Inicialmente, vamos compreender a noção de resiliência. A vida é por si só uma batalha. O espermatozoide  vence milhões de outros até encontrar um óvulo e ao penetra-lo,  forma uma célula ovo, o princípio da vida humana intrauterina.

Há sempre uma luta na vida humana  desde o seu princípio. A luta da vida nem sempre requer força física, mas sempre necessita de “força interior”, que vem da mente e não do corpo. Suportar as frustrações por aqueles planos que fizemos com tanto empenho e deram errado, suportar o luto por alguém que se foi, seja por morte, seja por laço afetivo desfeito, dar a volta por cima, reinventar-se são expressões da “força interior”.

Bem, isso que popularmente chamamos de “força interior” é a resiliência, ou seja, manter-se em desenvolvimento apesar das adversidades. Quando a resiliência falta, temos a ansiedade, o desespero e a desesperança, fica mais difícil montar “um plano B”, refazer-se depois de ” um golpe da vida”.

Por que uns têm  facilidade para dar a volta por cima e outros, nem tanto?

Edward John Mostyn Bowlby foi um  psiquiatra e psicanalista britânico,  nascido em  1907, que se destacou tendo como interesse-alvo o  desenvolvimento na infância. Ele nos trouxe o conceito de apego seguro.

Bem, após a Segunda Guerra Mundial, havia muitas crianças sem seus genitores  e em instituições e também mulheres sozinhas e com filhos, muitos homens haviam morrido nas batalhas. Essa situação causava grande preocupação. Assim, Bowlby realizou um trabalho junto à Organização Mundial da Saúde no pós-guerra na década de 50 , em que pôde observar a importância dos cuidados maternos qualificados  nos primeiros anos de vida do bebê e também as consequências, quando esses cuidados não eram satisfatórios.  Assim sendo, através de pesquisas de Bowlby e outros, foi possível provar de forma concreta os danos causados pela privação materna.

Através de colaboradores e de suas pesquisas, como  Mary Ainsworth( psicóloga norte americana 1913/1999), tendo como base o sistema de apego, sistema este inato aos mamíferos,   Bowlby vem a  formular  a  teoria do apego. O conceito de apego seguro  vem contribuindo, dentre outros aspectos, para entendermos a possibilidade da construção psíquica de  pessoas  mais esperançosas, calmas e equilibradas emocionalmente.

A teoria do apego nos traz a noção de que todos os mamíferos, nos seus primeiros anos de vida, necessitam ter suas necessidades básicas atendidas por um outro ( cuidador), isso se repete em todos os mamíferos e nós, humanos, não ficamos de fora dessa conclusão. A teoria do apego  aponta a noção do sistema de apego. O sistema de apego   no bebê é ativado toda vez que a homeostase ambiental( equilíbrio entre o bebê e o ambiente) é quebrada (mudanças repentinas de  temperatura, sons estridentes que podem causar medo, fome, etc ) o bebê chora e sinaliza a necessidade de ajuda.

Quando a mãe ou cuidador atende o bebê, ajudando-lhe através do colo, do tom de voz suave, trazendo-lhe paz e calma, quando sua fome é aplacada, quando, de uma forma geral, seu desconforto é sanado pela mãe /cuidador, o sistema de apego é desativado, ocorre a experiência da regulação emocional. A criança internaliza  a ideia de que, depois da angústia, virá a calma, a paz,  o sentimento de desconforto  não será para sempre, o conforto virá  dado por outro. Assim, a ideia da existência de um devir  positivo é internalizada, é o plantio do sentimento de  esperança.

Quando o sistema de apego é ativado através do choro e a mãe /cuidador,  costumeiramente, aplaca o desconforto sinalizado  pelo bebê, constrói-se o apego seguro, o contrário disso será o apego inseguro. A continuidade dos cuidados maternos com rotina e afeto ajuda o bebê a se estruturar psiquicamente, podendo este antecipar os acontecimentos e, assim, ficar mais tranquilo.

Através  do cuidado da mãe ou cuidadora, o sistema de apego é desativado, as sensações desagradáveis  cessam, o  apego seguro  traz à criança  a possibilidade  de retorno à  homeostase ambiental. Quando o  sistema de apego não é desativado, o bebê fica com a sensação da angústia e do desespero, não conseguindo retornar ao equilíbrio com o meio.

O apego seguro está associado ao  desenvolvimento de adultos   com melhor desempenho emocional, mais esperança, menor ansiedade, maior sucesso na vida social (família, trabalho, amigos). Já o Apego Inseguro está ligado a maior probabilidade de um adulto sem esperança, com maior ansiedade e até desespero.

Conforme Antoine Guédeney,   Psiquiatra Infantil no Hospital Bichat Claude Bernard,  também o apego está ligado  à  biologia e à anatomia cerebral, esse período dos três primeiros anos são os de maiores transformações.

Pesquisas apontam que a vivência de  estresse  através de um cuidado negligente na infância, portanto formador do apego não seguro, está associado a um aumento de cortisol e também aumento do  volume da amigdala cerebral, o que predispõe,  de forma mais fácil, a vivências de ansiedade e desregulação emocional,  não só na infância, mas também na vida adulta.

A criança  que teve estabelecido  apego seguro com sua mãe/ cuidador tem as bases  para  ter uma resiliência maior, ou seja, maior resistência para suportar as frustrações da vida, pois tende a ter maior  esperança e equilíbrio emocional. Contudo, é importante ressaltar que o apego seguro fornece a base da resiliência, mas não toda ela.

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Potencializando  a  Resiliência

A resiliência não é um continuum, mas pode se manifestar em um setor da vida mais do que em outro. A resiliência também precisa ser “alimentada pelo meio”,  tanto na infância quanto na vida adulta, pois pode vir a ficar menor  dependendo da história de vida do sujeito  em contraste com sua rede de apoio.

Cultivar  pessoas próximas que fortaleçam a sua autoestima é importante, ou seja, fique perto de quem gosta de você. Afaste-se de pessoas com pensamentos e atitudes destrutivas. Alimente a  visão da existência de um futuro, tente com todas as suas forças cultivar a esperança, mesmo que os pensamentos negativos lhe invadam quase sempre.

Procure entender o que lhe acontece e o que sente, procure saber o significado e o grau de sua  participação nos acontecimentos da sua própria vida, deixando de lado o papel de vítima. Trabalhe estratégias de enfrentamento, pois “o jogo nunca está perdido”. Procure cultivar relações interpessoais sadias, não causando mágoas ou opressões aos outros, e nem em você mesmo. Assim,  é mais fácil  conseguir aumentar sua rede de apoio: amigos, familiares, o pessoal do posto de saúde, da escola, do trabalho, da faculdade, dos vizinhos, etc.

Pegue um papel e liste suas vitórias, suas conquistas. O que você sonhou e realizou? Ahhh…qualquer uma, mesmo que pequena, é SUA vitória, valorize! Leia  sua lista e pense sobre suas vitórias, o que fez (as estratégias que utilizou) para que elas acontecessem. Liste, leia para si mesmo,  também os seus sonhos, mesmo aqueles que você na sua costumeira negatividade, diz que jamais conseguirá. Essas estratégias fortalecerão sua memória voltada aos fatos positivos da sua vida e servirão de combustível para aumentar o seu senso de “poder  realizador” elemento importante da força interior.

Quando temos esperança, quando reconhecemos o quanto já fomos capazes de resolver as encrencas da vida, temos mais resiliência, ou seja, damos a volta por cima! Caímos, mas levantamos.

Poucas palavras, mas muito trabalho, porém não demais, não demais o suficiente para nos paralisar, certo? Vamos potencializar a nossa resiliência?

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Maria Luiza Rodrigues
Psicóloga(CRP 07/19741) graduada pela PUCRS, Sócia da Associação de Terapias Cognitivas do Rio Grande do Sul,administradora da página "Psicologia em Palavras Simples", colaboradora do Blog "cinquentaanos",tem experiência por mais de 20 anos de trabalho enquanto Monitora na Rede de Assistência Social de Alta Complexidade, pertencente à Fundação de Assistência Social e Cidadania( FASC) em Porto Alegre/RS

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