquanto ao menos 10% dos combatentes desenvolvem o problema plenamente.

Esse problema é turbinado pelas condições das guerras atuais, onde as tropas lidam com múltiplos realistamentos por períodos estendidos, curtos períodos de sono, operações de 24 horas sem descanso, missões alteradas constantemente e muito conflito de guerrilha, onde combatentes e civis se misturam. Na 2ª Guerra Mundial, onde o combate era menos complexo e os inimigos mais claros, 1 a cada 20 veteranos apresentaram sintomas relacionados ao TEPT, 5% do total, índice que subiu para 15% na Guerra do Vietnã. Com o conflito do Iraque ainda ativo, não há dados definitivos, mas especialistas estimam que sejam uns 30%. Um estudo de 2004 aponta que 40% dos soldados que voltaram da “guerra contra o terror” procuraram tratamento psicológico. E não foi para superar fim de relacionamento. “A guerra significa algo diferente para nós que já olhamos através da mira de rifle apontado para outro ser humano, para aqueles que viram uma menina de 9 anos ser atingida por fogo cruzado. Estou comentando somente uma fração do que ainda me atormenta em relação a minha experiência no Iraque”, diz um soldado que serviu como médico em 2004 e escreveu seu depoimento em um site de veteranos.

E os dados são apenas dos que buscaram ajuda. Um estudo do Departamento de Defesa dos EUA mostra que 60% dos fuzileiros navais que estiveram no Iraque e tiveram sintomas de depressão grave e TEPT acabaram não procurando ajuda por medo de prejudicar sua carreira ou de ser tratados de forma diferente pelos companheiros de farda.

Cuca fundida

Nossa falta de atenção e compreensão com os traumas de guerra pode vir da dificuldade que temos para entender o que se passa na mente de suas vítimas.

Claro, dá para ter uma vaga ideia, já que traumas e desastres são parte da experiência do ser humano – a evolução nos dotou com habilidade nata de adaptação a ambientes e circunstâncias variáveis. Estatisticamente, 50% de nós sobrevive a ao menos um evento traumático ao longo da vida. E, após um trauma, o normal é continuar revivendo o episódio na memória: é a maneira que o cérebro tem de processar e aprender com o estresse para depois prosseguir com sua programação normal.

O TEPT ocorre justamente quando o cérebro passa por tantos eventos traumáticos que vai perdendo, aos poucos, a capacidade de absorver esses impactos. Nesse caso, recordar é viver com medo. Richard Pierce, um veterano do Vietnã, descreve o desenvolvimento gradativo do TEPT dentro da mente de um indivíduo: “Em seus estágios iniciais, eu acho que os pesadelos, o isolamento e a ansiedade são reações defensivas naturais a uma experiência muito traumática. Nas primeiras etapas, é como uma dor de dente que incomoda. Se não for tratada, a infecção cresce e apodrece tudo. Nesse momento, se torna uma doença”, diz ele no livro de Ilona Meagher Moving a Nation to Care (algo como “Fazendo uma Nação se Importar”, como todos neste texto, sem edição brasileira). Se não for tratado de maneira correta, o TEPT vira um dano permanente, como um arranhão em um vinil.

Edward Tick, um psicoterapeuta clínico com 25 anos de experiência no tratamento de veteranos, em seu livro War and the Soul (“A Guerra e a Alma”), define o TEPT como uma “consciência de guerra congelada”. O tempo parece estar parado, enquanto aquele que sobreviveu ao trauma relembra o evento através de recordações inesperadas e pesadelos. “Cada vez que as situações são revividas, o indivíduo fica mentalmente e fisicamente exaurido. Suas ansiedades e frustrações aumentam e ele gradualmente vai perdendo o controle”, escreve Tick. A vítima começa a “organizar a sua vida em torno do trauma. Seu trabalho, suas relações familiares e sua saúde começam a se deteriorar”.

 

Aprender a matar

No passado, os generais formavam seus batalhões catando cidadãos comuns por onde passavam. Eram soldados de uma guerra só: se sobrevivessem, voltavam para a sua antiga vida.

Hoje, a ideia é criar soldados profissionais, que não hesitem quando chega a hora de puxar o gatilho. Usando as técnicas mais eficientes de condicionamento psicológico e controle mental (se quiser falar mal, pode chamar de “lavagem cerebral”), o treinamento militar pega uma pessoa que nem você, que só conhece tiro da televisão e tem nojo de imaginar que o bife já foi vaca, em uma máquina de matar – e dane-se se a máquina pifar depois. James Blake Miller, o Marlboro Marine da abertura do texto, fez curso de pastor evangélico por correspondência e até cogitou ser mineiro de carvão antes de se alistar. Dois anos depois ele estava em Faluja, mandando tanque derrubar prédio com 40 pessoas dentro e fumando um cigarrinho logo depois. “Uma coisa é quando estão atirando em sua direção e você dá alguns tiros de volta para silenciar o outro lado. Outra coisa, completamente diferente, é quando você olha para um outro ser humano. E ele sabe que você está tentando matá-lo. Para fazer o seu trabalho em combate, você tem que ser capaz de trancar todas as suas emoções”, diz ele no livro de Meagher.

Antes de serem lapidados como instrumentos letais de guerra, os recrutas têm que superar o que o autor Dave Grossman chama de “fobia humana universal”: a aversão que a maioria das pessoas tem de tirar a vida das outras, ausente em apenas 2% dos os indivíduos dentro das Forças Armadas. Em seu livro, On Killing: The Psychological Cost of Learning to Kill in War and Society (“Sobre Matar: O Custo Psicológico de Aprender a Matar na Guerra e na Sociedade”), Grossman explica que “no interior da maioria das pessoas existe uma intensa resistência na hora de tirar a vida de um outro ser humano. É algo tão forte que alguns soldados morrem em combate por não conseguir superá-lo”.

 

O Exército dos EUA usa um sistema, chamado de Controle Total, que gera 20 mil soldados por ano – nenhuma outra instituição militar na história treinou tantos homens para matar em tão pouco tempo. Graças ao programa, o número de soldados que falham na hora de responder ao fogo inimigo caiu de 70% para praticamente zero. O programa que cria os combatentes perfeitos, no entanto, é ineficaz na hora de evitar que eles tenham danos psicológicos resultantes da tarefa em que são tão bons. “As pessoas comentam: ‘Não sei como você conseguiu fazer aquilo’. E olham para você imaginando como você deve ter mudado, imaginando se você perdeu todo o dilema moral associado a tirar a vida de outra pessoa”, escreveu John Crawford, veterano do Iraque, no livro The Last True Story I’ll Ever Tell (“A Última História Verdadeira Que Eu Contarei”).

Cessar-fogo

Hoje, os soldados que voltam para casa encontram uma América com um clima muito diferente daquele que os veteranos do Vietnã encontravam mais de 40 anos atrás. Apesar de a maioria da população reprovar a invasão do Iraque, os freedom fighters (“guerreiros da liberdade”) são tratados como heróis, diferentemente dos engravatados que os mandaram para lá.

Além disso, existem aproximadamente 250 ongs que lhes oferecem serviços de qualificação profissional, emprego e aconselhamento. Mas, apesar disso, a economia soluçante não está preparada para absorver a quantidade de gente que retornará para casa nos próximos anos. Milhares de ex-combatentes desempregados são um baita problema econômico, mas também psicológico. Sentir-se rejeitado pela sociedade pode desencadear a depressão, a raiva, o medo, o sentimento de culpa e os vícios que juntos compõem o quadro de transtorno de estresse pós-traumático.

Ainda por cima, o Department of Veteran Affairs (conhecido como VA, órgão federal responsável pelos veteranos) e organizações privadas já estão no limite de capacidade, ainda atendendo soldados de conflitos anteriores, como a Guerra do Golfo (de 1991, aquela em que o Bush pai varreu Saddam do Kuwait).

Segundo dados da Coalizão Nacional dos Veteranos Sem-Teto dos EUA, 1 em cada 6 dos 3 milhões de mendigos americanos são veteranos de guerra. Desse grande exército de 500 mil, apenas 20% são atendidos pelo VA.

O Marlboro Marine é quase um deles. Quatro anos depois da foto que o deixou famoso, James Blake Miller está divorciado do seu amor de colégio e morando em um trailer nos fundos da casa do seu pai, em uma cidadezinha do Kentucky. Ele sempre quis ser policial, sonho que o diagnóstico de TEPT tornou impossível. Aceitou um emprego em uma oficina mecânica de motos e, por conta disso, acabou entrando para uma gangue local de motoqueiros arruaceiros que vive arranjando confusão com a polícia.

A princípio um defensor da Guerra do Iraque, Miller acabou renegando o conflito. “O que ganhamos como país? O que realmente conquistamos além da perda de um monte de gente boa?”, perguntou ele ao seu descobridor, Luis Sinco, em uma reportagem do Los Angeles Times. Talvez um dia os historiadores cheguem a um consenso sobre essas questões. Mas os traumas dos veteranos só serão superados se cada um deles encontrar suas próprias respostas.

 

Pós-guerra

As consequências da guerra permanecem na mente muito tempo depois do último tiro. Conheça os sintomas do estresse pós-traumático

Eternamente no front: O sujeito segue pensando na guerra da qual voltou, querendo ajudar os companheiros e matar inimigos.

Vícios diversos: Qualquer coisa (álcool, maconha, cocaína, remédios) que ajude a esquecer as experiências ruins.

Paranoia: Em inglês, a expressão é jumpiness, a sensação de ficar alerta o tempo todo.

Flashbacks: As memórias do combate são tão vivas que parecem reais, a ponto de ex-combatente às vezes não saberem diferenciar lembranças de realidade.

Rejeição: Muitos veteranos se sentem traídos por Deus e pela sociedade, se revoltam com o seu destino, acham que o mundo lhe deu as costas. Às vezes, é verdade.

Isolamento: Aversão ao contato social, falta de ânimo para interagir com outras pessoas.

Culpa por sobreviver: O soldado convive com os companheiros 24 horas por dia, morre e mata por eles e conta com a mesma consideração. A morte de um desses “irmãos” faz martelar a pergunta: “por que não eu?”

Suicídio: A soma de todos esses fatores pode levar a essa atitude extrema.

 

Um problema, vários nomes

O estresse pós-traumático existe desde que a guerra é guerra: Heródoto, o historiador grego, conta a história de um guerreiro ateniense que ficou cego na Batalha de Maratona (490 a.C.), apesar de “não ter sido atingido em nenhuma parte do corpo”. Acompanhar a sequência de diferentes nomes para o mesmo problema mostra como cada época encarou seus conflitos armados e psicológicos.

Nostalgia: Conflito: Guerras Napoleônicas, Guerra Civil Americana (século 19). Origem: Acreditava-se que os veteranos só tinham problemas porque estavam com saudade do campo de batalha. Nada que um novo combate não resolvesse.

Neuroses de guerra: Conflito: 1ª Guerra Mundial (1914-1918). Origem: De sumo interesse de Freud e seus discípulos, relacionava o trauma de guerra com outros pré-existentes.

Cansaço de Batalha: Conflito: 2ªGuerra Mundial (1939-1945) e Guerra da Coréia (1951-1953). Origem: como o próprio nome indica, a crença geral era de que o sujeito só precisava de um descanso.

Síndrome pós-vietnã: Conflito: Guerra do Vietnã (1959-1975). Origem: A intenção era colocar os sintomas terríveis como consequências de um único conflito, com características particulares, uma espécie de anomalia estatística.

Estresse Pós-Traumático: Conflito: Guerra do Golfo (1991). Origem: Popularizado nos anos 80, é nome mais usado atualmente, tratando o trauma como um grave problema psicológico.

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