O estudo da vítima é alvo da ciência Vitimologia, que tem como precursor Benjamin Mendelsohn, nos anos pós Segunda Guerra Mundial. Essa ciência é utilizada pela Criminologia, ambas bastante utilizadas no âmbito do Direito. Em latim, o termo vítima: victus e victimia, traz a ideia de vencido, dominado.

Já o Vitimismo, segundo o dicionário Aurélio, é a SENSAÇÃO de ser vítima, não necessariamente SER vítima. Quando falamos em sensação, estamos também falando de percepção, uma função mental que diz da forma individual de apreender o que está acontecendo ao nosso redor em diversos sentidos, é a função cognitiva que utilizamos para dar significado ao que está ao nosso redor. Dessa forma, o Vitimismo é um assunto da Psicologia, indo além da concepção de vítima enquanto tópico da Vitimologia, Criminologia, Direito.

Na vida cotidiana, existem pessoas que insistem em ocupar o papel de vítima, mesmo sem sê-lo. Desse modo, exercitam o vitimismo em qualquer situação de suas vidas.

Heráclito de Éfeso, aproximadamente 540 a.C. – 470 a.C., filósofo pré-socrático, considerado o pai da dialética, trouxe-nos a ideia de que o ser humano está em constante transformação.

A Psicologia também entende que o ser humano está em uma constante construção e reconstrução de si mesmo, ou seja, está em transformação. Contudo, alguns arranjos psíquicos tendem a cristalizar certas condutas e pensares impedindo esse movimento.

O movimento de transformação proposto por Heráclito e observado pela Psicologia não se apresenta nas pessoas que insistem em vivenciar o Vitimismo. Essa insistência nesse estilo de pensamento constitui-se em uma distorção cognitiva, em que o outro é sempre a razão para os fracassos em sua vida.

Quem apresenta distorção cognitiva de vitimização não tem crítica sobre a sua forma particular de entender a realidade, fazendo-se necessário uma sinalização vinda de fora, seja de um amigo ou de um psicólogo, por exemplo. Contudo, nem sempre o paciente aceitará uma nova forma de interpretar a realidade com facilidade.

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Quem tem esse sentimento de ser vítima coloca no outro toda a culpa por estar sofrendo, por ter seu casamento arrasado, por haver perdido aquela promoção na empresa, por não ter conseguido ir viajar, por ter o peso aumentado. Pessoas nesse papel apresentam dificuldade de visualizar a sua responsabilidade naquilo que lhes acontece, pois tudo é culpa do outro.

A pessoa que se vitimiza, passivamente, espera que seu “algoz” mude, só para depois, em um segundo momento, ela mesmo mudar e/ou alcançar o que deseja. Entretanto, sempre aparecerá um novo condicionante externo para fazê-la sofrer, pois ela se sente “A vítima!”, só consegue ocupar esse papel, não se transforma, está rígida, não toma atitudes, apenas reclama da situação, apenas sofre.

O pior fato que pode acontecer para a pessoa que ocupa o papel de vítima , segundo a sua visão, é não ser reconhecida, é não causar impacto e pena em quem a vê e escuta, pois, dessa forma, tem de sair da sua zona de conforto, perdendo sua forma de manipular as outras pessoas, perdendo os benefícios secundários advindos dessa conduta. Os outros tomam atitudes por elas e arcam com as consequências dessas escolhas, mas aquele no “papel de vítima” fica de fora desse processo, o que, de forma não consciente, muito lhe agrada .

Sair do papel de vítima e ocupar o protagonismo de nossa própria vida é uma tarefa essencial para o desenvolvimento pessoal de cada um de nós. O entendimento do grau de participação nos fatos da nossa própria vida é importante para que se inicie a co-responsabilização pela nossa trajetória. É importante que assim como as ondas do mar, consigamos nos movimentar, nos transformar!

“O importante não é o que fizeram com você, mas o que você fez com aquilo que fizeram com você.”

Jean-Paul Sartre

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Maria Luiza Rodrigues
Psicóloga(CRP 07/19741) graduada pela PUCRS, Sócia da Associação de Terapias Cognitivas do Rio Grande do Sul,administradora da página "Psicologia em Palavras Simples", colaboradora do Blog "cinquentaanos",tem experiência por mais de 20 anos de trabalho enquanto Monitora na Rede de Assistência Social de Alta Complexidade, pertencente à Fundação de Assistência Social e Cidadania( FASC) em Porto Alegre/RS

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