O suicídio é um fenômeno recorrente na história da humanidade, contudo esse ato  é sempre chocante,  antinatural, seja por questões religiosas ou científicas, deixando atrás de si um rastro de   pessoas com um sentimento profundo de desolação, ou seja muita tristeza pela perda de alguém estimado, alguém amado e uma sensação de impotência, pois a morte é algo não passível  de reversão.

A elaboração do luto pelo suicídio de alguém tem a sua trajetória mais complexa do que por outras causas de morte, tende a ser mais demorado, pode haver uma tendência daquele que fica a sentir-se culpado ou até mesmo ter raiva de quem partiu. Ser deixado de forma repentina e chocante é devastador.

No Brasil, as taxas de suicídio têm crescido entre a população jovem, conforme estudo da UNIFESP( Universidade Federal de São Paulo). O suicídio cresceu 24% entre 2006 a 2015 entre jovens das grandes cidades Brasileiras, essa causa mortis  é  apontada como maior na população masculina de 16 à 29 anos.

Alguns outros estudos estatísticos mostram as etnias indígena e negra também aumentado seus índices de suicídio, contudo o que se repete é a concentração de suicídio entre os jovens do sexo masculino em qualquer etnia.

Levando-se em conta que o estresse é um fator de risco, junto com os desafios da Adolescência e entrada da vida adulta, podemos começar a entender esses índices, mas as causas do suicídio podem ser muitas, desde características pessoais até o contexto social histórico do sujeito envolvido.

Contudo, o fio condutor dessas causas está sempre apoiado na  questão da desesperança. O sentimento de desesperança impede o sujeito de  vislumbrar possibilidades de   resolver  um ou muitos problemas. O grau de desesperança vem a ser um preditor  do potencial para cometimento do suicídio.

Distorção Cognitiva no suicídio

Pessoas propensas ao suicídio apresentam Distorção Cognitiva que vem a ser um formato rígido de apreender a realidade tendo como pano de fundo um viés de interpretação que se repete mesmo que o contexto das situações mudem. A distorção cognitiva é encontrada em diversos transtornos mentais. A seguir, algumas distorções cognitivas apresentadas por pacientes suicidas.

Rigidez

Um problema só apresenta uma solução sem outras alternativas ou não apresenta nenhuma solução. “ eu tenho que entrar na Universidade, essa é a única forma de eu conquistar um lugar na sociedade”- mas não há outras formas de ser alguém na sociedade? O que é ser alguém na sociedade?

Catastrofização

Um único fato representa algo do tamanho de uma catástrofe gigantesca, nada pode mediar o dano, a sensação  é  desespero. “ Rodei no vestibular, agora minha vida está acabada, jamais entrarei na universidade”- esquece que a vida continua em seus outros aspectos, enfim a vida não acabou.

Pensamento Negativista

Se expressa ao acreditar que as os planos não darão certo, daí melhor nem tentar. “ rodei no vestibular, estudei um monte …e nada! Nem vou tentar outra vez, dará tudo errado!”- Alguém de fato tem o poder de prever o futuro?

Generalização

Esta distorção cognitiva não deixa o sujeito suicida pensar em fatos de forma isolada. Um fato já representa toda a sua vida. “Rodei no vestibular. Nada dá certo para mim, tudo o que eu quero dá errado, a minha vida é uma droga”- toma esse fato como se fosse toda a sua vida e não apenas uma parte dela.

Pensamento Mágico

” se eu morrer, vou acabar com meu sofrimento”- mas quem de fato sabe se a morte dá paz? o que temos são suposições e crenças religiosas.

Ajudar a pessoa com intenção suicida a analisar essas distorções pode ser de grande contribuição à vida dela.

Por que acontece a distorção cognitiva?

Uma explicação biológica para a distorção cognitiva pode vir a ser a queda ou o aumento de neurotransmissores como  Serotonina, Dopamina e/ou   Norepinefrina entre outros elementos bioquímicos  no sistema nervoso. Por exemplo, um  quadro de depressão( baixa serotonina) pode se estabelecer levando à distorção cognitiva. A  tríade cognitiva visão negativa de si, do mundo e dos outros constitui um estilo de distorção cognitiva presente na depressão.

A baixa concentração de serotonina está presente nos quadros de ansiedade, estresse e outros transtornos que também apresentam a situação da distorção cognitiva. Já a Dopamina é um neurotransmissor mais envolvido na psicose onde ocorrem os delírios que são um extremo de Distorção Cognitiva.

O estresse também contribui para a ocorrência de distorções cognitivas, nesse estado ocorrem diversos descontroles para mais ou para menos de hormônios  além dos neurotransmissores já citados.

É  fato que pessoas que tem ideação suicida ou vieram a cometer o suicídio tiveram ao longo de sua vida mais eventos estressores do que outras que não cometeram o suicídio e não possuem  potencial para cometer esse ato.

É fato que a maioria das pessoas que possuem ideação suicida ou vieram a cometer o suicídio passaram ou estão passando por um transtorno mental e portanto, apresentando distorções cognitivas.

Ideação suicida  e  Comportamentos  de  Isolamento

Antes de o suicídio acontecer já está sendo criada toda uma atmosfera afim, é quando o tempo está para chuva, como eu digo. Nesse momento é que temos  o quadro de ideação suicida que são mensagens veladas  apresentadas por pessoas com potencial suicida durante o  seu processo de adoecimento até o suicídio, e é nesse momento do processo, o da ideação, que quem está próximo pode ajudar a evitar o pior.

É fato que quem cometeu suicídio quase sempre emitiu algum sinal anterior ao ato. É um mito pensar que quem fala que vai cometer suicídio não irá fazê-lo, a maioria das pessoas que cometeram suicídio comentaram com alguém o que pretendiam fazer. Essas falas não devem ser ignoradas. Também, mesmo que e as pessoas não venham a cometer suicídio, a partir dessas falas elas se caracterizam como apresentando um certo “descompasso” psíquico que merece atenção.

Leia também: Suicídio e Transtornos Psicológicos; Atenção aos 4 D: Depressão, Desesperança, Desamparo e Desespero

A ideação suicida pode conter elementos diretos ou indiretos que expressam o desejo da morte. Falas ou pensamentos como “eu quero morrer” (forma direta) a pensamentos negativos à cerca de si mesmo como: “eu sou  inútil”, “eu sou um  derrotado”, “eu não tenho perspectivas”, “eu gostaria de sumir”, “ eles ficariam melhor se eu não existisse”. Tais ideias quando expressas  devem  gerar um  alerta  com relação ao suicídio, também quem tem essas ideias pode refletir sobre elas e procurar ajuda psicológica e/ou médica.

O ato de se isolar voluntariamente, tanto deixando os amigos, quanto se isolando de seus familiares em casa, isolando-se no quarto para atividades solitárias, ficar deitado  na cama  sem estar dormindo, o interesse súbito  e demasiado sem fins profissionais pelo tema do suicídio na forma de notícias também deve gerar um alerta. Tais elementos indicam que a pessoa pode  não estar bem emocionalmente, esta situação pode constituir parte de um  transtorno mental em andamento  com potencial suicida.

Como é possível ajudar a reverter ideias de morte em um suicida?

A ajuda de quem está próxima pode vir através de uma conversa onde se possa apreender o drama que  o suicida em potencial está vivendo. O problema, do ponto de  vista do  suicida, tem uma  única possibilidade de resolução, a morte.  No entanto, os problemas muitas vezes tem mais de uma solução, contudo o suicida é acometido de um afunilamento no pensamento. Ajudá-lo a encontrar possibilidades de resolver os problemas ou suportá-los( resiliência) é um começo.

Leia também: O que não dizer para uma pessoa que pensa em suicídio?

Na vida, há sempre um preço a se pagar por uma ou outra opção para resolver um problema, às vezes potencializar   forças para enfrentar  “o preço” de uma ou outra opção é uma ajuda. Os desafios podem ser: enfrentar um estilo diferente de vida  a partir de uma limitação de ordem física, financeira, morar em outro lugar, mudar  de  profissão, aceitar a perda de um amor, admitir sua orientação sexual e fazer os outros saberem disso, etc.

Ativar a possibilidade de outras formas de resolver um problema, outras formas de viver, reinventar-se, pode vir a evitar o ato suicida.

Conversar sobre a possibilidade da  existência de  variados estilos de ser e estar, de viver , entender que a felicidade não tem um modelo, não tem de fato um roteiro ou seja não é rígida ajuda a afastar a morte enquanto possibilidade de ato diante daquilo que é tido como insuportável. Flexibilidade mental, emocional, itens necessários para não tomar atitudes extremas e danosas como o suicídio.

Procurar ajuda em saúde mental nos postos de saúde e CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) de sua cidade e região, um psicólogo, psiquiatra ou qualquer trabalhador na áreas da saúde mental  constitui essencial recurso  enquanto ajuda a um suicida em potencial.

Transtornos mentais como Depressão, Bipolaridade, Transtorno Psicóticos em especial esquizofrenia, abuso de álcool ou outras drogas, Bulimia, Anorexia, história de suicídio na família  são elementos que contribuem para  a questão do suicídio, pessoas acometidas desses transtornos tem mais chances de vir incorrer  no suicídio e devem ser observadas quanto a questão dessa triste  possibilidade.

O suicídio não é um ato heroico ou covarde, mas sim, na maioria dos casos, a expressão de uma profunda desesperança. O suicídio não resolverá qualquer problema. A maioria das pessoas que tentam suicídio está acometida de um transtorno mental e não está cognitivamente bem para avaliar, sem ajuda externa, as situações da vida, a maioria não quer morrer, quer apenas aliviar a dor profunda que sentem, estão ambivalentes. A

maioria  dos suicidas dá sinais do desejo de morrer  e estes sinais não devem ser ignorados. Potencializar o tratamento em saúde mental, em alternativas de resolução de problemas é a melhor ajuda que podemos prestar a alguém que pensa em dar fim à sua vida.

O CVV Centro de Valorização da Vida (associação civil sem fins lucrativos) também é uma alternativa importante de ajuda, atende pelo número 188, a ligação é gratuita ( devido a parceria com o Ministério da saúde), atende 24h ,esse número é o mesmo em todo o Brasil.

No CVV existem pessoas capacitadas para escutar e prestar ajuda em casos de possibilidade de   suicídio tanto ao paciente identificado quanto a amigos e familiares de um suicida em potencial que necessitem de informações para poder melhor ajudar a quem amam.

Referências

  • HOLMES, DAVID S. – Psicologia dos Transtornos Mentais. 2º ed.-Porto Alegre:Artes Médicas, 1997
  • BARROS, Carlos Alberto Sampaio Martins de- Psiquiatria para Leigo.Porto Alegre:Ed.conceito, 2003
  • NEUFELD, Carmem Beatriz, FALCONE, Eliani Mary de Oliveira, RANGÉ,Bernard- Procognitiva Programa de Atualização em Psicoterapia Cognitivo Comportamental: ciclo 5 -Porto Alegre: Artmed Panamericana, 2018
  • http://www.dive.sc.gov.br/barrigaverde/pdf/BarrigaVerde%20Suicidio.pdf
  • https://oglobo.globo.com/sociedade/suicidio-brasil-registra-aumento-de-2-no-numero-de-mortes-desse-tipo-em-um-ano-23086007
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Maria Luiza Rodrigues
Psicóloga(CRP 07/19741) graduada pela PUCRS, Sócia da Associação de Terapias Cognitivas do Rio Grande do Sul,administradora da página "Psicologia em Palavras Simples", colaboradora do Blog "cinquentaanos",tem experiência por mais de 20 anos de trabalho enquanto Monitora na Rede de Assistência Social de Alta Complexidade, pertencente à Fundação de Assistência Social e Cidadania( FASC) em Porto Alegre/RS

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