O século XXI deixa sua grande digital já nas primeiras décadas: a liquidez. Segundo Zygmunt Bauman:“ Líquidos mudam de forma muito rapidamente, sob a menor pressão. Na verdade, são incapazes de manter a mesma forma por muito tempo. No atual estágio “líquido” da modernidade, os líquidos são deliberadamente impedidos de se solidificarem. A temperatura elevada — ou seja, o impulso de transgredir, de substituir, de acelerar a circulação de mercadorias rentáveis — não dá ao fluxo uma oportunidade de abrandar, nem o tempo necessário para condensar e solidificar-se em formas estáveis, com uma maior expectativa de vida”.  Mal sabia Bauman que o conceito estudado, comentado e impulsionado por ele teria tanto impacto nos desdobramentos do mundo atual em suas diversas faces.

O sociólogo polonês Zygmunt Bauman faleceu em janeiro de 2017, aos 91 anos. Suas mais de 50 obras e diversos artigos se dedicam a temas como o consumismo, a globalização e as transformações nas relações humanas.

Após ter servido durante a Segunda Guerra Mundial Bauman fez parte do Partido Comunista Polaco e anos mais tarde se formou em sociologia. Como professor na Universidade de Varsóvia, teve alguns de seus livros e artigos censurados e acabou afastado em 1968.

Bauman representa uma espécie de pensador que aliou os conhecimentos e a bagagem adquirida em sua trajetória e fez um Link com o mundo atual, gerando assim um conceito de “Mundo líquido”, “Vida líquida” que seriviria de base e desvendaria os problemas, dilemas e relações do mundo contemporâneo.

A partir das últimas décadas do século XIX, principalmente após a queda do Muro de Berlim, em 1989, a então modernidade sólida estaria em desintegração e gradualmente seria substituída  pela modernidade líquida.  A antiga confiança num futuro perfeitamente arquitetado pela razão foi substituída pela incerteza. O futuro tornou-se nebuloso, complexo e indefinido.

O mundo atual é extremamente complexo e desigual, fatos que são bem descritos nas obras de Bauman. Os paralelos, paradoxos, desigualdades, fragilidades e ambivalências são as tendências marcantes da era pós-moderna. A seguir alguns pontos relevantes dos tempos líquidos:

INCERTEZA

Bauman cita que “a incerteza é o habitat natural da vida humana – ainda que a esperança de escapar da incerteza seja o motor das atividades humanas. Escapar da incerteza é um ingrediente fundamental, mesmo que apenas tacitamente presumido, de todas e quaisquer imagens compósitas da felicidade. É por isso que a felicidade ‘genuína’ adequada e total sempre parece residir em algum lugar à frente: tal como o horizonte, que recua quando se tenta chegar mais perto dele.” Devido a velocidade extrema de informações e acontecimentos, os projetos e as grandes questões da humanidade se alteram na velocidade da luz. Nada é permanente, tudo pode mudar!

ONLINE / OFFLINE

A dualidade de personalidade e as aparências projetadas em uma vida real / virtual tornou-se a realidade do momento. A maior parte das pessoas vive uma vida dupla e sem sentido no mundo virtual, apresentando coisas, qualidades, emoções e formatos de vida que não condizem com a realidade vivida. Bauman comenta que os contatos online têm uma vantagem sobre os offline: são mais fáceis e menos arriscados — o que muita gente acha atraente. Eles tornam mais fácil se conectar e se desconectar. Casos as coisas fiquem “quentes” demais para o conforto, você pode simplesmente desligar, sem necessidade de explicações complexas, sem inventar desculpas, sem censuras ou culpa. Atrás do seu laptop ou iPhone, com fones no ouvido, você pode se cortar fora dos desconfortos do mundo offline. Mas não há almoços grátis, como diz um provérbio inglês: se você ganha algo, perde alguma coisa. Entre as coisas perdidas estão as habilidades necessárias para estabelecer relações de confiança, as para o que der vier, na saúde ou na tristeza, com outras pessoas. Relações cujos encantos você nunca conhecerá a menos que pratique. O problema é que, quanto mais você busca fugir dos inconvenientes da vida offline, maior será a tendência a se desconectar”.

SOLIDÃO

A solidão é marcante, os dias são enfadonhos e a vida perde facilmente o sentido. A nossa realidade é cruel, navegamos nas incertezas da vida. Estamos vivendo em uma multidão de solitários. Essa é a  triste realidade. As pessoas isolam-se notavelmente diante das circunstâncias. Estamos todos solitários em algum momento e diante de algumas variáveis. As expressões “bom dia” ou “boa noite” já causam estranheza para uma parcela significante das pessoas. A vida mecanizada tira um pouco da sensibilidade humana diante do cotidiano.

GLOBALIZAÇÃO

 O conceito de globalização surge no final do século XX e se intensifica com força no início do século XXI. A questão global faz menção às questões sociais, econômicas, políticas e de estilo de vida. Falar em globalização é falar em mercado consumidor, ações, governos, importações, exportações, informação, jornalismo, ciência e interação humana. As barreiras foram quebradas e agora um movimento de abalo em uma determinada economia pode gerar um “efeito dominó” em uma série de naçoes por exemplo. O globo encontra-se conectado e interagindo constantemente. A vida segue e nós nos ajustamos.

IDENTIDADE E MAL-ESTAR

 O ser humano no mundo líquido começa a ter uma dificuldade imensa em preservar e deixar intacta a sua própria identidade. A imensidão de partidos políticos, grupos, músicas, estilos de vida, religiões, livros, culturas, celebridades, comportamentos e inspirações geram uma sociedade em conflito sobre o que é certo ou errado, legal ou chato, sólido ou descartável e outros questionamentos desse tipo. O mal-estar é gerado quando o ser humano não consegue mais ter convicção e começa a entrar em conflito com a própria existência e sentir angústias e desconforto com o que presencia ao seu redor. Uma sociedade altamente fatiada e que se desintegra e reintegra a cada dia em busca de uma identidade equilibrada.

INSEGURANÇA

O medo, a insegurança e a ameaça iminente são os fatores preocupantes e desgastantes do mundo atual. Em maior ou menor intensidade isso gera pânico e desconforto na humanidade, governos e altera os modos de vida. O medo constante insere o indivíduo em um ambiente real e o projeto que pode acontecer… O sofrimento duplica quando notícias de atrocidades, crimes e ataques são divulgados através das mídias, gerando assim maior intensidade e alcance dos impactos negativos. A sociedade vive uma caos real e outro imaginário. Câmeras de segurança, muros altos, blindagens, iluminação e rastreamento constante maquiam a realidade dos nossos medos e nos dão um certo “alívio” diante das barbáries resultantes de crimes da pessoa humana.

   

Referências

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Douglas Henrique Reginato
Graduado em Administraçao de Empresas (Uenp) . Pós graduado em Gestão Estratégica de Pessoas (Unopar - PR). MBA em Marketing Estratégico voltado a lucratividade (Unifil Londrina). Gosto de musica clássica e leio livros e revistas dos mais variados temas. Procuro ampliar minha visão de mundo e contribuir de alguma forma com a sociedade. Sou um eterno estudante.

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