As gavetas são necessárias para organização em nossa casa, no escritório ou na empresa. Guardamos objetos, vestuário e o que mais precisarmos para liberar o espaço de circulação e trazer harmonia ao ambiente.

Na intenção de organizarmos nossa mente e harmonizarmos o nosso espaço psíquico, também utilizamos gavetas, as quais eu denominaria de ” gavetas da alma,” pois guardamos ali os restos das nossas feridas emocionais, nossas  desilusões e tristezas. Contudo, quanto mais guardamos nossas emoções, mais adoecemos, mais nos desorganizamos e menos construímos  nossa  harmonia interna, assim dando origem a um adoecimento psicossomático.

J.C Heinroth, psiquiatra alemão, foi o primeiro a utilizar o termo “psicossomática”, em 1818, ao tratar sobre insônia e epilepsia. Quando afirmamos que uma doença é psicossomática, estamos  dizendo que ela tem a sua etiologia na administração das emoções. Contudo,  a doença psicossomática expressa sintomas no corpo, é concreta e exige tratamento médico e não somente psicológico.

Por vezes, acontece de confundirmos doença psicossomática causadora de um dano no soma de forma real com os Transtornos Somatoformes, nos quais aparecem sintomas físicos, mas, quando investigados clinicamente, não apresentam constatações de alteração orgânica. Pode ser o caso de pessoas que subitamente perdem a visão sem, entretanto, apresentarem qualquer alteração clínica no olho e  permanecem sem visão por um bom período. Há outros relatos, casos de dor no estômago, também sem alteração clínica constatável após exames médicos. Nesse caso, eles podem vir a ser enquadrados como um distúrbio Somatoforme, não psicossomático.

Esclarecida a diferença entre doença psicossomática e Transtorno Somatoforme, vamos falar agora sobre o que pode constituir a causa das doenças psicossomáticas e quais são as mais comuns.

As doenças psicossomáticas apresentam sua origem na má administração das emoções, em que a pessoa não apresenta condições de reconhecer  suas emoções.

Mas como isso acontece?

Os cuidados maternos ou do cuidador principal na infância são os responsáveis por ajudar o sujeito, mais tarde,  a saber o que sente e o que faz com suas sensações, emoções e sentimentos. Quando a mãe cuida seu filho durante o choro, por exemplo, e consegue identificar as suas necessidades, como fome, frio, calor, medo ou pura necessidade de carinho, o bebê  aprende respostas às suas sensações  e faz ligações com seu estado  mental antes e depois  da necessidade atendida.

Assim que cresce e aprende a linguagem falada a partir da mãe e as demais pessoas com as quais tem contato,  aprende a nomear  o que  sente, como raiva, medo, desejo de contato com o outro, fome,etc. Esse aprendizado dá-se de forma natural a partir de uma convivência saudável entre mãe, filho e o meio.

Entretanto, quando isso não acontece, o sujeito não aprende a correlacionar o que sente com seu estado mental e consequente alteração física, de forma que não conhece suas emoções, não as administra, acumula energia psíquica e causa um desarranjo nos órgãos do seu corpo, vindo a causar doenças, sendo as mais comuns hipertensão, úlcera gástrica, artrite e neurodermatose.

Emoções não são entes abstratos, emoções são arranjos orgânicos específicos a partir de um estímulo externo percebido, no caso, por nós humanos. Nas situações de prazer e desprazer, raiva, alegria, medo, ocorre um aumento de determinados hormônios e neurotransmissores, como cortisol,adrenalina, ocitocina, serotonina, dopamina essas e outras substâncias são liberadas na corrente sanguínea e acarretam respostas orgânicas às emoções que sentimos.

Pacientes psicossomáticos apresentam um padrão de pensamento mais empobrecido e acabam por agir mais do que se dedicar a refletir sobre si ou estar com alguém e conversar. Apresentam uma agenda a cumprir de forma imperativa, portanto tendem a ser mais fechados e esgotam-se a trabalhar, por exemplo, pois não conseguem reconhecer seu cansaço do corpo ou da mente.

Esse formato característico de se comunicar mais confuso e improdutivo foi denominado de Alexitimia, falta de palavras para as emoções. Esse constructo adveio de observações e de estudos  de consultas psiquiátricas com pacientes psicossomáticos clássicos, em que foi observado que  pouco ou nada falam das suas emoções, mas sim de sintomas somáticos.

Um problema psicossomático pode aparecer na infância ou na idade adulta, geralmente após seis meses a um ano, enquanto resposta a um  evento traumático (luto por morte  ou luto pela  finalização indesejada de algo: romance, saída dos filhos de casa, separação dos pais). Esses eventos despertam angústias.

Uma personalidade que não consegue reconhecer suas emoções acaba guardando “ nas gavetas da alma”,como eu digo, a percepção dessas emoções e não conseguem sustentar por muito tempo essa guarda, porque as emoções vêm a se expressar na  origem de um corpo adoecido.

A doença psicossomática ocorre como se o psiquismo, não sabendo o que fazer com aquilo  que não cabe nas “gavetas da alma”, ordenasse ao corpo: adoeça!

Por fim, o convívio carinhoso e atento da mãe, a família ou um cuidador com o bebê e a criança durante sua infância é o “tecido” sobre o qual o aprendizado emocional melhor se dará.Reconhecer e validar, eis as palavras-chave para o aprendizado emocional.

É decisivo dar às crianças a oportunidade do aprendizado das suas emoções e a forma como melhor administrá-las a fim de evitar o acometimento por doenças psicosomáticas em um futuro, às vezes não muito distante. A doença psicossomática é um grito de resistência de uma mente que sofre, mas que não raro não se dá conta desse sofrimento.

Referências

  • HOLMES, David S. – Psicologia dos Transtornos Mentais- 2º ed.-Porto Alegre: Artmed, 1997. 139p
  • NETO. Fulgêncio Blaya Perez- A linguagem do corpo: Características do paciente psicossomático.In. BARROS. Carlos Alberto Sampaio (Org). Psiquiatria para Leigo.2º Ed.Porto Alegre: Conceito, 2003.p.158-166
  • CERCHIARI, Ednéia Albino Nunes. Psicossomática um estudo histórico e epistemológico. Psicol. cienc. prof. , Brasília, v. 20, n. 4, p. 64-79, dezembro de 2000.

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Maria Luiza Rodrigues
Psicóloga(CRP 07/19741) graduada pela PUCRS, Sócia da Associação de Terapias Cognitivas do Rio Grande do Sul,administradora da página "Psicologia em Palavras Simples", colaboradora do Blog "cinquentaanos",tem experiência por mais de 20 anos de trabalho enquanto Monitora na Rede de Assistência Social de Alta Complexidade, pertencente à Fundação de Assistência Social e Cidadania( FASC) em Porto Alegre/RS

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