Você está no trabalho, está atarefada, mas lembra que tem de chegar a casa e preparar o jantar. Você não lembra bem o que tem na geladeira, fica assustada. Então, pensa: “Não dará tempo de passar no supermercado, estou com pouco dinheiro” ou “Hoje não é um bom dia para comprar com o cartão”. Pensa também: “Todo mês esse aperto, tenho que mudar de emprego…”. Lembra que o índice de desemprego está assustador, olha para pilha de trabalho do escritório, “Nossa! o tempo está passando…e daqui a pouco o chefe vai me  pedir os relatórios”.

Você começa a pensar na viagem de férias: “Todos juntos, que legal!”, “Mas será que  as crianças irão brigar? Tenho que conseguir um hotel com área de lazer bem grande. Será que acho? Esse tipo de hotel sai caro(todavia, ainda não verificou os preços atuais), tenho que pedir aumento, mas a empresa anda demitindo …então se eu falar  que desejo um aumento,talvez  eu seja mandada embora”. Logo,uma linda viagem de férias levou a pensar na péssima hipótese de ser demitida.Nesse momento, a pessoa já está ansiosa. E como!

Bem-vinda ao clube dos ansiosos! De uma forma geral, essas características de pensamento acima apresentadas são típicas de pessoas ansiosas com Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG).

A ansiedade é fenômeno natural de reação ao meio, presente em nós humanos há muitos anos.Nosso sistema sensorial apreende o mundo que nos cerca, de todas as formas que nos são possíveis(imagens,cheiros,sons, texturas, gustação), essas impressões são acolhidas em nosso cérebro pelo córtex temporal polimodal, local onde acontece uma síntese que representa o mundo que nos cerca, essas representações são recebidas pelo septo hipocampal e amígdala cerebral.

O septo hipocampal compara as impressões colhidas atuais com aquelas que foram armazenadas em nosso cérebro durante toda nossa existência, muitas vezes não somente do indivíduo, mas também da humanidade como um todo. Essa operação junta-se a comparações com os planos atuais de ação formulados no córtex pré-frontal e tudo isso regado à impressão afetiva dada pela amígdala  cerebral que  tem o registro afetivo das nossas memórias.

Se, de todas essas comparações, nosso cérebro nada estranha, não ocorre representação de perigo, tudo segue tranquilo. Contudo, se das comparações não ocorrem semelhanças, dá-se o estranhamento e ele pode ser interpretado como perigo. Começa em nosso corpo o surgimento da ansiedade e toda uma manobra fisiológica começa a ser regida para que consigamos nos defender.E todo esse processo é muito mais rápido do que qualquer banda larga de internet  em alta velocidade. Sim, é incrível!

O que vem a ser Transtorno de Ansiedade Generalizada?

Esse Transtorno, também conhecido pela sigla TAG, é um diagnóstico muito comum em pessoas que costumam estar sempre preocupadas. A TAG é mais encontrada em mulheres do que em homens e se caracteriza por pensamentos de preocupação por períodos longos do dia, seja com situações da sua realidade atual ou não. Quase sempre são preocupações antecipatórias e não a um grande evento somente, mas a qualquer evento da vida, daí ser nomeada generalizada.

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De uma forma geral, o pensamento da pessoa com TAG gira em torno de preocupações em que ocorre uma percepção de incerteza e que as coisas darão errado.  Mesmo que a princípio o pensamento seja positivo,este acaba dando espaço para pensamentos negativos que, por sua vez, geram preocupações.

A pessoa com TAG não tolera a incerteza natural que faz parte da vida, contudo essa intolerância não é consciente. A preocupação está a serviço de reduzir supostos eventos negativos.Sem ajuda especializada, esse ciclo de pensamento é de difícil controle.

A TAG, diferente de outros transtornos de ansiedade, não tem um forte componente genético,pois é um tipo de posicionamento aprendido dentro do meio em que o sujeito é criado e estabelece suas relações. A maioria das pessoas acometidas de TAG não encontram uma data precisa de quando  começaram a ser ansiosas.

Os pacientes naturalmente afirmam que sempre foram assim desde que “se conhecem por gente”.  E, de fato, não estão enganados! A TAG, ao contrário de outros transtornos, pode estar presente em famílias inteiras com vários membros tendo características de preocupação antecipatória, ora a principal característica do TAG.

Pessoas com TAG não reagem bem a sensações internas naturais, interpretam como algo disfuncional. A atenção está voltada para perigos em potencial. Essa postura acaba se tornando algo contínuo. A TAG é crônica.

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Mas se toda a família é assim, não está tudo bem?

Não, não está tudo bem. A ansiedade não é só uma forma de pensamento, ela vem acompanhada de um despertar de emoções que causam sensações físicas desagradáveis, como tensão muscular, dificuldade de concentração, irritabilidade, dificuldade de dormir, brancos mentais, sensação de cansaço por esforços corriqueiros.

A TAG pode estar associada a um alto índice de comorbidades,como problemas coronarianos e hipertensão, também se apresentando como fator de risco para desenvolver Depressão. A TAG está como pano de fundo de muitas queixas até mesmo intestinais, que, ao leigo, parecem não ter correlação. O intestino está intimamente ligado aos momentos de ansiedade, fazendo parte do circuito de luta ou fuga diante do estresse agudo.

Bem, é fácil perceber que quem tem TAG tem sua qualidade de vida bem inferior àquilo que poderia ser de fato. A pessoa que tem TAG sofre, e é comum nem desconfiar que a causa de seu sofrimento é a ansiedade, daí a necessidade de procurar  ajuda.

Os pacientes com TAG costumam chegar à ajuda médica por queixas somáticas, mas o olhar clínico do profissional logo entenderá a origem do problema. O paciente será encaminhado a profissionais de saúde mental, podendo então começar um tratamento. O psiquiatra e o psicólogo são os profissionais indicados para o tratamento da ansiedade generalizada.

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O psicólogo trabalhará no sentido de colocar o paciente em contato com o aqui/agora, com atenção plena ao momento presente, pois a pessoa com TAG tem a tendência de estar pensando lá na frente, no futuro, deixando déficits de atuação em seu momento imediato.

Ainda, é preciso que o paciente compreenda que suas alterações orgânicas diante da experiência são suas, e são internas, elas não são a representação fiel da experiência vivida, e não, por mais que seja desesperador,  ele não morrerá em uma crise de ansiedade.

Contudo, o entendimento e enfrentamento das crises devem ser guiados por um psicólogo e o paciente, se for necessário, deverá estar em acompanhamento médico.

Mesmo que a TAG seja crônica, o paciente começa a sentir a ansiedade de uma forma menos intensa e, portanto, menos prejudicial à sua vida a partir do acompanhamento profissional.

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Maria Luiza Rodrigues
Psicóloga(CRP 07/19741) graduada pela PUCRS, Sócia da Associação de Terapias Cognitivas do Rio Grande do Sul,administradora da página "Psicologia em Palavras Simples", colaboradora do Blog "cinquentaanos",tem experiência por mais de 20 anos de trabalho enquanto Monitora na Rede de Assistência Social de Alta Complexidade, pertencente à Fundação de Assistência Social e Cidadania( FASC) em Porto Alegre/RS

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