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A realidade é real?

René Descartes, filósofo francês nascido em 1596, preocupou-se com a existência da certeza. Na juventude, percebeu que argumentos propostos pelas autoridades intelectuais de sua época eram facilmente derrubados. O filósofo não sabia em que acreditar.

Descartes suscitou a dúvida sobre a observação direta e imediata. Ele perguntou: “se eu olhar atentamente para esta torre de igreja ou esta árvore mergulhada na água, poderei confiar, com certeza, na prova imediata dos meus sentidos?” A luz do sol dependendo de sua intensidade pode mudar o tom das cores, o que é azul escuro pode passar a ser mais claro e vice versa. Uma vara dentro da água pode tornar-se curva ao observador após ser mergulhada. Bem, a observação direta pode nos iludir.

Descartes chegou à conclusão de que nunca podemos ter certeza de que as coisas são como de fato parecem ser. Descartes também suscitou a dúvida sobre a certeza de estarmos tendo as experiências que pensamos estar tendo. Ou seja, nossos sentidos podem nos enganar.

A visão, o olfato, o tato, a audição e o paladar são sentidos pelos quais apreendemos o mundo que nos cerca. Como se pode denotar de conclusões há muito conhecidas pela filosofia, nossos sentidos podem nos confundir. Às vezes, pode ser apenas um equívoco a partir de uma interferência luminosa sobre um objeto, fazendo-o variar da cor original .

Outras vezes, podemos ter muitos sons ao mesmo tempo, como nas ruas de grandes cidades, não identificamos bem o que é dito por outrem, entendemos de forma distorcida. O olfato pode também nos confundir, por exemplo, quando, ao escolhermos um perfume, após provarmos diversas fragrâncias, o que sentimos já não é assim tão fidedigno. Dessa forma, não conseguimos mais diferenciar uma fragrância da outra.

Para serem bem executados, os sentidos precisam do nosso organismo 

Interferências orgânicas em nosso corpo podem levar a interferências em nossos sentidos. No entanto, quando temos distorções bioquímicas em específico em nosso cérebro, aumentando ou diminuindo a concentração de neurotransmissores na fenda sináptica, acarretando atividade neurológica excessiva, a mudança na execução dos sentidos é mais acentuada, pois a percepção fica alterada.

Nessas situações, o sujeito a partir dos seus sentidos, apreende o mundo de forma muito particular e não deixa espaço para a dúvida sobre sua experiência sensorial. Ou seja, não supõe que está enganado. Ele tem certeza do que vê, do que sente na pele, dos cheiros que sente, do que ouve. Ocorre Rigidez de Pensamento.

Como exemplo de alteração bioquímica em nosso cérebro, temos a contribuição da Dopamina (neurotransmissor). Por exemplo, nos casos de Esquizofrenia, a Dopamina (junto a outros fatores), conforme a hipótese da Dopamina, causa excessiva estimulação neurológica no lobo temporal e lobo frontal, levando ao surgimento do que chamamos sintomas floridos (as alucinações e os delírios) .

Conforme o DSM-V, a Alucinação não ocorre a partir de um estímulo externo, são vívidas e claras e não estão passíveis ao controle daquele que as está percebendo.

Os pacientes que no curso de seu transtorno mental apresentam alucinações demonstram bastante sofrimento e isso quase sempre se constitui em um limitador da convivência social e/ou familiar. Ouvir vozes com conteúdo hostil , ouvir vozes com ordens de suicídio ou homicídio podem trazer um sofrimento para além do próprio paciente, acometendo a família como um todo. A literatura traz que os conteúdos das alucinações principalmente nos casos de Esquizofrenia quase sempre tem a ver com a trajetória de vida do sujeito, às vezes as vozes são atribuídas pelo paciente a alguém importante do seu círculo afetivo no passado.

Em alguns casos de pacientes com crença religiosa, as vozes podem ser atribuídas a Deus ou ao Demônio. Ou seja, o conteúdo das alucinações tem a ver com as vivências do paciente. No entanto, devido a Dopamina nos lobos frontais (juízo, controle de impulso) e temporais (memória) no cérebro estarem acontecendo de forma incoerente devido a concentração alterada de neurotransmissor, as memórias de longo prazo tendem a se confundir com as memórias de curto prazo, ou seja, com as experiências do presente dando características de incoerência sensorial ao paciente.

A Alucinação é um sintoma, não é um diagnóstico. Dessa forma, pode se apresentar em uma gama de Transtornos Mentais, como Transtorno Afetivo Bipolar, Depressão Maior, Transtorno da Personalidade Borderline – sendo mais frequente na Esquizofrenia.

A alucinação se apresenta não somente no âmbito de casos psiquiátricos propriamente ditos, ela também pode ocorrer devido a intoxicação por drogas (álcool, cocaína) ou a uma outra condição clínica ( epilepsia de lobo temporal) por exemplo.

Bem, mas o que fazer com esse sintoma? 

Nos casos em que o paciente é acometido por alucinações, o tratamento farmacológico é crucial e se dá com neurolépticos também conhecidos como antipsicóticos (Haldol, Risperidona, Queatiapina, etc.) conjuntamente com medicações de outras classes como Antidepressivos (Fluoxetina, Amitriptilina, Paroxetina, etc), e outros, sempre com prescrição e acompanhamento médico.

A medicação principal, bem como o uso de uma ou mais medicações, fica a critério médico, podem ser de uso contínuo ou somente durante a crise aguda dependendo além da avaliação médica, do diagnóstico associado ao paciente, do transcurso da patologia, da rede de apoio, entre outros. Cada caso é um caso.

Em alguns transtornos as alucinações tendem a desaparecer (Transtorno Bipolar), em outros continuarão acompanhando o paciente por longa data como nos casos específicos de Esquizofrenia.

Em situações de melhora, a partir da farmacoterapia, é possível suscitar no paciente a possibilidade de desconfiar daquilo que percebe e utilizar alguém de sua confiança para realizar o que chamamos de “Checagem da Realidade”, dessa forma o paciente aprende a discernir a realidade da Alucinação. Tal procedimento traz maior qualidade de vida ao sujeito, diminuindo a ansiedade que acompanha os momentos de alucinação e potencializando a socialização do paciente, sem claro dispensar a farmacoterapia.

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Maria Luiza Rodrigues
Psicóloga(CRP 07/19741) graduada pela PUCRS, Sócia da Associação de Terapias Cognitivas do Rio Grande do Sul,administradora da página "Psicologia em Palavras Simples", colaboradora do Blog "cinquentaanos",tem experiência por mais de 20 anos de trabalho enquanto Monitora na Rede de Assistência Social de Alta Complexidade, pertencente à Fundação de Assistência Social e Cidadania( FASC) em Porto Alegre/RS

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