Segundo Gambini (1988) a teoria freudiana sobre a projeção, termo emprestado da neurologia, seria um mecanismo de defesa relacionado à repressão e ilusão paranoica que apresenta distorção da realidade, onde o ego não é capaz de lidar com um determinado conteúdo que o incomoda e então este conteúdo é reprimido do campo consciente, também implica em atribuir a terceiros elementos que se encontram na própria pessoa e que ela possui dificuldades em aceitá-los como seus, como sentimentos de hostilidade e atitudes agressivas ou desejos sexuais reprimidos, representando assim externamente um conteúdo interno, mas de forma distorcida, protegendo o ego de tais impulsos.

A projeção, para a psicanálise, estaria atribuída à função de elaboração de uma visão psicótica da realidade. Todo o simbolismo contido em crendices, superstições e no folclore, para Freud também não passavam de impulsos reprimidos de caráter cruel e hostil, enquanto que esses simbolismos na realidade possuem rico material significativo de expressão do inconsciente coletivo, mas Freud deixou esses conceitos de superstições positivas de lado, pois sua preocupação estava nas manifestações mal intencionadas escondidas no inconsciente.

Desse modo, também se afirmaria que a paranoia e o processo de formação dos sonhos possuem similaridade entre si, sendo esta a conclusão de Freud sobre os sonhos, o sonhar é um ato narcísico, onde a libido se volta para o ego a fim de satisfazer os desejos reprimidos de forma alucinatória, sendo então o sonho uma projeção que externaliza um processo interior, todo sonho conteria elementos distorcidos frutos de censura.

Para Gambini (1988), não se encontra nas obras de Jung uma definição específica de projeção, ainda que o seu conceito apareça em diferentes contextos de maneira consistente em todo o seu trabalho. Para Jung a projeção não estaria associada à repressão nem a algo diretamente patológico, ela seria para ele um evento intrínseco à psique humana.

Através da projeção, conteúdos do inconsciente vêm à tona, ocorrendo de modo involuntário, assim sendo, o indivíduo não tem como saber quando uma projeção está ocorrendo e não pode produzi-la voluntariamente ou impedi-la de acontecer, ele pode no máximo reconhecer algo que em um primeiro momento parecia pertencer ao objeto, na realidade, pertence a ele próprio, mas isso nem sempre acontece dessa forma.

Aquilo que é desconhecido estimula o acontecimento da projeção, pois ela se coloca diante do observador como algo diferente da realidade, este conhecimento ajudou Jung na compreensão do sentido da alquimia. No fenômeno da projeção o ego não é projetado, mas sim o inconsciente, ocorrendo nas lacunas dos pensamentos, se formando como a consciência que o homem tem do mundo, o que desencadeia este fenômeno seria um “complexo autônomo”, posto que os conteúdos devem ser aceitos como reais, ora se tornaram manifestações vistas como “verdadeiras” para o mundo exterior.

À vista que a projeção trará um relacionamento irreal com o espaço, o tornando inalcançável, ao passo de que quanto maior a quantidade de projeções, maior será a dificuldade de enxergar a realidade, afinal todo o indivíduo tende a crer que o mundo seja da forma como imagina e não há um teste de realidade que venha a provar o que é projeção e o que é real. Os conteúdos projetados podem superestimar o valor do objeto em questão, sem perceber que a “imago” (imagem) pertence a si próprio.

A empatia também está relacionada com a projeção, pois o indivíduo se sente no objeto, já a abstração seria uma projeção negativa e ameaçadora. Entende-se que quando duas pessoas constelam o mesmo complexo ocorre uma projeção, resultando em atração ou repulsa mútua. Para Jung não se usa o termo repressão, afinal estes conteúdos sequer chegaram à consciência ou desapareceram.

A projeção simplesmente ocorre, ela não é feita de modo consciente, deixando a visão do indivíduo reduzida, não o permitindo ver com clareza o outro. Para que haja a projeção é necessário que o objeto seja lançado e possua algo que o retenha se constituindo como um “gancho”, o objeto em questão deverá aceitar ou não a projeção, esta problemática está ligada à projeção de anima e animus.

Nos quatro estágios da projeção, o primeiro refere-se a uma equivalência entre o mundo interno e o mundo externo, enquanto o segundo fala sobre a separação entre a natureza e o homem, separando o objeto concreto do conteúdo inconsciente, já o terceiro menciona a questão moral, onde se vê a projeção como algo irreal e mal intencionado, por fim o quarto estágio diz que a psique inconsciente é responsável tanto pelo homem, como por sua realidade física.

Gambini (1988) mostra que através de um procedimento auto-reflexivo pode-se descobrir o que está por trás da projeção, porém não se aplica a todos, desta forma as projeções podem ou não ser um caminho para a sabedoria. Um conteúdo não perde a sua veracidade apenas por ter sido projetado, afinal sua autenticidade está no campo psíquico, sendo a psique a “realidade por excelência”.

Os estudos de Jung dedicados a alquimia revelam elementos sobre a consciência coletiva, uma questão que só poderia ser trabalhada de modo inconsciente pela projeção, quanto mais primitivas forem às projeções, maior será o valor heurístico que elas possuem. Para lidar com o material inconsciente é necessário possuir conhecimento, deixando de lado opiniões subjetivas.

REFERÊNCIA:

GAMBINI, Roberto. O espelho índio: a formação da alma brasileira. 2ª edição, São Paulo: Axis Mundi, 1988.

Fonte original https://psiqueempalavras.blogspot.com

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Alessandra & Jhéssica
Somos duas estudantes do curso de Psicologia e resolvemos criar um blog com o intuito de compartilhar nossos estudos realizados durante a nossa graduação desde o início da nossa jornada em 2014, esperando que estes textos também possam servir como alguma espécie de auxílio para outras pessoas que também venham a se beneficiar de tudo aquilo que viemos aprendendo.

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