Pendure seu preconceito nos chifres deles: o fetiche desses homens é justamente ser Corno. Não se trata do corno tradicional, arrasado depois de flagrar a mulher com outro na cama. Ele PEDE que ela faça isso. Segundo uma pesquisa da Sexlog, a maior rede social para adultos no Brasil, a fantasia sexual mais procurada pelos usuários do Sul e Sudeste foi Cuckold.

Para a maioria dos homens, saber que sua mulher teve um caso com outro é a pior situação que podem enfrentar em um relacionamento amoroso. Porém, o que representa sofrimento para uns funciona como fonte de excitação para outros. Existem homens que gostam de exercer esse papel. São os chamados cuckolds, indivíduos que sentem prazer no relacionamento sexual de suas mulheres com outros homens.

O termo em inglês cuckold vem de cuckoo (cuco), em referência ao pássaro que engana outras aves, depositando ovos em seus ninhos para que elas criem seus filhotes. Em português, é comum o uso da palavra corno ou corno manso. Quem tem esse fetiche aprecia imaginar, ver ou participar de uma transa da parceira com outro homem.

Como Acontece?

Por exemplo, a mulher sai pra encontrar outro cara e conta detalhes do sexo quando chega em casa – em alguns casos, vale até gravar a traição para assistirem juntos. Tudo depende do acordo entre o casal. Pode ser que ela leve o amante pra transar no quarto enquanto o marido fica atrás da porta ou no quarto ao lado apenas ouvindo. Pode ser que o tesão do Corno seja só ficar observando ou entrar no meio da brincadeira de vez em quando.

“Eu adoro ser corno”, diz, sem titubear, o engenheiro André (nome fictício), 30, casado há seis anos e autor do blog “Corno & Manso”. Ele conta que descobriu esse desejo ainda na época do namoro, quando depois de uma briga, a mulher o traiu. Apesar de ter ficado arrasado, André lembra que sentiu algo diferente que não sabia explicar. “Durante uma de nossas transas, pedi para que ela me desse detalhes do que tinha feito com o outro cara”, relembra sobre como começou a viver essa fantasia.

Depois de alguns anos apenas imaginando a situação, André resolveu colocar em prática o fetiche, partilhando sexualmente sua mulher. “É um prazer indescritível. Um homem que tem essa fantasia sente-se muito excitado ao ver sua mulher com outro”, explica.

Mesmo tendo uma essência comum, o desejo voluntário de ser corno, cada cuckold tem suas fantasias e limites. Alguns sentem prazer em participar do ato sexual, assistindo, estimulando, filmando ou às vezes consumindo o sêmen do parceiro escolhido, e outros preferem apenas ouvir os relatos das aventuras sexuais da mulher.

Por que?

Vixe, existem várias suposições. Alguns homens têm prazer quando são humilhados e colocados em posição de submissão. Outros, veja que ironia, têm medo da traição… então preferem que ela aconteça numa situação em que estão, de alguma forma, no controle. Há aqueles que se gabam de “ter” (namorar ou ser casado com) uma mulher objeto de desejo de desconhecidos. E, ainda, os Cornos que ficam excitados ao assistir suas amadas realizando novas fantasias, como o exibicionismo.

O universo das fantasias é muito amplo para ser generalizado. Mas, entre os cuckolds, um elemento recorrente desse desejo consiste no prazer pela humilhação, segundo o psicólogo Maurício Amaral de Almeida, formado pelo Instituto de Psicologia da USP (Universidade de São Paulo) e que desenvolve estudos na área de sexualidade humana e comunidades fetichistas.

O psicólogo explica que, no mundo fetichista, os participantes dividem-se em tops, aqueles que gostam de exercer o poder, bottoms, que querem ser objeto de poder, e switchers, pessoas que alternam esses papéis. “O homem praticante do cuckold se encontra no espectro bottom, isto é, o seu prazer se origina em se sentir objeto de poder, da sua mulher e eventualmente do homem que a possua”, esclarece.

O funcionário público Ulisses (o sobrenome foi omitido para preservar sua identidade), 32, criador do blog “Sonho de Manso”, descreve o prazer que encontra na humilhação: “Gosto de ficar em segundo plano, ser lembrado sempre, mas levemente humilhado pela sensação de ceder a posição de macho alfa”.

Apesar de não se considerar bissexual nem cogitar uma relação homoafetiva, ele não rechaça o contato com outro homem durante a prática do cuckold. “No contexto sexual, envolvendo a satisfação da mulher e seu macho alfa, eu e boa parte dos cuckolds aceitamos servir sexualmente, se isso convier a todos”, afirma Ulisses, que foi casado por oito anos e atualmente está separado.

Esse comportamento não é uma regra. Existem cuckolds que preferem não ter nenhum tipo de contato físico com o “amante”. Mesmo que exista o envolvimento sexual, geralmente isso não tem ligação com a homossexualidade, já que o típico cuckold gosta de se relacionar com mulheres, preferencialmente dominadoras. Embora possa haver casos isolados, na maioria das vezes, o cuckold não envolve a compensação de homossexualidade não assumida.

E as mulheres que gostam de ser “cornas” existem?

Existem sim, e o termo usado nesse caso é cuckquean. Cuckquean é a versão feminina do fetiche cuckold. Se no cuckold é o marido que é corno de uma mulher dominadora, no cuckquean é a mulher que se torna corna de um provedor.

Embora sejam fetiches parecidos, ambos têm dinâmicas e motivações diferentes. A primeira coisa a é deixar claro que cuckquean não é ménage. No ménage, três pessoas fazem sexo em condição de igualdade, no cuckquean cada um tem sua função. A da corna é, essencialmente, providenciar as condições para que o marido a amante tenham o máximo de prazer possível.

O prazer da cuckquean está justamente nisso, em proporcionar prazer aos dois e no orgulho da performance sexual do marido. Existem vários tipos de cuckquean. Há algumas que apenas liberam seus maridos para que se relacionem com outras mulheres, há aquelas que gostam de assistir e há as ajudantes. Nessa última categoria, a esposa ajuda o marido a comer a amante. Ela pode, por exemplo, fazer oral na amante para deixá-la lubrificada, pode providenciar camisinha, pode servir o casal enquanto transam. Nesse último tipo, a esposa literalmente cuida da amante: penteia seus cabelos, serve o café da manhã, providencia o banho, passa cremes em seu corpo, tudo para deixá-la feliz e bonita para o provedor.

A carioca M. White, de 23 anos, já viveu o fetiche dos dois jeitos: sendo a pessoa “traída” e também a parte “traidora”. Hoje, ela prefere não assumir o lado submisso da encenação, mas gosta muito da prática. “É uma forma diferente de observar o outro, ver seu parceiro com outra pessoa é uma coisa muito satisfatória. Eu descobri o nome muito depois de já ter feito a prática. Eu sabia que eu gostava, um namorado me mostrou que gostaria de se colocar nesta situação”. Ela conta que, quando estava só assistindo seu parceio ficar com outra pessoa, não gostava de ser chamada de “corna” e outros adjetivos, mas que as mulheres com quem pratica “cuckquean” hoje gostam de ouvi-la dizendo estas coisas.

White afirma que nunca foi traída antes, e que é preciso muita conversa para dar certo. “Quando você trai, a pessoa não sabe, não existe a concordância, fazem tudo às escondidas. Comunicação é fundamental, e encontrar pessoas compatíveis é o mais importante. Não adianta comunicar seu parceiro, ele dizer que não gosta e você tentar forçar a barra”, afirma a dominadora.

É preciso ter acordos muito claros

Carla Zeglio, diretora e psicoterapeuta sexual do InPaSex – Instituto Paulista de Sexualidade, afirma que, em seu consultório, os pacientes sabem que é tudo uma brincadeira. “A grande maioria dos casais não se chama de ‘corno’, eles só afirmam que colocaram uma terceira pessoa na relação e que foi bom para eles. E quando a mulher vê o marido com outra neste contexto, ela não vê como uma humilhação, para ela é uma forma de obtenção de prazer”.

Carmita Abdo, psiquiatra e coordenadora do Programa de Estudos em Sexualidade da Universidade de São Paulo, explica que o tesão em ser “feita de corna” no plano da fantasia é como o sadomasoquismo: ele não é mais tratado como um problema ou transtorno quando é feito de forma saudável e quando todos os envolvidos estão satisfeitos. “Quando, numa relação sadomasoquista, todas as partes estão em comum acordo, é uma situação que só diz o respeito ao casal e que não precisa ser tratada clinicamente. Isso é restrito ao ato sexual”, afirma.

Ela também diz que “cuckqueans” não desenvolvem este fetiche só porque foram traídas antes, mas pode acontecer. O que ocorre é que elas podem ter descoberto que a dor da rejeição pode trazer prazer também. “Mas não podemos generalizar, dizendo que toda mulher que tem esse fetiche foi traída ou que toda mulher que for traída terá esse fetiche. E não significa que as pessoas descobrirão o fetiche após a traição. O prazer existe dentro do jogo sexual, do ato.

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Psicólogo. Idealizador do Pensamento Líquido. Apaixonado por filmes de terror, seriados, animes, mangás e livros de aventura. Não dispensa uma boa comida e bebida na companhia de amigos, especialmente se for pra curtir um bom e velho rock n roll.

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