Uma suposta onda de palhaços com más intenções varreu os Estados Unidos em 2016. Ou pelo menos essa é a história relatada pelas supostas vítimas de perseguição. Foram relatados casos em pelo menos 10 estados diferentes. Esses palhaços demoníacos tentaram atrair mulheres e crianças para a floresta e perseguiram pessoas com facas e machados e gritaram para pessoas de carros. Eles foram vistos saindo de cemitérios e foram pegos nos faróis dos carros, pois aparecem ao lado de estradas desoladas do país ao fim da noite.

O “supostas” no parágrafo acima não é gratuito: o fato é que nada comprova os relatos. Não houve um resquício sequer de fio de cabelo azul ou nariz vermelho no “epicentro” das observações. E há ainda menos evidências de que o Coringa exista e esteja ensaiando com seus comparsas seu próximo ato de terror. Ninguém chegou a ser atacado, e nenhuma criança foi achada no mato. O que fazer? 

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A aposta da polícia é a de que isso seja, na verdade, uma crise de histeria coletiva, e que os palhaços não passem de uma ilusão, um fenômeno psicológico. A resolução do mistério parece cinematográfica, mas não é novidade. E tem tudo a ver, claro, com o medo crônico que boa parte das pessoas tem de palhaços.

De onde vem esse medo?

Tudo começa na infância. Um artigo científico da Universidade de Sheffield, na Inglaterra, revela que crianças e adolescente com idades entre 4 e 16 anos são quase unânimes em afirmar que a presença de figuras de palhaço em quartos de hospital é assustadora e não colabora em nada com a recuperação de pacientes — é de se pensar como o McDonald’s conseguiu conquistar o mundo com Ronald

No artigo, a palavra usada para descrever Bozo e seus amigos em inglês é unknowable. Uma tradução próxima, mas complicada, é a palavra incognoscível. O espírito da coisa é que não se pode saber o que está por trás de um olhar de palhaço, e coisas ambíguas, em geral, dão muito mais medo do que coisas abertamente ruins. 

Em resumo, todo mundo vai entender se você sair correndo quando um jacaré faminto avança na sua direção. O animal é um risco claro à sua vida, e todo mundo concordaria. Um palhaço, por outro lado, pode ter uma aparência repulsiva par alguns, mas nada garante que ele vá fazer uma maldade quando te abordar na rua — ou na plateia do circo. Eles são imprevisíveis. E é aí que está a chave do medo. 

Uma outra pesquisa, que saiu na revista científica New Ideas in Psychology, é o primeiro estudo empírico já feito sobre coisas “arrepiantes” (creepy). E sua principal conclusão é que para ser horripilante, mais do que repulsivo, é preciso ser imprevisível. Os pesquisadores analisaram 1.341 voluntários maiores de idade por meio de questionários. Na primeira parte, os participantes precisavam selecionar, entre 44 características físicas e comportamentais diferentes, as que elas mais associavam a coisas arrepiantes. Depois, elas precisavam fazer seu próprio ranking de profissões de dar frio na barriga e selecionar dois hobbys que não fossem exatamente… normais. 

Os resultados são óbvios: no topo da lista de profissões, com uma imensa vantagem, estão os palhaços. E entre as características que ativam o alerta de arrepio, comportamentos só um pouco estranhos são considerados piores que comportamentos abertamente estranhos.

É impossível saber se um palhaço está feliz ou triste com o disfarce da maquiagem. E é impossível saber se ele vai ou não dar com uma torta na sua cara em uma fração de segundo. As características físicas altamente incomuns do palhaço (a peruca, o grande nariz vermelho, a maquiagem, a roupa estranha) apenas ampliam a incerteza do que o palhaço pode fazer a seguir. O mais provável, então, é que seja essa mistura de felicidade fingida com intenções ocultas que dê tanto medo. E esse medo é universal. 

O que nos leva de volta à histeria coletiva. Na década de 1980, um caso de histeria coletiva foi desencadeado por relatos de crianças nos arredores de Boston. Na época, Loren Coleman, um especialista em criptozoologia — o estudo dos animais que não existem, como o Monstro do Lago Ness ou o Pé Grande — apostou que esses surtos poderiam ser simples imagens mentais levadas um pouco a sério demais. Talvez ele esteja certo, e o medo de palhaços volta em ciclos para assombrar os adultos. Why so serious?

Porque tão sério?

Freud Explica…

Para Freud, a angústia corresponde a uma tensão física que não pode ser elaborada psiquicamente, e essa tensão é sexual, sendo, em seguida, articulada à teoria do recalcamento. Ou seja, tendo a “representação” recalcada no inconsciente, o “afeto” é deslocado, não mais se reconhece, e se transforma em uma angústia que parece não ter objeto.
 
Estimulado pelos efeitos clínicos da I Guerra, Freud propõe uma divisão de medos e angústias em três categorias, em função de sua “relação com o perigo”: 
  • a angústia — Angst — que se refere a um estado e “abstrai do objeto”. O perigo pode ser desconhecido e provoca um estado de espera e de preparação;
  • o medo (Furcht), que exige um objeto determinado e dirige sua atenção para este;
  • o pavor, (Schreck) que é efeito de um perigo que não é preparado por alguma forma de alerta, não é preparado pela angústia, é marcado pela surpresa;

É isso que leva Freud a dizer que nos protegemos daquilo que nos apavora por meio da angústia. Inúmeras neuroses seriam o modo explícito de uma manifestação de pavor. Essa articulação entre medo e angústia seria mais nítida na fobia.

A Origem do Mal

As características de palhaços existem há milhares de anos. Historicamente, bufões (bobo da corte) e palhaços foram um veículo para a sátira e para se divertir com pessoas poderosas.

Os Bufões remontam ao antigo Egito, e a palavra inglesa “palhaço” apareceu pela primeira vez em 1500, quando Shakespeare usou o termo para descrever personagens tolos em várias de suas peças.

O palhaço de circo – com seu rosto pintado, peruca e roupas de grandes dimensões – surgiu no século 19 e mudou apenas um pouco nos últimos 150 anos.

O Mito do palhaço como ser assustador ganhou força depois que o assassino em serie John Wayne Gacy foi capturado. Houve confirmação de pelo menos 33 pessoas assassinadas por Gacy, que enterrava suas vitimas no porão de sua casa.

Antes de ser preso Gacy trabalhava como palhaço em festas de aniversário de crianças. Durante os 14 anos em que esteve preso, Gacy pintou diversos quadros. Pintava como hobby e como forma de ganhar dinheiro, chegou a vender 120 mil dólares em quadros. Seus quadros hoje alcançam altos valores no mercado e são vistos com ceticismo por parte de alguns especialistas em obras de arte. Na prisão, ainda ganhou bastante dinheiro – com as pinturas que fazia (especialmente populares eram as de palhaço e auto-retratos, mas também retratou Jesus, Hitler, personagens da Disney, outros criminosos etc.)

Ele ficou conhecido como “palhaço assassino” devido a sua conexão entre palhaços e comportamentos psicopáticos perigosos tornando assim uma imagem fixa para sempre no inconsciente coletivo dos americanos.

John Wayne Gacy, o Serial Killer "palhaço assassino"
Detalhe de uma das pinturas de John Wayne Gacy, o Serial Killer “palhaço assassino”

Fonte: http://www.sciencealert.com

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Psicólogo. Idealizador do Pensamento Líquido. Apaixonado por filmes de terror, seriados, animes, mangás e livros de aventura. Não dispensa uma boa comida e bebida na companhia de amigos, especialmente se for pra curtir um bom e velho rock n roll.

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